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Negociação

Síria começa a cumprir exigências, mas EUA consideram pouco para evitar ataque

Secretário de Estado dos EUA se encontra com chanceler russo em Genebra para delinear plano que poderá evitar mais uma guerra norte-americana no Oriente Médio. 'Palavras não são suficientes'
por Redação RBA publicado 12/09/2013 18h26
Secretário de Estado dos EUA se encontra com chanceler russo em Genebra para delinear plano que poderá evitar mais uma guerra norte-americana no Oriente Médio. 'Palavras não são suficientes'
Martial Trezzini/EFE
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“Em nosso entendimento, as palavras do governo sírio simplesmente não são suficientes”, disse Kerry

São Paulo – O secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, disse hoje (12) em Genebra, na Suíça, que apenas as declarações do ditador sírio Bashar al Assad, que prometeu entregar suas armas químicas às potências ocidentais, não são suficientes para evitar uma intervenção militar norte-americana no país.

Além de se comprometer verbalmente com a destruição dos artefatos, al Assad afirmou que a Síria já entrou com requerimento para assinar a Convenção sobre Armas Químicas das Nações Unidas. Washington, porém, coloca em xeque a boa vontade do líder sírio. E, antes de retirar as ameaças de um ataque ao país, quer ações concretas do regime, a quem acusa de lançar bombas de destruição em massa contra sua própria população.

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“Em nosso entendimento, as palavras do governo sírio simplesmente não são suficientes”, afirmou Kerry, que está na Europa para uma reunião com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, aliado da Síria e parceiro dos Estados Unidos na tentativa de resolver diplomaticamente a questão das armas químicas por Damasco.

Frente à iminência de uma intervenção militar dos Estados Unidos, os russos apresentaram a proposta de que al Assad entregasse seu arsenal às potências ocidentais. Assim, o ditador acabaria com o principal argumento de Washington para atacá-lo. O lance dos russos, por enquanto, tem conseguido adiar uma nova guerra norte-americana no Oriente Médio. Mas não há garantias de que vá funcionar.

“Vamos pôr à prova a vontade da Síria em cumprir suas promessas”, continuou o secretário de Estado dos Estados Unidos. “Nossas expectativas são grandes, e são ainda maiores as expectativas da Rússia. Viemos aqui para trabalhar conjuntamente com os russos para ter certeza de que o acordo será cumprido.”

Ameaças

Após anos negando possuir armas de destruição em massa, o regime sírio finalmente admitiu, na última terça-feira (10), a existência de artefatos químicos em seu território. Os norte-americanos têm absoluta certeza de que esse reconhecimento só foi possível porque Washington teve sucesso em demonstrar a al Assad que a intervenção militar estava sobre a mesa e era uma realidade. Ainda é.

“Só a ameaça crível da força levou o regime a reconhecer pela primeira vez que tem um arsenal e que está disposto a renunciar a ele”, afirmou John Kerry. Se efetivamente levar a cabo sua intenção de aderir ao protocolo internacional de armas químicas, a Síria será o 190º país do mundo a fazê-lo, abandonando o reduzido grupo das nações que ainda não ratificaram o documento. Israel, seu vizinho e desafeto de todas as horas, está entre os resistentes.

De acordo com o diário britânico The Guardian, o plano para o desarmamento químico da Síria deverá ter quatro fases. Primeiro, o país assinaria a Convenção de Armas Químicas. Depois, indicaria a localização e a quantidade de todo seu arsenal. Também apontaria onde são produzidos. Convidaria inspetores da ONU para vistoriar o país e, finalmente, autorizaria a destruição dos artefatos. Tudo sob observação internacional.

Mil toneladas

Ainda segundo o Guardian, que cita informações da inteligência francesa, o regime de Bashar al Assad possuiria mais de mil toneladas de agentes químicos letais aos seres humanos, incluindo gás mostarda, gás sarin e agentes nervosos VX. Os Estados Unidos acreditam que o regime utilizou ao menos uma dessas substâncias no ataque às redondezas de Damasco, em agosto, motivo da recente crise diplomática e de uma eventual intervenção militar. A Rússia defende que foram os rebeldes quem lançaram os químicos sobre a população.

O ditador sírio também nega ter sido autor da tragédia. E colocou algumas condições aos Estados Unidos para seguir adiante com sua disposição de renunciar às armas químicas. Uma delas é que Washington cesse as ameaças de invasão à Síria. A outra, que deixe de fornecer armamento ao exército rebelde da Síria, que, de acordo com o al Assad, está cheio de “terroristas”.

Em artigo publicado pelo New York Times, ontem (11), o presidente da Rússia, Vladimir Putin, também defende que as forças que combatem al Assad há mais de dois anos, tentando derrubá-lo, conta com apoio de organizações classificadas pelos próprios Estados Unidos como terroristas. O texto de Putin critica ainda a intenção dos norte-americanos em produzir mais uma guerra no Oriente Médio. E afirma que a medida traria péssimas consequências para a região.

“Um ataque dos Estados Unidos sobre a Síria, apesar da forte oposição de vários países e líderes políticos e religiosos, inclusive do papa, resultará na morte de mais inocentes e numa escalada de violência que possivelmente se espalhará para além das fronteiras sírias”, escreveu o líder russo. “Um ataque provocará uma nova onda de terrorismo. E poderá minar os esforços multilaterais para resolver a questão nuclear iraniana e o conflito israelo-palestino. Pode ainda desestabilizar ainda mais o Norte da África.”