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Diplomacia

Admirador dos EUA, Patriota encerra mandato no Itamaraty sem deixar saudades

Ao lado de Dilma Rousseff, chanceler foi responsável por um 'rebaixamento no perfil' das relações exteriores do país, que haviam alcançado 'auge' com Lula e Celso Amorim
por Tadeu Breda, da RBA publicado 29/08/2013 12h19, última modificação 30/08/2013 11h07
Ao lado de Dilma Rousseff, chanceler foi responsável por um 'rebaixamento no perfil' das relações exteriores do país, que haviam alcançado 'auge' com Lula e Celso Amorim
Dorivan Marinho/Folhapress
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Dupla que assumiu em 2011 não manteve política internacional 'altiva e ativa' proposta por antecessores

São Paulo – A política externa do governo Dilma Rousseff tem incomodado a esquerda brasileira dentro e, principalmente, fora do PT. Sedentos por mais integração com os países latino-americanos e menor leniência com os desmandos das potências ocidentais,  centrais sindicais, movimentos sociais e alguns analistas sentem saudade das posturas adotadas pelo Itamaraty na década passada. Se desagrada troianos, porém, a diplomacia dilmista tampouco tem arrancado elogios dos gregos: a oposição preferia ver a presidenta assinando tratados de livre comércio, subjugando os vizinhos que ousam contrariar os interesses nacionais e se alinhando cada vez mais aos Estados Unidos.

Demitido na última segunda-feira (26), na esteira da fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina da embaixada do Brasil em La Paz, patrocinada por um diplomata brasileiro que preferiu seguir a “voz de deus” a obedecer as ordens do chefe, o agora ex-chanceler Antonio de Aguiar Patriota tem sido apontado como um dos principais responsáveis pela “falta de ousadia” do país no cenário internacional a partir de 2011, quando assumiu as rédeas da Casa de Rio Branco. Mas Patriota não é o único culpado pela “pasmaceira” que acometeu o Itamaraty na terceira gestão do PT. E nem só de críticas está feita sua passagem pela chancelaria.

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Após conseguir uma projeção global inédita entre 2003 e 2010, sob a batuta do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, a diplomacia brasileira estaria agora em declive também por causa da personalidade menos espalhafatosa – e mais burocrática – de Dilma Rousseff. Apesar de existir uma nítida continuidade nos princípios que norteiam a política externa do país, a retração da presidenta, menos hábil que seu antecessor, contribuiu para que, com Patriota, o Itamaraty tenha perdido o vigor de outrora.

“A gestão de Patriota reflete uma política externa com muito menos ativismo presidencial”, explica Bernardo Sorj, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, lembrando o empenho pessoal do ex-sindicalista pelas relações exteriores. “Lula viajava pelo mundo, utilizando sua imagem e promovendo a imagem do país, enquanto Dilma tem claramente menos apetite pelo cenário internacional.”

Esquizofrenia

Sorj avalia que o chanceler recém-demitido teve de aliar esse menor ativismo presidencial à orientação mais agressiva que havia sido imposta à diplomacia brasileira pela gestão anterior – e que seu mentor, Celso Amorim, definira como uma política externa “altiva e ativa”, em contraposição à linha “domesticada e autodomesticável” que dominara o Itamaraty até então.

“Ser altivos quer dizer que não deveríamos mais nos submeter às potências: tínhamos condições de expor e defender nossos interesses e pontos de vista”, disse o ex-chanceler, hoje ministro da Defesa, em seminário realizado na Universidade Federal do ABC (UFABC) em julho. “E, sendo ativos, quebraríamos com a concepção anterior, de que o Brasil não deveria ter papel protagônico no cenário internacional, de que não deveria se arriscar.”

Isso não quer dizer que, com Dilma e Patriota, o país tenha se submetido, obediente, aos interesses hegemônicos. Nos fóruns internacionais, manteve discurso favorável à existência do Estado Palestino e à reforma das Nações Unidas, além de continuar defendendo a ampliação do Conselho de Segurança e o fim do bloqueio a Cuba, e seguir condenando intervenções militares unilaterais nos países árabes. Contudo, deixou de ousar: seria muito difícil imaginar a presidenta e seu ex-chanceler tentando mediar o conflito entre Estados Unidos e Irã, como fizeram Lula e Amorim, em parceria com a Turquia, em 2010, ou tomando a frente nas negociações durante a 15ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-15, em 2009.

