Que diplomacia?

Para pesquisadora, comunidade internacional perde a confiança no Brasil com governo Bolsonaro

Junto com Estados Unidos, país participou esta semana de conferência na Colômbia e assinou compromisso de combate ao terrorismo

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Chanceler brasileiro, Ernesto Araújo (à dir.), sob o olhar do secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo

São Paulo – Passou quase despercebida pela imprensa de grande circulação no Brasil a participação do país na 3ª Conferência Ministerial Hemisférica de Luta contra o Terrorismo. O evento aconteceu em Bogotá, na Colômbia, na segunda-feira (20). O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, representou o governo do país, que assinou compromisso de combater o terrorismo, enquanto os Estados Unidos enviaram ao encontro um membro do alto escalão do governo Donald Trump, o secretário de Estado Mike Pompeo, um linha-dura em questões diplomáticas e de segurança nacional.

“Grupos terroristas transnacionais, incluindo o Hezbollah, apoiado pelo Irã, ainda estão ativos no Hemisfério Ocidental. A III Conferência Ministerial de Luta contra o Terrorismo de hoje é outro passo importante no fortalecimento de nossos esforços coletivos para combater essas perigosas ameaças à liberdade na região”, disse Pompeo, segundo reportagem do site Congresso em Foco.

Participaram do encontro 18 países. Além de Brasil e EUA, Argentina, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, República Dominicana, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia.

As nações divulgaram um comunicado conjunto no qual reverberam expressamente a posição norte-americana, ao expressar “sua preocupação com as atividades que redes do Hezbollah continuam a realizar em algumas áreas do hemisfério ocidental”. O documento saúda “as ações recentes de Estados da região no sentido de contra-arrestar as atividades das redes do Hezbollah. Também instaram outros governos a buscar formas mais efetivas de tratar dessa ameaça”.

Para Miriam Gomes Saraiva, pesquisadora do departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a mudança radical da diplomacia brasileira com o governo de Jair Bolsonaro – mais uma vez demonstrada no evento de Bogotá – está “acabando com a confiança” que o Brasil cultivou ao longo de décadas em sua diplomacia.

Em sua opinião, o Brasil, com o atual governo, em relação aos reflexos em sua imagem internacional, faz algo semelhante à Argentina quando iniciou a Guerra das Malvinas (1982). “O Brasil com Bolsonaro está fazendo um pouco isso. É uma coisa que não existia no Brasil, essa extrema-direita retrógrada. Conservadora seria um elogio. Retrógrada nos costumes, agressiva. Isso não existia”, diz.

A mudança na tradição diplomática brasileira é visível em sua posição de alinhamento incondicional aos Estados Unidos e o governo Donald Trump. “Antes de Bolsonaro, o Brasil sempre evitou assumir posições claras sobre quem considera terrorista, sobretudo por causa da Colômbia, para não classificar as Farcs como grupo terrorista”, explica.

Para Miriam, a repercussão da participação do Brasil na Conferência contra o terrorismo terá consequências se “o governo brasileiro pegar isso e vocalizar em relação ao Oriente Médio, se começar a classificar grupos do Oriente Médio como terroristas”, o que ainda não aconteceu após a conferência, embora o governo brasileiro já tenha apoiado os EUA em seu ataque que, no início de janeiro, matou o general iraniano Qassem Soleimani. “Aí começa a ter repercussão, respostas, consequências, e pode afetar relações econômicas. Mas enquanto ficar aqui na América, não passa nada”, afirma a pesquisadora, em entrevista à RBA.

Como avalia o compromisso assinado em Bogotá e a participação do Brasil?

Antes de Bolsonaro, o Brasil sempre evitou assumir posições claras sobre quem considera terrorista, sobretudo por causa da Colômbia, para não classificar as Farcs como grupo terrorista. As Farcs deixaram de ser um grupo armado e assinaram um acordo de paz, embora o ELN (Exército de Libertação Nacional) continue fazendo oposição armada. A Colômbia, secundada pelos Estados Unidos, sempre teve interesse em que os países da região tivessem uma posição mais dura e mais abrangente sobre terrorismo, incluindo como terroristas diferentes grupos armados de oposição, o que não acontecia.

