Chile

Erros de gestão e baixa popularidade marcam fim de governo Piñera

Problemas com censo de 2012 e isenção a grandes empresas mancharam a imagem do atual presidente chileno

Mario Ruiz/EFE
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Funcionários públicos em greve esta semana: Piñera termina mandato com imagem de baixa capacidade de gestão

Santiago – Quando Sebastián Piñera disputou as eleições de 2009, uma de suas principais promessas de campanha era o estabelecimento de um “governo de excelência”. Perto do final do seu mandato, porém, o presidente que reconduziu a direita ao poder no Chile, do qual estava longe desde a ditadura de Augusto Pinochet, foi obrigado a abandonar a ideia da eficiência estatal devido a uma sucessão de escândalos.

O fracasso no censo de 2012, que envolveu mudança de método na última hora e suspeita de manipulação dos dados, foi o último de vários desatinos administrativos. Não foi um caso isolado, já que, um ano antes, o governo enfrentou as mesmas suspeitas de manipulação, pois os resultados de sua pesquisa de medição da pobreza foram questionados pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal).

Os problemas de gestão começaram em meados de 2011, com uma guerra deflagrada contra o Poder Judiciário e o Ministério Público que abalou a relação entre o Executivo e os demais poderes e instituições públicas. Ainda no âmbito jurídico, o Ministério do Interior de Piñera colecionou três fracassos eloquentes, ao aplicar a Lei Antiterrorista, considerada a mais extrema das atribuições do Executivo, em três episódios que a Justiça avaliou que não eram procedentes.

O afã em intervir nas instituições voltou a afetar a imagem de Piñera através do futebol, quando a imprensa chilena vazou uma série de ligações de assessores do palácio presidencial, visando a influir nas eleições da Associação Nacional de Futebol Profissional do Chile.

Também houve escândalo na educação, durante a época das marchas estudantis, quando foi descoberto um cartel que vendia alvarás de funcionamento para universidades privadas. O Serviço Eleitoral também enfrentou problemas quando foram encontrados nomes de vítimas desaparecidas da ditadura e outras pessoas falecidas nos registros eleitorais como habilitados para votar – incluindo até mesmo o do presidente Salvador Allende, assassinado do golpe de 1973.

Até o Serviço de Impostos Internos (a Receita Federal chilena), órgão que era considerado o mais eficiente e implacável do país, passou a ser questionado quando seu diretor, Julio Pereira, perdoou dívidas milionárias de algumas grandes empresas para possibilitar fusões de impacto no mercado. O caso manchou muito o presidente Piñera, já que Pereira era um homem de sua extrema confiança, mas que tinha vínculo trabalhista com algumas das empresas envolvidas. O presidente demorou cinco meses para tomar a decisão de demiti-lo, enfrentando a repercussão do caso na mídia.

Segundo a última pesquisa do instituto CEP (divulgada no dia 29/10), o atual líder chileno tem 31% de aprovação e 47% de rejeição. Além disso, 64% dos entrevistados afirmam que ele tem pouca capacidade de gestão e 60% veem nele uma figura pouco confiável.

Os escândalos de gestão explicam melhor esses números e o panorama político chileno. Quem vê o país somente através do noticiário internacional poderia supor que a rejeição a Piñera é explicada, basicamente, pelas diversas manifestações populares enfrentadas por ele durante o seu governo, começando com as primeiras marchas estudantis, em 2011, e seguindo com as manifestações regionalistas, sobretudo no sul do país.

Claro que esses movimentos tiveram muita importância, ao marcarem o começo da queda do presidente chileno. Vale lembrar que ele começou 2011 com o auge da sua popularidade (tinha 67% de aprovação), fruto principalmente do resgate dos mineiros soterrados em Atacama, em outubro do ano anterior. Foi a grande façanha deste governo, e o tornou símbolo de um país que superava até os desafios que pareciam impossíveis.

Algo que era reforçado pelo fato de que o país havia sofrido um forte terremoto poucos meses antes, sendo necessária a reconstrução total de casas e edifícios destruídos. Tal projeto, porém, também foi cercado de críticas, devido às suspeitas de desvio de verbas e manipulação de cifras, exagerando o total de casas reconstruídas.

Apesar de tentar passar a imagem oposta, Piñera deverá entrar para a história do Chile como um presidente errático e com pouca capacidade de gestão. Mais do que isso, seus erros têm atrapalhado a governista Evelyn Matthei, cuja candidatura não decola e, brigando pelo segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, tenta impedir a vitória de Michelle Bachelet já no próximo domingo, 17 de novembro.