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'Pulsão totalitária do capital financeiro quer ocupar o lugar da política'

Em entrevista ao "Sul21", jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni fala sobre o enfraquecimento dos Estados na América Latina diante do poder econômico transnacional
por Redação RBA publicado 06/08/2018 17h15, última modificação 06/08/2018 19h06
Em entrevista ao "Sul21", jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni fala sobre o enfraquecimento dos Estados na América Latina diante do poder econômico transnacional
Joana Berwanger/Sul21
Eugenio Raúl Zaffaroni

"O Brasil não precisa ter o número de presos e de processados que têm", aponta Zaffaroni

São Paulo – "Temos um poder financeiro mundial com imensas corporações transnacionais, com um volume econômico que supera o de muitos países. Isso está virando uma pulsão totalitária. Não digo que ela esteja já dominando tudo plenamente, mas se trata de uma pulsão de domínio que quer ocupar o lugar da política." A avaliação é do jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni em entrevista ao jornalista Marco Weissheimer, do Sul21. Segundo ele, "o objetivo desses interesses é impor sociedades com 30% de incorporados e 70% de excluídos".

A essa altura, não seria mais necessário fazer lobbies, já que os representantes do poder financeiro ocupam parte do poder estatal. Para essa estrutura, o papel dos veículos midiáticos é fundamental. "Nessa tentativa de criar uma sociedade 70×30, em algum momento terão que conter os 70% de excluídos e o jeito de contê-los é utilizando, primeiro, o monopólio midiático. Não é que esses monopólios midiáticos estejam a serviço dessas corporações e do capital financeiro, fazem parte dele."

Zaffaroni também falou sobre o funcionamento do sistema penal brasileiro, afirmando que nunca viu "uma compartimentalização tão extrema" como a que existe no país. "O Brasil não precisa ter o número de presos e de processados que têm. As cadeias estão cheias de autores de pequenos furtos, pequenos ladrões, de pessoas que vendem maconha na esquina. Isso gera uma exclusão social especial que espalha-se pela família. Isso está criando um sério problema de violência. Há um aparelho no Estado que cria violência."

Nesse aspecto, a atuação do sistema penal colabora com os objetivos do poder financeiro global de tornar os Estados mais fracos e ocupar o lugar da política. "Ele é funcional a esse poder. Na medida em que criam e potencializam a violência, estão enfraquecendo o Estado, que é o eles querem. Além disso, está dividindo a sociedade, criando essa classe média que é imaginária, pois não é uma realidade econômica. Na Índia, criaram uma casta de párias e o resto da sociedade considera-se superior a eles. É um tipo especial de racismo. E a mídia fica pedindo cada vez mais prisões, reproduzindo cada vez mais violência. É um mecanismo totalmente funcional a essa pulsão totalitária do capitalismo financeiro."

Confira a entrevista na íntegra aqui.