Em tempos turbulentos

Venezuela: ‘metralhadora’ de palavras deixa de disparar e fecha posição com Maduro

Coletivos da favela mais querida de Hugo Chávez moderam críticas para não dar brechas a opositores, como ocorreu no passado, quando o próprio presidente atacou atitudes, nas quais via influência dos EUA

© aporrea.org / reprodução
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Aliada de todas as horas, comunidade 23 de Enero vai às ruas em massa para mostrar apoio ao governo chavista

Caracas – Partindo do princípio de que um amigo fragilizado não deve sofrer críticas, coletivos chavistas estão realinhando o discurso. É uma longa fase de adaptação iniciada em 5 de março do ano passado, quando morreu Hugo Chávez, e catalisada pelas marchas promovidas pela oposição ao longo de fevereiro. “Chávez era um ‘monstro’ no âmbito político mundial. Não tinha enfrentamento possível dentro da Venezuela. Mas sem ele a situação política muda”, diz Glenn Martínez, líder comunitário de Cristo Rey, um dos bairros que formam a favela 23 de Enero, xodó do chamado comandante da Revolução Bolivariana.

Cego há cerca de quatro anos por conta de um glaucoma, Glenn, de 41, já não pode se valer do visual privilegiado que se tem aqui, do alto do morro, de onde se observa uma grande porção da Caracas pobre, e as enormes montanhas que vigiam o vale em que se ergueu a capital venezuelana. Mas isso nem parece lhe fazer falta: só necessita que alguém diga onde está para começar a apontar com precisão cada local e contar histórias.

O colégio Manuel Palacios Fajardo, no fim do barranco, foi escolhido por Chávez para votar nos 17 processos eleitorais pelos quais passou – vitorioso em 16. Atrás da igreja Cristo Rey, que dá nome à comunidade, há uma praça muito bem cuidada, com uma concha acústica que hoje leva o lema “Ao passado não voltaremos jamais! Proibido esquecer”.

Impossível. 23 de Enero guarda as cicatrizes pré-chavismo, consequências de uma favela nascida, crescida e mantida na rebeldia. O bairro começou a surgir como tal em dezembro de 1957, quando o governo do ditador Marcos Pérez Jiménez começou a entregar os 55 blocos de edifícios destinados a moradia dos integrantes das Forças Armadas. Derrubado o presidente por um golpe de Estado, no início do ano seguinte, a população pobre correu para ocupar aqueles espaços e dar início a uma longa trajetória rebelde, que teve no próprio batismo da comunidade, a data de queda de Jiménez – 23 de janeiro. Uma primeira marca desta peculiar característica, que não seria bem aceita pelos sucessivos governos, que responderiam com torturas e desaparecimentos.

O local em que se instalou 23 de Enero lhe garante uma diferença enorme em relação às demais favelas de Caracas. A começar pelos apartamentos, que são amplos para os padrões caraquenhos, com até quatro quartos e uma sala espaçosa. As construções até hoje estão firmes, sem sinais de avarias graves (num país com terremotos), e agora vêm ganhando uma nova pintura, patrocinada pelo governo federal. As cerca de 80 mil pessoas que vivem ali contam com uma infraestrutura que talvez não se repita em nenhuma comunidade pobre latino-americana: como foi criado para ser um bairro para militares, e não para os mais pobres, conta com espaços para mercados, escolas e equipamentos culturais.

Como o teatro com capacidade para 498 espectadores em Cristo Rey. O espaço ganhou do governo uma reforma, e agora tem cadeiras novas e acolchoadas, tapete, palco, ar condicionado e placas acústicas. Glenn conta que a ideia é montar um ciclo de exibição de filmes para crianças, mas “nada de missão revolucionária não sei das quantas”. Ele prefere películas sem temas ideológicos muito à flor da pele, que poderiam ser exibidas em qualquer sala da cidade. “Um pouco mais de capitalismo selvagem, ou melhor, de socialismo selvagem”, brinca.

Ao lado do teatro está o estúdio da Rádio 23, Combativa e Libertária, que na verdade é uma sala com isolamento acústico improvisado, uma mesa na qual se apinham entrevistadores e entrevistados e um televisor velho com mais chuviscos que cores. Assim como o projeto pensado para o cinema, a Rádio 23 se tornou uma das mais ouvidas em Caracas não pelo tom revolucionário, mas por tocar salsa, o ritmo preferido dos venezuelanos, sem intervalos comerciais nem falas. Quando o público já estava formado, aí entraram programas com um caráter mais político, que agora estão sob reavaliação.

