Omissão

Bolsonaro fica calado sobre ataque dos EUA ao Irã e fala em preço de petróleo

Silêncio sobre assassinato de líder iraniano leva termo "Bolsonaro fica calado" ao topo das redes. Região tem revolta. EUA manda americanos saírem do Iraque

Reprodução Youtube
Bolsonaro já expressou lealdade à bandeira americana

São Paulo – O assassinato do comandante militar iraniano Qassem Soleimani por ordem de Donald Trump ocorreu por volta das 23h de ontem (dia 2, hora de Brasília). O ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, classificou o bombardeio ao aeroporto de Bagdá, no Iraque, com “terrorismo internacional” de Trump. O ato do governo dos Estados Unidos causou perplexidade ao mundo e suscitou manifestações de revolta em vários países da região. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro fica calado sobre a conduta norte-americana.

Ao não se manifestar sobre o gesto de Trump, #BolsonaroFicaCalado subiu ao topo das menções no Twitter, disputando o ranking com #Trump#TerceiraGuerraMundial, sendo a maioria dos comentários críticas em forma de sátira e ironia.

Qual será a reação do Irã

Quase 10 horas depois do ataque, o presidente brasileiro limitou-se na manhã de hoje (3) a especular sobre o impacto no preço do petróleo. Bolsonaro mencionou uma possível alta no custo de combustíveis no país devido ao ataque dos Estados Unidos que matou o general Soleimani. Na saída do Palácio da Alvorada, em meio a um pronunciamento improvisado em que repetia bravatas ideológicas relacionadas à educação, previu um impacto no preço do petróleo no mercado internacional. “Que vai impactar, vai. Agora, vamos ver nosso limite aqui. Porque, se subir, já está alto o combustível, se subir muito complica.”

Perplexidade e repúdio

Nos países do Oriente Médio o clima é de perplexidade. Governos e organizações anti-americanas manifestaram contundente repúdio. A Síria condenou veementemente o que chamou de “agressão traiçoeira e criminosa norte-americana” que matou o general iraniano, alertando que constitui uma “escalada perigosa” da tensão na região, segundo o Diário de Notícias da rede Al Jazeera.

O Ministério dos Negócios Exteriores sírio declarou, em nota, que o ataque reafirma a responsabilidade dos Estados Unidos pela instabilidade no Iraque, como parte de sua política de “criar tensões e alimentar conflitos nos países da região”. A nota do Ministério sírio indicou que o ataque apenas fortalecerá a determinação de continuar no caminho estabelecido “pelos líderes martirizados da resistência contra a interferência norte-americana nos assuntos dos países da região”.

Rebeldes do Iémen apoiaram as manifestações do aiatolá Ali Khamenei após o assassínio do general Qassem Soleimani. “Condenamos esse assassinato e entendemos que represálias rápidas e diretas são a solução”, disse Mohammed Ali al-Huthi, um alto responsável da liderança política dos rebeldes Huthis, em sua conta na rede social Twitter. Apoiados pelo Irã, os rebeldes Huthis tomaram em 2014 a capital do Iémen, Sana, e áreas inteiras do país devastado por uma guerra que causou a mais grave crise humanitária do mundo, segundo a ONU.

O líder do movimento xiita libanês Hezbollah, Hassan Nasrallah, também aliado do Irã, defende “a justa punição” aos “assassinos criminosos” responsáveis pela morte do general.

O movimento islâmico Hamas, no poder na Faixa de Gaza, assentamento palestino com 2 milhões de habitantes, condenou o ataque norte-americano contra “o mártir” Qassem Soleimani, “um dos mais eminentes chefes de guerra iranianos”. O grupo considera o ataque um “crime norte-americano que aumenta as tensões na região”.

O grupo armado Frente Popular de Libertação da Palestina (PFLP) pediu uma resposta “coordenada” das “forças de resistência” na região.

No Líbano, o Ministério dos Negócios Estrangeiros pediu que o país e a região sejam poupados das repercussões do bombardeio dos EUA no Iraque. E condenou o ataque, afirmando ser uma violação da soberania iraquiana e uma perigosa subida da tensão com o Irã.

Abandonar o Iraque

A Guarda Revolucionária do Irã confirmou na manhã de hoje (dia 3, no horário local) a morte do general Qassem Soleimani, na sequência de um ataque aéreo no aeroporto de Bagdá, e que também visou o “número dois” da coligação de grupos paramilitares pró-iranianos no Iraque, Abu Mehdi al-Muhandis.

O presidente dos Estados Unidos ordenou a morte do comandante da força de elite iraniana Al-Quds, conforme comunicado oficial do Pentágono, a pretexto de “proteger” a região de um suposto plano de ataque liderado por Soleimani.

A tentativa de causar um sentimento de “união e proteção” dos americanos não é a primeira empreitada de um ocupante da Casa Branca em ano eleitoral. George W. Bush desencadeou a Guerra do Iraque, em 2003, alegando o uso jamais comprovado de armas químicas por parte do país então liderado por Sadam Hussein.

Na manhã desta sexta-feira, Donald Trump, que concorrerá à reeleição em novembro deste ano, enfatizou o tom ufanista ao tuitar que o Irã “nunca ganhou uma guerra, mas nunca perdeu uma negociação”.

A embaixada dos Estados Unidos em Bagdá pediu a todos que deixem o Iraque imediatamente. “Devido ao aumento das tensões no Iraque e na região, a Embaixada dos EUA pede aos cidadãos americanos que sigam o Aviso de Viagem de janeiro de 2020 e saiam do Iraque imediatamente. Os cidadãos dos EUA devem partir via companhia aérea sempre que possível, e, na sua falta, para outros países via terra”, disse o comunicado.