RELAÇÕES EUA-CUBA

Obama e Raúl Castro se reúnem pela primeira vez em território cubano

Em seu segundo dia em Cuba, presidente dos Estados Unidos participará de cerimônia em homenagem a José Martí e de fórum empresarial com empreendedores cubanos

Ismael Francisco/Cuba Debate
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Ontem, Obama e sua família fizeram um tour pela capital cubana, conhecendo alguns pontos históricos

Opera Mundi – Em seu 2º dia em Cuba, o presidente dos EUA, Barack Obama, se reunirá hoje (21) com seu homólogo cubano, Raúl Castro, em Havana. Este será o 3º encontro entre os dois presidentes desde o anúncio do restabelecimento de relações entre os dois países, em dezembro de 2014, mas o 1º que acontece em território cubano.

O presidente norte-americano começará o dia com uma homenagem a José Martí, herói nacional cubano, deixando uma coroa de flores diante de sua estátua na Praça da Revolução e visitando o memorial de Martí no centro da capital cubana.

O encontro com Raúl Castro acontece logo em seguida e está previsto para as 11h (12h em Brasília). O presidente dos EUA e sua comitiva visitarão o Palácio da Revolução, sede do governo cubano, para iniciar as conversas oficiais com representantes do governo. Castro e Obama farão uma declaração conjunta à imprensa às 14h (15h em Brasília).

Mais tarde, o presidente norte-americano participará de um fórum empresarial junto a empreendedores locais, empresas estatais e cooperativas cubanas para discutir maneiras de fortalecer as relações econômicas entre Cuba e EUA.

Pela parte norte-americana, participarão desse encontro o fundador da empresa de aluguel de imóveis particulares Airbnb, Brian Chesky, o diretor administrativo e assessor geral da rede hoteleira Starwood, Kenneth S. Siegel, e o executivo-chefe de PayPal, Daniel Schulman, além do chef espanhol José Andrés, que possui vários restaurantes nos EUA.

Também participará desse fórum o cubano-americano Saul Berenthal, cofundador da Cleber, a primeira empresa dos EUA que conseguiu, no mês passado, uma licença do Departamento do Tesouro norte-americano para instalar-se em Cuba – no caso, uma fábrica para produzir tratores na Zona Especial de Desenvolvimento Mariel.

A agenda de Obama na segunda-feira se concluirá com um jantar de Estado, oferecido pelo presidente Raúl Castro, no Palácio da Revolução.

John Kerry, o secretário de Estado norte-americano, realizará dois encontros com as delegações do governo da Colômbia e das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) para se inteirar dos diálogos de paz para pôr fim ao conflito colombiano que estão sendo realizados na capital cubana desde 2012.

Barack Obama, sua família e uma comitiva oficial com representantes do governo e do empresariado dos EUA, chegaram a Havana ontem (20), iniciando assim a primeira visita oficial de um presidente norte-americano em exercício a Cuba em 88 anos.

Em seu primeiro dia na ilha, Obama e sua família fizeram um tour pela capital cubana, conhecendo alguns pontos históricos. O presidente dos EUA também conversou com funcionários da embaixada norte-americana em Havana, reaberta em julho de 2015.

Rendição americana

O governo dos EUA tem afirmado também que a visita de Obama à ilha é necessária para “discutir a questão dos direitos humanos” em Cuba, mas para Nildo Ouriques, presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a viagem atenta para outros interesses.

Para o professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC, os Estados Unidos estão interessados em melhorar sua própria posição no jogo geopolítico da região. “Cuba não mudou uma molécula de sua posição, quem se rendeu foram os Estados Unidos, que estavam isolados na América Latina”, diz Ouriques.

Desde a retomada de relações entre Cuba e EUA, há um ano e três meses, houve uma série de ações de ambos os lados, como a liberação de alguns prisioneiros políticos cubanos e a retirada de Cuba da lista de países terroristas por parte dos Estados Unidos. Já Cuba libertou os 53 presos políticos reivindicados pelos Estados Unidos.

O principal motivo de impasse entre os dois países continua sendo o bloqueio econômico, imposto aos cubanos há mais de cinco décadas. Na última quinta-feira (17), o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez, afirmou em entrevista coletiva que, na prática, as restrições não foram derrubadas. “O bloqueio segue e seguirá enquanto não se adotarem outras decisões para levantá-lo definitivamente”.

No dia 15 de março, os Departamentos do Tesouro e do Comércio dos Estados Unidos emitiram novos regulamentos que modificam a aplicação de alguns aspectos do bloqueio dos Estados Unidos a Cuba. Este é o 4º anúncio do gênero realizado pelo governo dos EUA desde a reaproximação dos dois países no fim de 2014. Por se tratar de uma lei, o bloqueio econômico imposto à ilha só pode ser revisto pelo Congresso, cuja maioria republicana é contrária à medida.

O governo cubano classificou as mudanças como positivas, mas disse estar avaliando seu impacto real. “Estamos estudando seu alcance e efeitos práticos para comprovar sua viabilidade. Preliminarmente, pode-se afirmar que as medidas são positivas”, afirmou Rodriguez.

Dentre as iniciativas consideradas benéficas por Havana está a permissão para que barcos norte-americanos transportem mercadorias à ilha sem qualquer ameaça de sanção. O novo pacote de medidas também inclui a autorização para o uso do dólar nas transações internacionais por Cuba.

Também estão autorizadas viagens de cidadãos norte-americanos para “fins educacionais”. No entanto, segue a determinação oficial de Washington de proibir viagens a turismo para Cuba, medida classificada como “insana e injustificada” pelo chanceler cubano.

Tecnologia

As medidas anunciadas pelo governo norte-americano para aliviar o bloqueio econômico não incluem a liberação da exportação de produtos cubanos como medicamentos, vacinas e produtos biotecnológicos para os Estados Unidos.

Nesse sentido, destaca Nildo Ouriques, a derrubada do bloqueio também interessa à economia dos EUA. Empresários do país já disseram ser contra as restrições, dado o interesse em ter acesso às inovações e tecnologias cubanas, consideradas bastante avançadas. Cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) cubano vem do setor de alta tecnologia. “Isso é uma vergonha para o Brasil, que ainda está baseado em commodities”, diz o professor da UFSC.

Ouriques destaca também que, ao contrário da imagem passada pela mídia tradicional e por alguns setores sociais e econômicos brasileiros, o sistema cubano se caracteriza por mudanças constantes. Para o professor, Cuba tem algo muito importante a ensinar ao Brasil, que é o valor de sua soberania. “O que (os cubanos) estão fazendo na prática é garantir os direitos da revolução e garantir sua soberania nacional, algo que está em falta por aqui”, afirma.