Santiago

Estudantes chilenos fazem ato para pressionar por aprovação de reforma educacional

Organizadores dizem ter levado 80 mil às ruas da capital para cobrar que projeto de Bachelet aprovado em comissão do Congresso não sofra distorções, como ameaçam parlamentares

Sebastián Silva/EFE
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Os estudantes entendem que uma das promessas centrais de Bachelet corre riscos no Legislativo

Santiago – Dezenas de milhares de estudantes chilenos saíram hoje (21) às ruas de Santiago e de outras cidades para exigir que o governo Michelle Bachelet cumpra com sua promessa de reformar a educação para melhorar a qualidade e para que ela seja gratuita em todos os níveis.

As organizações estudantis e de professores convocaram a manifestação para que as reformas que o governo já entregou ao Congresso, que põem fim ao lucro, à seleção de alunos e co-pagamentos por parte dos pais nas escolas subsidiadas não tenham mediação de negociações entre os diferentes setores políticos.

“Os projetos de lei podem ser letra morta se não houver vontade política”, afirmou Melissa Sepúlveda, presidente da Federação de Estudantes da Universidad de Chile (Fech).

“Queremos demonstrar que somos muitos mais os que exigem mudanças na educação”, acrescentou Naschla Aburman, presidente da Federação de Estudantes da Universidad Católica (Feuc).

Levando cartazes que pediam uma “educação pública e não de mercado”, a coluna de manifestantes avançou de forma pacífica pela Alameda, a principal avenida de Santiago, até passar em frente ao palácio do governo, La Moneda.

Os organizadores da manifestação, a quinta deste ano, estimaram a quantidade de participantes em cerca de 80 mil, enquanto a polícia disse que não superavam 25 mil. Como já é habitual neste tipo de mobilizações, no final foram registrados alguns incidentes entre jovens encapuzados e os carabineiros.

Os dirigentes estudantis, por sua parte, assinalaram que intensificarão suas mobilizações populares para evitar que o conteúdo de suas reivindicações seja distorcido. “Aqui o importante é que o governo entenda que os acordos em que é apoiada a reforma educacional em nenhum caso podem ser com as minorias que impulsionaram este sistema de segregação, de mercado, mas deve ser com o movimento social”, disse Ricardo Paredes, porta-voz da Coordenadora Nacional de Ensino Médio (Cones).

“Sabemos que estamos em um momento bem particular da reforma educacional, o risco de chegar a acordos a portas fechadas com setores que querem ficar blindados das mudanças, manter seus privilégios, põem em risco o futuro de nosso país”, assegurou Naschla Aburman.

Na terça-feira, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados aprovou o projeto que elimina o lucro, o co-pagamento e a seleção de alunos. Mas estima-se que, quando iniciar sua tramitação mais em detalhes, sejam incorporadas modificações sugeridas inclusive por parlamentares do governista pacto Nova Maioria, que discordam em aspectos como o fim do lucro em todos os estabelecimentos.

O projeto visa atualmente que aqueles colégios que obtenham contribuições fiscais deverão diminuir gradualmente o financiamento compartilhado e co-pagamento, até eliminá-los completamente. Além disso, estabelece que os donos deste tipo de estabelecimentos deverão reinvestir seus excedentes na própria instituição, a fim de melhorar a qualidade do ensino.

Por sua vez, o ministro da Educação, Nicolás Eyzaguirre, explicou que a reforma educacional sugerida pelo governo “é sistêmica” e que “o mais importante era iniciar o projeto que assegura a inclusão e a gratuidade e as oportunidades para todos, porque, se não mudarmos este paradigma, não vamos ter a qualidade integral que esperamos”.

Perante mais de 200 especialistas de todo o mundo que participaram de um Congresso Interdisciplinar de Educação, Eyzaguirre reiterou que os projetos de lei atualmente em trâmite no Congresso são “só o primeiro passo de uma reforma que é completa e complexa e que abrange todos os níveis do sistema educacional e que envolve mudanças profundos em nível estrutural”.

O ministro destacou que “o modelo de mercado em educação não é um bom modelo e por isso é que o estamos mudando desde a raiz. No mundo desenvolvido isto não é encontrado em nenhum lugar, ou seja, os porquinhos-da-Índia fomos nós”.

O ministro indicou, além disso, que nos próximos meses será avançado um plano nacional docente, para o qual já existe acordo na maioria de seus pontos com os professores; assim como um novo sistema de financiamento e organização da educação pública.

O governo pretende arrecadar, mediante uma alta dos impostos às grandes empresas de 20% a 27%, cerca de US$ 8,3 bilhões para resolver as mudanças na educação.