O próprio Patriota havia reconhecido essa “maior discrição” na diplomacia brasileira, fruto de uma “marca muito pessoal” da presidenta, em entrevista à revista IstoÉ, em julho do ano passado. “Diplomacia não é publicidade”, alfinetou, numa crítica sutil ao modus operandi adotado pelo Itamaraty nos últimos anos. “Diplomacia é abertura de canais, de diálogos que promovam o interesse do Brasil.”

Igual e diferente

“Não houve mudanças nas diretrizes da política externa brasileira, mas essa mesma orientação política acabou sendo implementada de forma distinta, com perfil mais baixo, com outras prioridades. E isso, em política externa, faz diferença”, observa Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT e secretário-executivo do Foro de São Paulo. “Patriota tendeu a adotar uma postura mais fria, mais técnica e burocrática para o cargo de chanceler, que é eminentemente político.”

De acordo com Pomar, Amorim tinha clareza de que as relações internacionais não dão tantos resultados sem que seus atores se engajem politicamente nos objetivos – práticos ou simbólicos – que pretendem alcançar. Também é importante usar de retórica e discursos inflamados para marcar posições. Ainda mais num país como o Brasil, que não tem o mesmo poder de barganha bélico ou financeiro de China, Estados Unidos ou Europa.

“Não somos uma grande potência econômica nem temos a bomba atômica”, ironiza, lembrando os principais elementos de dissuasão utilizados pelos países hegemônicos para defender seus interesses. “Nossa força no cenário internacional advém da nossa capacidade em articular posições coerentes com nossos aliados, sobretudo na América Latina. O Brasil cumprirá melhor seu papel no mundo enquanto porta-voz da região, enquanto força capaz de integrar os países latino-americanos.”

Irmão do norte

Outra diferença pessoal relevante entre Patriota e Amorim, continua Pomar, seria o nível de apreço que um e outro cultivam por Washington. “Não é nenhum segredo de alcova que Patriota tem afeição pelos Estados Unidos, e isso faz com que ele tenha muito mais empatia e tolerância aos norte-americanos do que seria razoável para o chanceler de um país como o Brasil”, pontua. “Amorim, por outro lado, não tinha medo dos gringos.”

Em entrevista à revista Veja, logo após ter assumido o comando do Itamaraty, em 2011, Patriota afirmou ter “envolvimento emocional com os Estados Unidos”, onde nasceu sua esposa e vive parte de sua família, e desfiou elogios a alguns “aspectos da sociedade americana”, que disse admirar muito. “É uma sociedade que está muito perto de oferecer oportunidades iguais aos seus cidadãos.” Patriota também argumentou que se sente “muito confortável” nos Estados Unidos e que o Brasil não tem muitas razões para se ressentir dos americanos.

Esse “apreço” verificou-se em pelo menos dois episódios recentes, nos quais o chanceler teve oportunidade de reforçar a soberania do país no discurso e nas ações, além de perseverar na trilha de uma política externa coerente com os valores da democracia que tanto apregoou em seus discursos como chefe do Itamaraty – inclusive em suas palavras de despedida, pronunciadas na última quarta-feira (28), ao deixar o cargo.

Snowden

Quando Edward Snowden ainda estava encurralado no aeroporto de Moscou, na Rússia, depois de ter delatado ao mundo um esquema de espionagem massiva mantido por Washington com a colaboração de empresas de telecomunicações, mais de vinte países receberam pedidos de asilo político, única alternativa para salvá-lo da tentativa de vingança dos Estados Unidos. O Brasil foi um deles. De hackers a políticos, muita gente esperava que Brasília assentisse com o pedido do ex-consultor da NSA, mas Patriota não se deu nem mesmo o trabalho de discutir o tema: apressou-se em dizer que o Itamaraty sequer analisaria a requisição de Snowden.

E manteve essa posição mesmo depois que o jornalista Glenn Greenwald publicou reportagens no jornal O Globo demonstrando que, segundo documentos revelados pelo jovem, os cidadãos, as empresas e as autoridades brasileiras foram as mais vigiadas pelos Estados Unidos em todo o mundo, perdendo apenas para a espionagem doméstica de Washington sobre seus próprios compatriotas.

