Escalada de tensão

Crise entre EUA e Irã pode se estender a outros países do Oriente Médio 

Analista internacional Amauri Chamorro destaca que a maioria dos países da região é influenciada pelo Irã e grupos organizados que tinham boa relação com Soleimani podem também querer dar uma resposta aos EUA

CC 2.0 Majid Asgaripour
"É muito difícil que os Estados Unidos possam combater o Irã, entrar numa guerra, sem que ele puxe os países ao redor do Irã", afirma Amauri Chamorro

São Paulo – É muito difícil que os Estados Unidos possam entrar em guerra com Irã sem que o conflito não se alastre pelos países fronteiriços na região do Oriente Médio, adverte o analista internacional Amauri Chamorro em entrevista nesta quarta-feira (8) ao jornalista Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual. A avaliação leva em conta as notícias divulgadas na noite desta terça, quando, em comunicado online, o governo do Iraque confirmou que 22 mísseis foram disparados pelo Irã contra alvos dos EUA que ficam em duas bases iraquianas.

O ataque se deu em resposta ao atentado dos Estados Unidos, que matou nove pessoas na quinta (2), entre elas o chefe das Forças de Mobilização Popular do Iraque, Abu Mahdi al-Muhandis e o general Qassem Soleimani, líder da Força Al Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, reconhecido como herói por boa parte da população iraniana.

“Com exceção de Israel e Arábia Saudita, todos têm uma relação muito boa, diplomática com o Irã, e a suas populações em grande parte também”, explica Chamorro.

De acordo com o consultor, não é impensável que grupos paramilitares de países vizinhos também respondam contra os Estados Unidos. Isso porque alguns deles, conhecidos como milícias armadas de resistência, foram fortalecidos pelo próprio Soleimani para enfrentar as invasões como as realizadas pelo grupo Estado Islâmico no Iraque.

“O Irã tem uma grande capacidade e é isso que os Estados Unidos quiseram fazer, quebrar, romper, a coluna vertebral da relação do Irã com essas milícias na região que foram criadas, capacitadas, treinadas e tinham muito respeito ao general Soleimani. Então, basicamente todos os países da região, inclusive o Iraque, podem responder”, afirma o analista internacional.

Nos anos 80, o Iraque chegou a invadir o Irã por interesses políticos e territoriais, culminando em um conflito que durou oito anos, com um clima de animosidade que persistiu nos anos posteriores. No entanto, depois da invasão dos EUA no país, em 2003, pelo governo de George W. Bush, aos poucos o Irã começou a construir novas relações com os os governos que sucederam Saddam Hussein.

Por conta disso, Chamorro destaca que o atual conflito que se desenha surge em um contexto diverso ao das duas guerras do Golfo, não só porque o poderio bélico do Irã é hoje muito superior ao do Iraque nos dois conflitos como também pela relação construída pelo general Soleimani junto aos demais países da região.