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Chilenos recebem Bolsonaro com protestos

'Governo brasileiro, em termos internacionais, é uma ameaça ao Estado', diz Thomas Heye, da UFF. 'No Chile, as pessoas têm memória do que foi a ditadura de Pinochet', afirma Pedro Fassoni, da PUC
Publicado por Eduardo Maretti, da RBA
20:00
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Marcos Corrêa/PR
Bolsonaro Piñera

Presidente do Chile, Sebastián Piñera, e Bolsonaro em visita oficial do brasileiro após passar pelos EUA: crises

São Paulo – Em sua visita oficial ao Chile após passar pelos Estados Unidos, o presidente Jair Bolsonaro foi recebido por protestos populares e pronunciamentos contundentes de deputados e senadores chilenos. Mais do que lideranças políticas, as torcidas dos dois principais times de futebol do país, Universidad de Chile e Colo-Colo, convocaram para sábado (23), no Paseo Bulnes, em Santiago, uma manifestação contra a presença do chefe de Estado brasileiro no país.  “Bolsonaro não é bem-vindo”, dizem as torcidas em comunicado.

As reações à declaração do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, defendendo a política econômica do ditador Augusto Pinochet, foram imediatas por parte dos mais altos representantes do Legislativo do Chile.

Lorenzoni protagonizou mais uma vez um dos episódios que mancharão por muito tempo a história da diplomacia brasileira. “No período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue”, disse o ministro, para defender “as bases macroeconômicas” implementadas pelo governo genocida do presidente Augusto Pinochet.

Depois de informar, na terça (19), que não participarão no sábado de almoço oferecido pelo presidente chileno, Sebastián Piñera, a Bolsonaro, os presidentes do Senado (Jaime Quintana) e da Câmara dos Deputados do Chile (Iván Flores) responderam a Onyx Lorenzoni.

“A menção deste porta-voz do presidente Bolsonaro, um personagem importante do governo brasileiro, a um ‘banho de sangue’ no Chile é uma afronta a todas as pessoas que perderam familiares, a todos que sofreram com as violações de direitos humanos”, disse Flores.

“Não me lembro de declarações assim de um governo cujo mandatário pisou em solo chileno. Elas ofendem não só as vítimas das violações de direitos humanos, mas o país inteiro”, respondeu Quintana.

A viagem de Bolsonaro ao Chile provocou protestos por parte de deputados progressistas, ativistas gays e antifascistas. Segundo o jornal britânico The Guardian, o deputado federal Tomas Hirsch também se recusou a ir ao almoço com a seguinte justificativa: “Obviamente não vou participar de um almoço com um populista fascista, violento e perigoso como Bolsonaro”.

Na opinião de Thomas Heye, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), o comportamento do governo brasileiro em relações exteriores deixará uma memória difícil de apagar. “Bolsonaro, em termos internacionais, é realmente uma ameaça ao Estado brasileiro, porque o tempo, na política internacional, é diferente: as pessoas costumam se lembrar das coisas muito tempo depois de elas acontecerem”.

Para ele, os sucessivos vexames internacionais de Bolsonaro em suas viagens a Davos, Estados Unidos e Chile “mancham a imagem do Brasil, mancham o Estado brasileiro de uma maneira muito forte”. “Um símbolo disso é que a Unasul, que eles querem enterrar, foi uma iniciativa protagonizada ou conduzida pelo Brasil, mas agora, com essa história de Prosul, o Brasil está indo a reboque de outros países.”

Foi anunciada nesta sexta-feira (22), em Santiago, por Piñera, a Declaração de Santiago, que propõe a criação do Prosul, bloco de nações latino-americanas que substituirá a Unasul e será formado por 12 países: Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai, Costa Rica, Colômbia, Equador, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. 

Na avaliação de Pedro Fassoni, do Departamento de Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), falas como a de Lorenzoni ou Bolsonaro são coerentes com o que eles representam política e economicamente, inclusive porque o ideário das soluções para a economia defendidas pelo atual governo brasileiro são muito semelhantes às de Pinochet.

“Essas declarações mostram a falta de qualquer compromisso do liberalismo econômico que eles defendem com a democracia, passando por cima dos direitos humanos e das liberdades individuais”, diz Fassoni. A ditadura de Pinochet matou cerca de 30 mil pessoas.

O professor da PUC-SP lembra que Bolsonaro é “um notório defensor da ditadura no Brasil e da tortura”, o que ele próprio, muito antes de ser presidente, já explicitou publicamente. “No Chile as pessoas têm memória do que foi a ditadura de Pinochet ali.”

Ele destaca ainda que o ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, é um “Chicago Boy”, por ser filiado às teorias da Escola de Chicago. “Os chamados Chicago Boys foram assessores do Pinochet durante a ditadura. Paulo Guedes jamais escondeu sua simpatia pelo modelo chileno e a própria proposta de reforma da Previdência é inspirada no modelo chileno de capitalização.”

Palestina

Segundo matéria de Jamil Chade, no portal UOL, o governo brasileiro votou contra os palestinos no Conselho de Direitos Humanos da ONU, rejeitando resoluções que condenavam Israel por crimes em conflitos em 2018, em Gaza.

Trata-se de uma posição inédita da diplomacia brasileira. “Isto tem um preço altíssimo ao país. Como sociedade, como país, como nação. O Brasil tem um histórico de posições em prol de resoluções pacíficas mediadas pela ONU, em relação à questão palestina. O país não pode mudar de posição ao sabor ideológico do governo de plantão. Isso assinala aos outros países que somos inconstantes, instáveis, não confiáveis” diz Heye.

“O Brasil é um dos pouquíssimos países do mundo que hoje vota com os Estados Unidos quando se trata de Israel. O terrorismo de Estado praticado por Israel contra os palestinos na Cisjordânia e Faixa de Gaza é repudiado pela quase totalidade da comunidade internacional”, afirma Fassoni.

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