“Havia expectativa de que o Brasil tivesse atitude mais firme, seja oferecendo asilo a Snowden, seja protestando de maneira veemente contra a bisbilhotagem”, critica Valter Pomar. “Mas, ao contrário, uma das primeiras reações de Patriota em relação às denúncias foi considerar 'positiva' a atitude do embaixador norte-americano, Thomas Shannon, em se explicar ao governo brasileiro.”

O ex-chanceler só foi elevar o tom das críticas quando o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, veio ao país, em agosto, para acertar os detalhes da visita que a presidenta Dilma Rousseff fará a Barack Obama, em Washington, no próximo mês de outubro. Ainda assim, Patriota manteve a urbanidade poucos dias depois, quando o brasileiro David Miranda, namorado do jornalista Glenn Greenwald, ficou retido por mais de nove horas no aeroporto de Londres e, a pedido dos Estados Unidos, teve seus equipamentos eletrônicos roubados pelas autoridades britânicas.

Prioridades

Outros dois episódios recentes provocaram certo distanciamento entre o Brasil e seus principais aliados na América Latina. Um deles ocorreu quando Itália, Espanha, França e Portugal, também a mando de Washington, fecharam seus espaços aéreos para o avião presidencial do boliviano Evo Morales. O líder aimará voltava de uma cúpula de países produtores de gás, na Rússia, e rumores indicavam que trazia Snowden escondido na aeronave.

Morales foi obrigado a permanecer no aeroporto de Viena, na Áustria, esperando autorização para sobrevoar os países europeus em seu caminho de volta a La Paz. Venezuela, Argentina, Uruguai e Equador condenaram imediatamente a flagrante violação do direito internacional. Brasília demorou 16 horas para soltar uma pequena nota de repúdio. Dois dias depois, nem o chanceler nem a presidenta foram à cúpula extraordinária da Unasul, em Cochabamba, para dar suporte a Evo.

A morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, em junho, também deu sinais de que Dilma e Patriota não se empenham – ou não gostavam de demonstrar seu empenho – pela integração latino-americana. Todos os chefes de Estado da região estiveram presentes à cerimônia fúnebre do líder bolivariano, inclusive seus desafetos declarados, como José Lobo, presidente de Honduras. Dilma, não.

Acompanhada por Lula, que não segurou as lágrimas ao ver o corpo do ex-colega, a presidenta ficou não mais de cinco horas em Caracas, com uma rápida passagem pelo velório do venezuelano, à noite, antes de regressar ao país – e não esperou as homenagens oficiais, que marcadas para a manhã seguinte. Em compensação, logo após, ficou três dias em Roma para a posse do papa Francisco.

Vitórias

Mas a gestão de Patriota teve seus louros – e o ex-chanceler fez questão de lembrá-los antes de embarcar para seu novo posto, em Nova York, onde chefiará a delegação permanente do Brasil nas Nações Unidas. Com ele, Brasília se transformou num dos “centros de atividades diplomáticas mais dinâmicos no mundo emergente”, recebendo a visita de 48 chefes de Estado e 91 ministros de Relações Exteriores entre 2011 e 2013.

Patriota também destaca o acordo obtido pela Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, realizada no país em 2012. “A Rio+20 é a mais participativa das cúpulas das Nações Unidas, com plena participação da sociedade civil, além da negociação do documento final, que pode ser considerado um êxito por ter sido concluído antes do início do encontro”, disse, em entrevista à revista IstoÉ.

Outra vitória do Itamaraty durante o mandato de Patriota foi a eleição de três brasileiros para cargos importantes do sistema de governança global. Em 2011, o ex-ministro José Graziano venceu a disputa para a diretoria-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Em maio, o embaixador Roberto Azevedo garantiu a diretoria-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). E, no último mês de junho, o ex-ministro Paulo Vannuchi conquistou uma vaga na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

“A favor de Patriota também devemos lembrar que, por ter sido um chanceler menos ativo, acabou exagerando menos”, avalia o professor Bernardo Sorj, da UFRJ, para quem a política externa “altiva e ativa” de Lula e Amorim acabou provocando alguns “passos em falso”, como a preferência por este ou aquele candidato à presidência nos países vizinhos. “Há quem veja isso com bons olhos, mas acredito que o hiperativismo diplomático levou a alguns erros, como o excesso de compreensão que tivemos com governos ditatoriais. Poderíamos ter feito negócio com Muamar Gadafi ou Bassar al-Assad sem dar a entender que são pessoas boas.”