Com a mudança de governos na região, isso foi se tornando mais fácil e vem sendo costurado há algum tempo. Com a questão do Irã, ficou mais evidente a “necessidade” de adotar uma posição mais abrangente sobre terrorismo e condená-lo. Se antes o Brasil tinha como terroristas a Al Qaeda, o Daesh (Estado Islâmico) e ponto, essa nova definição inclui grupos como Hezbollah e outros que lutam armados em terceiros países, que é o que acontece no Oriente Médio e se relaciona a quem os Estados Unidos querem pegar: o governo iraniano. O Brasil mudou e seguiu a indicação norte-americana e colombiana.

Participaram 18 países da conferência na Colômbia. O que essa lista revela? O Uruguai, por exemplo, não participa.

O México, a Nicarágua também não, assim como Cuba, obviamente. Os países que têm governos mais à esquerda não estão na lista, com exceção da Argentina, cujo governo foi eleito recentemente. A Argentina está com uma posição de não abandonar as formalidades. Ela segue no Grupo de Lima, por exemplo. Prefere participar e argumentar contra, dentro dessas instituições, do que sair. De fato, os países mais à esquerda não estão nesse grupo que se reuniu na Colômbia.

Claramente os países da conferência são na maioria apoiadores de ideário alinhado aos Estados Unidos, tirando a Argentina…

Tem governos aí que não são necessariamente alinhados. A Argentina é um. Costa Rica mais ou menos, Equador e Panamá mais ou menos. Canadá tem muitas semelhanças, mas muitas brigas também com os Estados Unidos. Mas a maioria sim. Certamente Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, El Salvador, Guatemala, Paraguai, Peru, que não é desalinhado mas também não é tão evidentemente alinhado, porque está numa situação interna muito instável, e não tem muito tempo para exercer política externa. Mas é um pessoal mais à direita aí na lista, com exceções.

Que repercussão a presença do Brasil nessa conferência pode ter no médio ou longo prazo, se é que não tem no curto também?

Olhe, não deve ter muita repercussão no curto prazo. Essa informação nem saiu com destaque em jornais de grande circulação. Como quando o Brasil pediu afastamento da Celac, na semana passada.

Mas qual país latino-americano, ou americano de forma geral, a assinatura desse acordo pode prejudicar? A relação com quem? Com ninguém. A relação com a Venezuela já é horrível, com Cuba também. Então não chega a afetar. Vai afetar se o governo brasileiro pegar isso e vocalizar em relação ao Oriente Médio. Se começar a usar esses critérios para classificar grupos do Oriente Médio que lutam em terras alheias como terroristas, aí começa a ter repercussão, respostas, consequências, e pode afetar relações econômicas. Mas enquanto ficar aqui na América não passa nada.

Na crise Irã-Estados Unidos, Bolsonaro deu uma declaração considerada um acinte à tradição diplomática brasileira, atribuindo ao Irã o caráter de terrorismo. Que consequências isso pode gerar?

Bolsonaro falou muito rápido, mas falar essas maluquices ele fala. Neste caso foi mais grave porque, seguindo o que ele falou, o Itamaraty publicou uma nota referendando. Quando ele falou que o Alberto Fernández (presidente da Argentina) era “esquerdalha” o Itamaraty não falou nada. Mas quando falou que o Irã incentivava e dava apoio ao terrorismo na região, soltaram uma nota, o que foi grave. Por isso a diplomacia brasileira em Teerã foi chamada. Até agora não teve consequências, em termos de comércio, consequências dessa natureza, mas pode vir a ter, dependendo de como o assunto se desenvolva.

O secretário de Estado Mike Pompeo participou da conferência em Bogotá e disse que “grupos terroristas transnacionais, incluindo o Hezbollah, apoiado pelo Irã, ainda estão ativos no Hemisfério Ocidental”. Ao seguir os Estados Unidos, o Brasil concorda com a “linha dura” de Pompeo, o que não aconteceria em anos anteriores…

Mike Pompeo tem esse perfil e certamente impulsiona e organiza esses encontros. Ele claramente classificou o Hezbollah como terrorista, mas Bolsonaro, na declaração dele, já tinha insinuado. Há grupos que o Irã, de um jeito ou de outro, financia. Às vezes para desestabilizar um governo, mas às vezes para apoiar um governo. No caso da Síria, o Hezbollah estava apoiando um governo instituído. No caso do Líbano muitas vezes também. Depende das circunstâncias. No caso do Iraque, alguns apoiavam o governo iraquiano.