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Desde a morte de Chávez, Glenn redobrou seu apreço pelas palavras bem empregadas, uma habilidade que não tarda a se revelar. “Veja que ironia a gente morar em Cristo Rey. Rei? Isso quer dizer que Cristo era um aristocrata? Não, tenha a dó. Vamos mudar o nome para Cristo Marginal, Cristo Pobre, Cristo Faminto, qualquer coisa assim”, diz, numa livre exposição de sua capacidade discursiva.

Mas ele sabe que é hora de baixar o tom e deixar para trás o nome “A metralhadora da palavra”. Talvez seja agora um revólver, ou uma arma branca, com menos e mais bem selecionados alvos. “Vamos retomar o programa, pouco a pouco, mas fechando posição com o processo de transformação. Antes podíamos fazer críticas abertamente. Agora, se temos de fazer, vamos fazer, mas sem dar possibilidade de divisão que abra espaço para a atuação da oposição.”

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Nos muros e ruas da 23 de Enero, os claros sinais do ativismo e mobilização política da comunidade

Nada que possa ser acusado por contribuir para levar o país de volta ao passado. Sem o presidente, a comunidade 23 de Enero sabe bem que tem um papel fundamental em mais uma página da história. Foram eles que cerraram fileiras com Chávez quando da tentativa de tomar o poder pela força, em 1992, e do golpe de Estado contra ele quando já comandava o país, em 2002. Durante os anos dourados do chavismo, estiveram sempre próximos do governo, o que garantiu o surgimento e a manutenção de coletivos aos montes. Questionado sobre quando se identificou com Chávez, Glenn suspira por um segundo e abre sua metralhadora: “Não. Foi Chávez quem se identificou comigo.”

Na favela floresceram iniciativas de participação direta da população, o chamado Poder Popular, como os conselhos comunitários, e foram instalados os principais projetos governamentais. Em 23 de Enero há unidades do mercado estatal que garante preços regulados para os principais itens da dieta venezuelana. Na área de saúde, a cada poucos metros se tromba com um dos módulos octogonais que abrigam um médico, geralmente cubano, e uma equipe que faz o atendimento primário, não importando se se é chavista ou “esquálido”, o apelido dos opositores. Caso seja necessário dar sequência ao tratamento, no geral já não é preciso descer o morro e esperar dias por atendimento: há três Centros de Diagnóstico Integral (CDIs) instalados na favela, com máquinas para exames diversos, sala de fisioterapia, centro semiintensivo, fonoaudiologia, terapia ocupacional, leitos para pacientes em observação e odontologia.

Cabe ainda aos moradores de 23 de Enero serem os guardiães do Museu da Revolução Bolivariana. O Quartel da Montanha, onde Chávez se abrigou após o golpe frustrado de 2002 e no qual era lotado, foi o local escolhido por Nicolás Maduro para receber o corpo do presidente morto em março de 2013. Do Palácio de Miraflores, a residência presidencial, avista-se o local, hoje mais um ponto de orgulho para a comunidade, que também criticou e foi criticada pelo comandante.

Dois episódios em especial o irritaram. Em 24 de fevereiro de 2008, durante a madrugada, uma bomba explodiu na sede da Fedecamaras, a principal entidade empresarial venezuelana. Uma pessoa morreu, supostamente o responsável pela instalação dos explosivos. Dias depois, órgãos policiais federais iniciaram buscas em 23 de Enero por Juan Crisóstomo Montoya González, o Juancho, apontado líder do atentado, o que levou os coletivos da favela a reagirem organizando uma manifestação.

Um dos poucos que não utilizavam capuz naquele protesto de 3 de abril, Glenn leu frente às câmeras de televisão um comunicado firmado por dezenas de organizações no qual se protestava contra a acusação relativa a Juancho. “Nos resulta contraditório que ao golpismo da direita se premie com uma anistia e que aos líderes comunitários, aos movimentos populares e revolucionários, se desqualifique, se estigmatize para tratar de persegui-los.”

À noite, na televisão, Chávez respondeu, irritado, mostrando recortes de jornais que expunham líderes encapuzados e armados andando pelas vias do centro de Caracas. “Alguém pode me dizer que são revolucionários? Não. Estão atuando como terroristas. E um governo sério não pode aceitá-lo. Estou seguro de que estão nas mãos da CIA. Aqui estão nas mãos do império, do inimigo”, criticou, afirmando que não deixaria o povo “heroico” daquela favela da qual gostava tanto pudesse pagar pelo erro de alguns grupos. “É totalmente falso que haja uma perseguição em 23 de Enero contra líderes sociais. Em outra época, sim, os matavam. O único que se está fazendo aí é buscar uma pessoa por ser responsável pela colocação de uns explosivos.”

