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Velho Mundo

Syriza e Podemos põem em xeque política hegemônica europeia, diz espanhol

Para Rafael Mayoral, ativista do partido que provocou um "terremoto" eleitoral na Espanha, é necessária e urgente a articulação de um projeto político pela recuperação da democracia na Europa
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 29/07/2015 19h57
Para Rafael Mayoral, ativista do partido que provocou um "terremoto" eleitoral na Espanha, é necessária e urgente a articulação de um projeto político pela recuperação da democracia na Europa
Arquivo RBA
Rafael Mayoral

“Temos que encontrar estratégias para mudar a correlação de forças no mundo", diz ativista do Podemos

São Paulo – O advogado e ativista espanhol Rafael Mayoral, membro da executiva do Podemos, concedeu entrevista coletiva hoje (29) no Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé, em São Paulo. O militante falou dos princípios do partido – o qual reúne ampla coalizão de movimentos populares que elegeram, em maio, as prefeitas Ada Colau (Barcelona) e Manuela Carmena (Madri) – e afirmou que, embora a Grécia tenha cedido às pressões dos credores, o movimento desencadeado no país com a eleição de Alexis Tsipras, do Syriza, foi fundamental. “O governo grego não tinha um plano para enfrentar (a força dos principais credores europeus, principalmente Alemanha). Foram derrotados nessa batalha, mas mostraram que não há mais consenso na Europa.”

Segundo Mayoral, “o consenso estava matando a democracia, o consenso político em torno dos interesses da ‘troika’ (constituída pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), em torno da única política possível que se estava implementando. O mapa político estava fechado e nada era possível”.

As vitórias eleitorais do Podemos e de Tsipras, na Grécia, desmontaram a ideia do pensamento político hegemônico europeu, disse. Ele também afirmou que os movimentos sociais da Europa precisam ajudar na reconstrução da democracia, necessidade sinalizada pelos dois países. “Cremos que neste momento é necessária a articulação de um projeto político em torno da recuperação da democracia. É necessária a recuperação e reconstrução da democracia sob dois aspectos: a soberania e a recuperação de direitos.”

Mayoral situa a urgente necessidade histórica de “recuperar” a democracia no que chama de “sulgeopolítico” europeu. Segundo ele, a derrota sofrida pelo governo grego “é uma derrota de todos os povos do sul do Europa”. “Temos que encontrar estratégias para mudar a correlação de forças. Por isso, falamos da necessidade de construção de um bloco do Sul, que é Grécia, Itália, Espanha, Portugal e Irlanda, que não é um Sul geográfico, mas um Sul geopolítico”.

O ativista afirmou que o projeto social defendido pelo Podemos está contido nos princípios da Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas, que, embora seja de 1948, não vigora entre os países excluídos pelas potências do planeta, simbolizadas na Europa principalmente pela Alemanha de Angela Merkel. “Queremos um projeto alternativo que converta a Declaração dos Direitos Humanos em uma realidade para os povos. Defendemos a necessidade da tipificação de delitos econômicos de lesa-humanidade, como o aumento da mortalidade infantil na Grécia. A Grécia está sendo submetida a um terrorismo econômico.”

De acordo  com ele, a mensagem política do Podemos “pode se resumir a uma frase: queremos tirar os mandatários do poder econômico da minoria privilegiada das instituições para que entrem os representantes do povo”.

A definição do Podemos pelo militante é a seguinte: “A quem nos pergunta se somos esquerda ou direita, respondemos que não vamos disputar a batalha no campo da direita ou da esquerda. Somos um projeto em construção. Não queremos ser nem da esquerda nem da direita da troika. Nós viemos de baixo. Quem quiser entender, que entenda”.

Mayoral declarou que o partido não comemorou a eleição de cinco deputados nas eleições para o Parlamento Europeu em 2014 por não haver o que comemorar. “A realidade (da eleição europeia) desmentiu as pesquisas e conseguimos cinco deputados. Pensaram que íamos festejar esse ‘fantástico resultado’. Mas a mensagem é outra. Estamos tristes, não há o que comemorar, porque a maioria política é representada pelos partidos que representam a troika. O sofrimento da maioria social do nosso país não nos permite que festejemos por termos eleito cinco deputados.”

“Copiar é um erro”

Ao ser indagado a opinar sobre movimentos políticos como o “bolivarianismo” sul-americano e possível identificação entre movimentos de esquerda mundiais, Rafa Mayoral, como é conhecido, respondeu com o conhecido orgulho espanhol. “Nós não copiamos ninguém. Podemos funciona porque é uma expressão política que responde às necessidades e às aspirações do nosso povo. Quando deixarmos de ser assim, deixaremos de funcionar. Se nos perguntarem o que se deve fazer, responderemos: que ninguém nos copie. Copiar é um erro.”

Segundo ele, o partido espanhol tem uma proposta política pela qual todos os cargos internos e documentos políticos, além das conformações das listas, são  feitas por votação popular. “E quando digo votação popular, quero dizer que pode votar qualquer um do povo.”

O partido, diz, tem um posicionamento muito rigoroso sobre financiamento de seus candidatos e plataformas e decidiu “que não haja nem sequer um euro dos bancos” no processo. O financiamento é feito pelas pessoas.

Brasil e Brics

O ativista disse que “o Brasil tem sido um elemento fundamental na democratização das relações internacionais e na possibilidade de abertura de um mundo multipolar e também no reconhecimento do Sul (do Planeta) e na necessidade de que o Sul esteja no mapa do mundo”.

Ele afirmou ainda que os Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado no âmbito do grupo de países, apontam para soluções positivas, mas ainda não se pode tirar conclusões: “Que não haja um mundo bipolar, parece bom para todos, não só para o Brasil ou para os países que integram o Brics. Cremos ser positivo que haja mecanismos de financiamentos que respeitem as políticas soberanas dos países. Vamos ver como se desenvolve, porque estamos falando de um projeto que ainda está nascendo”.