Insatisfação global com democracia atinge nível recorde

De acordo com levantamento da Universidade de Cambridge com dados de 154 países, 57,5% estão descontentes. Sem esta legitimidade enfraquecida, seria impossível Bolsonaro "alimentar abertamente" a nostalgia em relação à ditadura, diz documento

Marcos Corrêa/PR
Texto cita eleição de Jair Bolsonaro em 2018, mencionando que sua candidatura representava, entre outros aspectos, "a nostalgia da antiga ditadura militar do país"

São Paulo – Um novo relatório elaborado pelo Centro para o Futuro da Democracia da Universidade de Cambridge, com dados de 154 países ao longo de várias décadas, constata que em 2019 foi registrado o “mais alto nível de descontentamento democrático” desde 1995.

O levantamento utilizou um conjunto com dados exclusivos de mais de 4 milhões de pessoas, combinando mais de 25 projetos de pesquisas internacionais desenvolvidos entre 1995 e 2020.

De acordo com os pesquisadores, a proporção de indivíduos que se dizem “insatisfeitos” com a democracia aumentou significativamente desde meados dos anos 1990, subindo de 47,9% a 57,5% segundo a pesquisa.

O relatório aponta que a tendência de queda na satisfação com a democracia tem sido especialmente acentuada desde 2005, que marca o início do que alguns chamam de “recessão democrática global”. Somente 38,7% dos cidadãos estavam insatisfeitos naquele ano, número que aumentou em quase um quinto da população (quase 19 pontos percentuais), passando para 57,5%.

“A ascensão do populismo pode ser menos uma causa e mais um sintoma de mal-estar democrático”, disse Roberto Foa, do Departamento de Política e Estudos Internacionais de Cambridge.

“Sem essa legitimidade enfraquecida, seria impensável para um candidato à presidência dos EUA denunciar a democracia americana como fraudada, ou para o candidato à presidência vencedor na maior democracia da América Latina alimentar abertamente a nostalgia do regime militar”, diz ele, em referência à vitória eleitoral do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

“Se a confiança na democracia está diminuindo, é porque as instituições democráticas têm fracassado ao lidar com algumas das principais crises de nossa época, desde colapsos econômicos à ameaça do aquecimento global. Para restaurar a legitimidade democrática, isso precisa mudar.”

Futuro do Brasil “adiado mais uma vez”

O relatório tem um trecho dedicado ao Brasil. Cita que o país, em 1985, voltou ao regime democrático após duas décadas de ditadura civil-militar, mas que a insatisfação em relação à democracia permaneceu em nível elevados desde então.

“Uma breve exceção a esse mal-estar ocorreu durante a primeira década do século 21, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010”, pontua o documento, mencionando que a gestão do ex-presidente investiu em
programas para reduzir a “pobreza generalizada” e a desigualdade, ao mesmo tempo em que manteve o compromisso de conter a inflação e a dívida pública, além de atrair investimentos estrangeiros diretos.

“Quando foi concedido ao Brasil, em 2007, o direito de realizar a Copa do Mundo da Fifa, parecia que a previsão eterna de De Gaulle sobre o ‘país do futuro’ havia finalmente chegado – se não exatamente no futuro, ao menos naquele tempo democrático”, diz o documento. “Pela primeira vez foi registrado que a maioria dos brasileiros expressavam satisfação com seu sistema político – um sentimento de contentamento que duraria até o torneio em si, realizado em 2014.”
(Nota da Redação: na realidade, Brasil, País do Futuro é um livro do escritor austríaco de origem judaica Stephan Zweig, radicado do Brasil nos anos 1940 após fugir no nazismo; De Gaule teria cunhado “O Brasil é o país do futuro e sempre será”.)

O Centro para o Futuro da Democracia entende que o período foi “apenas um hiato entre dois períodos de instabilidade – um marcado pelas consequências do crise financeira dos mercados emergentes no final dos anos 90, e outro que começou com as investigações da Lava Jato”.

O texto cita ainda a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, mencionando que sua candidatura representava, entre outros aspectos, “a nostalgia da antiga ditadura militar do país”.  “Para o Brasil, ao que parece, o futuro foi adiado mais uma vez”, conclui.