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Reino Unido dobra à direita com novo primeiro-ministro, Boris Johnson

Boris Johnson, do Partido Conservador, pode ser considerado o mais reacionário primeiro-ministro da história democrática da Inglaterra. Entenda como ele chegou lá e o que representa
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
06:44
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Missão principal de Johnson é retirar o Reino Unido da União Europeia à qualquer custo

São Paulo – Nomeado primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson discursou ontem (25) aos ingleses após encontro com a rainha. Sua ascensão representa uma forte guinada à direita da política no país. Johnson compartilha visões com outros líderes da extrema-direita, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ou mesmo o presidente Jair Bolsonaro (PSL). A diferença está na eloquência do historiador e jornalista Johnson.

Em seu primeiro discurso à nação, após ser conduzido à liderança de seu Partido Conservador, o que lhe posicionou como premiê, adotou um tom mais conciliador do que em outras ocasiões. Entretanto, não deixou de lado a sua missão mais radical: retirar o Reino Unido da União Europeia a qualquer custo. Também esteve presente ali sua base ideológica nacionalista.

Sua antecessora, Theresa May, do mesmo partido, não conseguiu convencer o Parlamento sobre um acordo com a UE costurado em novembro, o que postergou o chamado Brexit. Johnson afirma que tentará um acordo mais benéfico ao seu país mas que, até o final de outubro, concluirá o projeto com ou sem acordo com o bloco. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junkcer, disse estar disposto a trabalhar com Johnson, mas acrescentou que a UE está firme em sua decisão de não renegociar os termos.

Para o analista político Tim Bale, “é muito difícil ver exatamente como ele (Johnson) vai convencer os 27 países da UE a dar o que ele quer. Mas ele parece totalmente convencido de que, ao ameaçar sair da UE, de alguma forma ele conseguirá um acordo melhor do que Theresa May”, disse ao DW.

Sem conversa

“A UE é uma porcaria, mas não temos alternativa”, disse Johnson em abril de 2016, pouco antes da consulta pública sobre o tema, realizada em junho. Ele foi o grande líder do Brexit. A vitória do processo em referendo foi a grande vitória política para ele, que já fora parlamentar, prefeito de Londres e ministro das Relações Exteriores. Para analistas, um Brexit sem acordo seria uma tragédia econômica e diplomática tanto para o Reino Unido como para a União Europeia.

Mesmo o presidente do Banco Central da Inglaterra (BoE), Mark Carney, teme o processo. “É um risco considerável no caso de nenhum acordo. Em uma grande mudança é sempre melhor ter um período de transição”, disse ao The Economist, ao apontar desequilíbrios na economia, como disparada nos juros e desvalorização, tanto do euro como da libra esterlina.

Para o jornalista inglês, opositor ao Brexit, Walter Oppenheimer, do periódico espanhol El País, a conta de um processo de desligamento sem acordo pode resultar até mesmo em falta de comida. “As exportações deverão pagar tarifas e submeter-se a controles de fronteira; muitos produtos frescos enfrentarão controles sanitários para entrar na EU; as montadoras de veículos podem ficar paralisadas em questão de dias por falta de componentes (…); teme-se a escassez de alimentos e medicamentos (…), entre outros milhares de casos.”

Make UK Great Again

Nas últimas décadas, a indústria inglesa sofreu um processo de sucateamento com a mudança no papel do país dentro da divisão internacional do capital. Este – um dos pontos que coloca o abastecimento do país em risco – é justamente uma das fontes do nacionalismo inglês, externado por Johnson.

O jornalista fundador do portal Opera Mundi, Breno Altman, em análise de 20 minutos sobre o tema, explicou o processo. “A Inglaterra veio perdendo indústrias desde os anos 40. Fábricas emblemáticas do Reino Unido não pertencem mais ao capital inglês. A projeção de negócios do país, fundamentalmente, vincula seu papel dentro de uma lógica de que a burguesia financeira desempenharia um papel de centro financeiro do mundo.”

Logo, a burguesia inglesa sofreu uma mudança drástica. Antes, país berço de revoluções industriais, agora passou a ser um país de serviços, sobretudo financeiros. “Esse processo foi criando consequências dramáticas. O capital tradicional foi perdendo importância. Pequena e média indústria, agricultura, vários setores foram perdendo força, sendo comprados por grupos estrangeiros ou fechando as portas. Alimentos, vestuário, produtos quase todos importados”, explica Altman.