Os grupos que são ligados a um Estado não eram historicamente chamados de terroristas, e agora estão sendo. Os que eram “terroristas” inicialmente, Al Qaeda e Estado Islâmico, não lutavam a mando de país nenhum, eram sem nacionalidade. Por isso, ao dizer que o Estado Islâmico é terrorista, não tem nenhum Estado que você possa afetar. Mas é diferente se você fala de grupos ligados ao Irã ou à Arábia Saudita que fazem luta armada em países dos outros.

Como avalia a mudança radical de posição da diplomacia brasileira?

Foi completamente radical. Teria que ver para a frente o que vai acontecer. Se o Irã e o Trump se acalmam e não tocam no assunto da crise Irã-EUA, e eles não parecem muito dispostos a se enfrentar, pode até ser que esse assunto fique na gaveta e não tenha muita relevância. Mas se acontecer um atentado, alguma violência, aí assim, a posição do Brasil pode vir à tona.

Digamos que Bolsonaro não se reeleja. Não se sabe nem se vai acabar o mandato. Mas se o próximo presidente for de oposição, ele vai rever tudo isso ou vai inercialmente manter aquilo que está escrito e talvez rever se tiver problemas? De todo modo, o problema das mudanças na diplomacia é que essas coisas vão sendo incorporadas. Não é tão simples, depois, dizer que tudo o que foi dito nos últimos quatros anos caiu, que é para apagar. Porque Bolsonaro é um governo. Quem fala – sobretudo o que o Itamaraty escreve – não é o Bolsonaro, é a personalidade jurídica Brasil, o Estado brasileiro. Ou o próximo presidente faz uma autocrítica, revê tudo e diz que nada disso foi verdade, ou ele vai mudando lentamente de acordo com as circunstâncias.

Mas as outras nações não estarão desconfiadas do Brasil? As relações não se tornarão mais difíceis?

Sim. Essas marcas vão ficando “arquivadas”. Por exemplo, o Brasil hoje já não está lutando para ser membro permanente no Conselho de Segurança da ONU. Digamos que o próximo presidente eleito, Lula por exemplo, reivindique um lugar no Conselho de Segurança. Vai haver mais resistência. Quando a Argentina fez a guerra das Malvinas, dali para a frente nenhum país nunca mais especulou a possibilidade de a Argentina ser membro do Conselho Permanente do Conselho de Segurança. “Um país que invade um outro, como assim?”

O Brasil com Bolsonaro está fazendo um pouco isso, acabando com a confiança. Mesmo com outro presidente, podem falar: “e se na eleição seguinte esse sujeito volta?” É uma coisa que não existia no Brasil, essa extrema-direita retrógrada. Conservadora seria um elogio. Retrógrada nos costumes, agressiva. Isso não existia. Nem mesmo com os militares. Eles fizeram ditadura numa época em que havia ditadura em muitos países na região, o Brasil não era o único. E eles não eram particularmente agressivos no que dizia respeito aos costumes.

E também não diplomaticamente…

Também não diplomaticamente. O que incomodava diplomaticamente era o que acontecia dentro do Brasil, mas não o que se falava para fora, que o Itamaraty segurava. O que falava para fora era um discurso razoável, melhor que o do Bolsonaro. A preocupação que gerava, sobretudo entre os europeus, eram as torturas e a ditadura dentro do país. Bolsonaro não, ele joga no discurso para fora também. Esse negócio de Goebbels. O ex-secretário de Cultura travestido de Goebbels? Isso é horrível. Saiu em jornais mundo afora. Depois, quando você disser “olha, não quer fazer um acordo com esse país?”, é difícil de recompor relações nessas circunstâncias. Essa é a herança que o Bolsonaro vai deixar para o presidente seguinte.