Emir Sader

Ascensão da extrema direita revive França que culminou ocupada

A exemplo do estado de predomínio conservador que permitiu a ocupação do país pela Alemanha nazista, em 1940, a política francesa assiste novamente à ascensão da extrema direita

Paul Shaw/Governo Francês
Normandia

Evento de comemoração dos 70 anos da invasão da Normandia

Paris – Coincidiram as comemorações dos 70 anos do desembarque dos aliados na Normandia, em 6 de junho de 1944, com a ascensão, inédita na dimensão atual, do conservadorismo político na França. O que os dois eventos têm em comum? Referem-se a episódios protagonizados pela extrema direita francesa.

Se o desembarque dos Aliados foi necessário, é porque a França permitiu a ascensão da extrema direita, que se aliou às tropas hitlerianas para instalar o governo de Vichy, representante das tropas nazistas invasoras em território francês. A Resistência – composta em grande medida por comunistas – fez o que pôde, mas a verdade é que a população francesa aceitou a ocupação e conviveu com ela. A noite parisiense funcionava normalmente.

O famoso documentário Le Chagrin et la Pitié (a dor e a piedade), produzido para a TV, que o censurou e passou como filme nos cinemas, relata friamente a vida na França durante a ocupação. Os pilotos da Força Aérea Britânica dizem que só procuravam pelos comunistas quando desciam em território francês, pois eram os únicos em quem confiavam.

Ao não conseguir expulsar os invasores nazistas, a França se viu excluída de participar dos acordos no final da Segunda Guerra Mundial, privilegio reservado à Inglaterra por ter resistido contra os bombardeios alemães e impedido a invasão do pais.

Os 70 anos do desembarque na Normandia rendem homenagens aos militares aliados mortos na operação, assim como à população civil. A avenida Champs-Elysées ficou povoada de bandeiras francesas entrelaçadas com as da Inglaterra e dos EUA como forma de agradecimento aos países que libertaram a França da ocupação alemã.

Tudo isso se dá no mesmo momento em que outra expressão da extrema direita, além da do governo de Vichy, tornou-se a primeira força política no pais nas recentes eleições europeias. O fenômeno foi sendo gestado ao longo de algumas décadas. Primeiro uma força quase exótica, isolada, a Frente Nacional deu o salto mais importante quando conseguiu, surpreendentemente, tornar-se, já há mais de duas décadas, o partido mais forte na classe operária francesa.

A França havia sido qualificada pelo pensador alemão Friedrich Engels (1820-1895) como o “laboratório de experiências políticas” pelo que o país tinha vivido na Revolução de 1789, na de 1848 e na Comuna de Paris, de 1871. A trajetória da classe operária francesa era exemplar, dividida entre socialistas e comunistas.

De repente, o fenômeno da imigração, explorado pela extrema direita de forma racista e discriminatória, começou a semear e a proliferar o voto da extrema direita no seio da classe trabalhadora francesa até se tornar majoritário. Contribuíram também o fim da Guerra Fria, com o desaparecimento da União Soviética e os efeitos no Partido Comunista Francês, bem como o distanciamento deste com o Partido Socialista, conforme, no segundo ano de governo, François Mitterrand dava uma guinada para a adoção de uma política econômica neoliberal.

O capítulo mais recente, que permite à Frente Nacional dar um novo salto, é a crise da economia capitalista na Europa, iniciada em 2008 e sem prazo para terminar. O caráter neoliberal do processo de unificação veio fortemente à tona. Um processo que fundou o pacto unificador na consulta sobre o euro como moeda comum e não sobre a unificação política. A esquerda participou plenamente desse processo, está comprometida com ele, junto com a direita tradicional.

A única força que se atreve a propor a saída do euro é a extrema direita, que canaliza assim as críticas da impotência dos Estados nacionais, prostrados diante das políticas de austeridade ditadas pelo Banco Central Europeu e pelo governo da Alemanha. Somada à enorme abstenção, pelo desconcerto dos outros setores diante da adesão dos seus partidos a essa política de austeridade, criou-se esse cenário político que, em vários países, entre eles, dramaticamente, a França, a extrema direita se tornou a primeira força política do país.