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Ao reaparecer, Cristina questiona especuladores: 'O que os incomoda?'

Presidenta acusa desejo de desestabilizar governo para que 'coisas voltem ao lugar em que sempre estiveram' e ironiza boatos sobre 'desaparecimento' ao lançar programa para 'filhos do neoliberalismo'
por Redação RBA publicado 23/01/2014 10h55, última modificação 23/01/2014 12h22
Presidenta acusa desejo de desestabilizar governo para que 'coisas voltem ao lugar em que sempre estiveram' e ironiza boatos sobre 'desaparecimento' ao lançar programa para 'filhos do neoliberalismo'
Casa Rosada
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Cristina ironizou os boatos durante os 34 dias em que ficou sem aparições em eventos públicos

São Paulo – Após 34 dias de ausência pública, a presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, reapareceu ontem (22) em um evento na Casa Rosada com a língua afiada de outrora. Ao lançar um plano de inclusão social destinado a jovens que estejam fora da escola e desempregados, ela criticou ataques especulativos na economia e boatos surgidos durante as semanas de ausência.

“O que é necessário é que a sociedade compreenda em seu conjunto que aqui não é um ataque ao governo. O governo é o obstáculo, é a pedra que há que mover e saltar para que as coisas voltem ao lugar em que sempre estiveram”, afirmou, ao fazer referência aos movimentos de depreciação do peso argentino no mercado cambial paralelo. Nas últimas semanas, a cotação do dólar disparou no país, especialmente entre as operações ilegais.

“O que os está incomodando? Um regime de plena ocupação, de 6,6%, que obviamente sempre leva os salários para cima. Incomoda o nível de participação dos trabalhadores no PIB, que com isso não permite que aumentem os formidáveis rendimentos de determinados setores?”

Cristina não falava em público desde 10 de dezembro. Em outubro, ela foi submetida a uma cirurgia para a drenagem de um hematoma craniano, fruto de um trauma, e depois disso os argentinos passaram semanas sem informações concretas. No começo de dezembro, ela enfim recebeu alta médica, com a recomendação de que evitasse viagens e uma jornada muito pesada. Neste começo de ano, as atividades de chefia de governo têm sido exercidas, na prática, pelo chefe de gabinete, Jorge Capitanich.

No primeiro discurso da retomada, a presidenta aproveitou para ironizar o burburinho provocado por sua ausência. “Lembro quando publicavam pesquisas em que diziam que as pessoas mudavam de canal, não queriam escutar-me falar, baixava a audiência, as pessoas não queriam que eu falasse. E agora, as pesquisas são ao contrário, a maioria das pessoas quer que eu fale. Ou mentiam antes, ou mentem agora, ou mentiram sempre.”

Ela não perdeu também a oportunidade de alfinetar órgãos de imprensa que apoiaram a última ditadura, entre 1976-83, quando 30 mil pessoas morreram ou desapareceram. “Quiseram dar um toque hollywoodiano, bom, reaparece, tipo reestreia”, brincou. “Creio que no fundo, alguns – não todos, porque seria injusta – estão muito vinculados com isso dos desaparecimentos como método para aquilo de que não gosta, não?”

O tema escolhido para a retomada das aparições públicas não foi obra do acaso. O Progresar (progredir, em português) vai destinar 600 pesos (R$ 205) a 1,5 milhão de jovens desempregados entre 18 e 24 anos. É um incentivo para que voltem a estudar. “Por uma razão muito simples: porque estes meninos são filhos do neoliberalismo, esses filhos são meninos que seus pais não tinham trabalho ou que o perderam, que não foram educados na cultura do trabalho e do esforço e que necessitam da presença do Estado precisamente para seguir adiante.”

Além do alto desemprego, o governo notou um aumento das taxas de criminalidade entre os jovens, especialmente nos centros urbanos, o que tem resultado em repressão, acirramento e conflitos que se multiplicaram no segundo semestre do ano. “Acho que serão necessárias muitas décadas, na República Argentina, para recuperar tanto dano social, tanta desesperança. Quando de repente dizem a nós e nos querem mostrar como exemplo países como Finlândia e outros, que são países que vêm políticas educativas e sociais, faz 30, 40 ou 50 anos, têm outros problemas agora. Porque é impossível, ademais, encontrar um mundo sem problemas. Aquele que lhes venda um projeto de vida ou de país em que não há conflito e onde tudo é rosa está mentindo. Isso não é a vida, a vida é conflito.”