Essa mudança provocou parte da burguesia inglesa, bem como setores tradicionais de trabalhadores industriais, que se voltaram para um discurso nacionalista. Alto como o que aconteceu nos Estados Unidos, com o slogan de Trump, Make America Great Again, em referência a um passado supostamente glorioso em indústrias locais.

Extrema-direita

O nacionalismo não é o único ponto de convergência entre Johnson e políticos da extrema-direita. Populista, não raramente usa o clássico discurso raso contra imigrantes como se fossem fonte de problemas criados pela própria natureza do capitalismo local. Para Altman, Johnson é o líder mais radical da história democrática inglesa. “Boris é o mais reacionário líder que o mais reacionário partido da Grã-Bretanha jamais teve.”

“Um sujeito extrovertido, fora dos padrões formais britânicos, um pouco clown nesta cultura farsesca que vem lá do fascismo com Mussolini e outros líderes do estilo, que tem sido reavivado por figuras como Trump, Bolsonaro e outros. É um homem capaz de fazer referências racistas, homofóbicas e misóginas sem medir consequências. Recorrendo a isso e outros preconceitos para mobilizar e atrair sua base mais atrasada, mais municiada de valores reacionários”, completou Altman, ao afirmar que Johnson é mais reacionário até do que a dama de ferro, Margaret Thatcher.

Primeira-ministra durante toda a década de 1980, Thatcher implementou o neoliberalismo de forma agressiva no Reino Unido, destruindo o Estado de bem-estar social. “Thatcher conduziu o maior processo de destruição de direitos que o país já viu. Embora Thatcher tivesse predicados reacionários, ela não chega aos pés de Boris Johnson. Boris defende tudo que Thatcher defendia. Um cidadão que está provido dos preconceitos mais absurdos e, além disso, é um homem que pode ameaçar determinadas liberdades democráticas no Reino Unido. Certamente representa o crescimento de uma corrente de opinião que, pegando carona no nacionalismo do Brexit, ultrarreacionária, neofascista”, finalizou Altman.

O outro lado

Se dos conservadores ascendeu o líder mais reacionário da história recente do Reino Unido, a oposição se posiciona com o mais progressista: Jeremy Corbyn. O trabalhista carrega uma solução oposta para os problemas de seu país. Ao invés de mergulhar no nacionalismo imperialista, Corbyn prega estatizações e maior papel do Estado nas relações econômicas para assegurar a justiça social. “Corbyn se transformou em uma resposta de setores dos trabalhadores que não se voltam para o discurso anti sistêmico alá Boris”, afirmou Altman.

Além dos fatores já citados para a ascensão de Johnson, um certo temor do status quo burguês em ver o Estado mexer em seus privilégios para beneficiar os trabalhadores provocou o extremismo de um, antes moderado, Partido Conservador. “Assim como a eleição de Corbyn para a liderança dos trabalhadores foi uma guinada à esquerda de setores das bases trabalhadoras. Diante do colapso do capitalismo depois de 2008, se colocou por terra paradigmas essenciais do neoliberalismo e da globalização. Então, a disputa de projetos se radicalizou. Boris é a expressão da radicalização.”

Internacionalismo trabalhista

A posição radicalmente apartada entre dois extremos ideológicos no Reino Unido possui similaridades com outros locais do mundo, como Estados Unidos e Brasil. Hoje, Corbyn fez um discurso para defender a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Prisão vista por muitos setores como política. “Precisamos enviar uma mensagem de solidariedade para aqueles que estão tentando defender a democracia, defender as conquistas alcançadas no Brasil”, disse o líder inglês.

“Conquistas de sucessivos sindicatos e, principalmente dos governos liderados por Lula e Dilma. A prisão de Lula é completamente inaceitável. Acho que temos que mandar a mensagem de solidariedade para Lula e pedir sua libertação, para que ele possa continuar seu trabalho como socialista, como sindicalista e ativista político no Brasil. Isso é tentar unir o povo em defesa do bem-estar social”, completou.