América Latina

Por trégua, oposição venezuelana pede anistia a criminosos e intermediação do Vaticano

Atos da oposição ao governo de Nicolás Maduro deixaram 37 mortos e 559 feridos desde fevereiro. Lideranças só aceitam dialogar se detidos por violência forem beneficiados por 'lei de anistia'

Foram 34 armas de fogo confiscadas em posse de oposicionistas, além de coquetéis molotov e explosivos de uso militar

São Paulo – A Mesa de Unidade Democrática (MUD), grupo que reúne os principais partidos de oposição ao governo do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do presidente Nicolás Maduro, apresentou ontem (7) as condições para aceitar o convite do governo ao diálogo e encerrar as violentas manifestações de rua iniciadas em 12 de fevereiro: aos chanceleres da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), que media o contato entre as partes, as lideranças oposicionistas exigiram anistia para as cerca de 1,5 mil pessoas detidas por promover atos violentos e a intermediação da Igreja Católica para iniciar o diálogo por uma trégua, além da transmissão ao vivo em cadeia nacional de todos os encontros.

O secretário-executivo da MUD, Ramón Guillermo Aveledo, leu a carta enviada à Unasul perante jornalistas, na qual o grupo reivindica uma terceira parte “de boa fé nacional ou internacional, que garanta, facilite e, que, se necessário, intermedeie” o diálogo. “Consideramos bom que esse terceiro seja o Vaticano”, completou. A manifestação da MUD é a primeira resposta aos esforços conduzidos pelo governo bolivariano para resolver a situação por meio de um acordo entre PSUV e oposição. Desde março, o governo vem convocando conferências nacionais de paz para reunir governo, militantes partidários, estudantes, empresários e outros setores da sociedade venezuelana, mas sem os líderes da oposição, que se negam a participar.

Segundo a própria MUD, o governo se mostrou favorável a parte das condições impostas pela oposição para dar início à conciliação, mas a anistia aos detidos pode ser mais complicada. Segundo a procuradora-geral do Ministério Público venezuelano, Luisa Ortega, há 81 investigações em andamento por desrespeito aos direitos humanos, entre os quais incluídos 17 integrantes das forças nacionais de segurança. A maior parte dos casos de violência, no entanto, partiu do outro lado: foram 34 armas de fogo confiscadas em posse de oposicionistas, além de coquetéis molotov e até explosivo C-4, de uso exclusivamente militar.

Entre os crimes que a oposição pede que sejam anistiados, estão, ainda, o roubo de dois caminhões-tanque cheios da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) por grupos armados de até 70 pessoas, 95 ônibus destruídos e a depredação de dez estações de metrô, deixando feridos 200 passageiros e 40 funcionários. Os grupos são acusados, também, de crime ambiental pela remoção e queima de mais de 500 árvores da mata nativa para fazer barricadas, do furto de mais de 300 metros de cabos de cobre e de ataques a subestações para causar apagões nas cidades.

Um dos casos mais emblemáticos da escalada de violência da oposição venezuelana foi a tentativa de prisão de um general da reserva do exército após ele sugerir, pela internet, que manifestantes utilizassem arame farpado amarrado a postes nas ruas para derrubar motoqueiros, uma vez que os trabalhadores de entregas são, na maioria, chavistas. Houve pelo menos duas mortes nessas condições. O general resistiu à entrada de policiais em sua residência abraçado a um fuzil.