Aqueles homens que se deixaram fotografar armados, no plano e nos morros, serviram como combustível aos opositores de Chávez, que fizeram circular pelo mundo a informação de que o presidente estava montando grupos paramilitares, prontos a defendê-lo em qualquer situação, inclusive no caso de um novo golpe. Circulou também a versão de que os coletivos chavistas eram agora os responsáveis pela segurança dentro de 23 de Enero, o que nunca foi desmentido.

Alguns anos mais tarde, em 2012, o coletivo La Piedrita colocou uma “piedrita” a mais no sapato do presidente ao fazer circular uma foto em que crianças apareciam armadas tendo ao fundo uma imagem de Jesus Cristo ao lado de Nossa Senhora, ambos segurando fuzis AK-47. O grupo explicou se tratar de armas de brinquedo, mas o estrago já estava feito, e Chávez se pronunciou dizendo que era uma imagem indefensável.

Ao que tudo indica, as pazes foram feitas e os episódios ficaram no passado. Em agosto de 2013, os coletivos de 23 de Enero promoveram uma entrega de armas ao governo federal. No blogue da Rádio 23, um post conta que os grupos decidiram usar outras formas de combate, pacíficas, para promover uma nação livre de violência, como desejava Chávez, mas deixa uma advertência a seus opositores para que não se enganem: ainda saberão usar as armas, no sentido literal, se forem necessárias.

Durante as manifestações do último dia 12, Juancho foi assassinado em La Candelária, no centro da capital, com um disparo na cabeça – há versões conflitantes sobre o fato, e uma delas dá conta de que o militante estava armado. O presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, pediu calma aos coletivos de 23 de Enero. “A este companheiro o estavam caçando e não temos nenhuma dúvida. Era um líder da revolução”, disse. “Até quando o fascismo? Até quando estes assassinos fascistas que convocam à violência? Até quando nós vamos continuar fornecendo os mortos?”

Ao conversar sobre o assunto, menos de quinze dias depois, Glenn se disse abalado com a morte de Juancho, a quem considerava um irmão. Em um texto postado na internet, ele foi direto sobre o assunto: disse que o assassinato foi uma provocação dos setores conservadores para tentar fazer com que os pobres reagissem de maneira violenta e lançassem o país em uma guerra civil que abrisse espaço à queda de Maduro. “A diferença entre esses grupos fascistas e nós é que não somos mercenários, nem malandros, nem loucos. Somos revolucionários que levamos anos de luta contra a direita deste país e é muito difícil que caiamos numa arapuca dessas.”

Questionado sobre como os coletivos de 23 de Enero viam aquele momento de instabilidade para o governo e como pensavam em se organizar, evitou entrar em detalhes e não quis falar sobre o número de grupos e quantos integrantes tem cada um. “Ainda que estejamos em nosso governo, queremos seguir cuidando-nos porque a direita nos mantém num ataque constante. Segue morrendo gente nossa, então nos cuidamos”, explicou. “Quando somos jovens, queremos mudar o mundo. Se não queremos, estamos doentes. Talvez em 23 de Enero a rebeldia dure também quando adulto. Aqui os velhinhos também são jovens.”

Aos 41, Glenn se considera um menino grande e comemora a mudança a que assiste nestes 15 anos de Revolução Bolivariana. O fim da repressão deu possibilidades à comunidade de sair da defensiva e passar a reivindicar: água, luz, esgoto – coisas básicas. O fornecimento de serviços e de respeito garantiu o crescimento de uma autoestima até então sufocada. No pós-golpe de 2002, isso deu aos chavistas condições – necessidades – de se organizar em grupos. Foi aí que surgiu a Rádio 23, apaixonada, como muitos outros, pela Revolução Bolivariana.

Era um momento de mudança de paradigma, de se envolver diretamente na vida do país. Glenn cita de cabeça o artigo 4º da Constituição vigente antes do governo Chávez: “A soberania reside no povo, que a exerce, mediante o sufrágio, pelos órgãos do Poder Público”. Ou seja, a democracia se exerce votando. Agora, porém, a Carta Magna garante que a soberania é intransferível, e deve ser praticada de maneira direta.

“Brigamos corpo a corpo com os poderosos. Não temos uma projeção internacional, claro, mas onde somos ouvidos temos mais credibilidade que os outros. E conseguimos criar resistência, ou organização. Temos poder. Não muito, mas temos”, constata. “Chávez poderia resistir sozinho. Maduro precisa que as pessoas o acompanhem. Por compromisso ético, moral, filosófico, espiritual, ou por medo. Pelo que seja.”