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Esposa de preso político relata abusos em cárceres israelenses

por Nícolas Pasinato, do Sul21 publicado , última modificação 01/12/2012 09h09

Porto Alegre – Abla Sa’adat, esposa do ativista e atual preso político Ahmad Sa’adat, compartilhou a situação dos presos políticos na Palestina, em especial do seu marido, que se encontra em regime fechado desde 2006. O depoimento ocorreu em sessão do Fórum Social Mundial Palestina Livre, em sala na Câmara Municipal de Porto Alegre nesta sexta-feira (30).

Abla começou a sua fala detalhando em números os casos de detenções políticas na Palestina. Segundo ela, há, atualmente, 5 mil presos políticos nos cárceres israelenses. Do total, 13 são mulheres e 130 são crianças. Abla ressaltou ainda que existe 130 palestinos presos há mais de 20 anos.

A ativista, que é membro da União Geral da Mulher Palestina e presidente da Campanha de Libertação dos Cárceres Israelenses, também condenou o tratamento dado aos detidos. “Há 250 [presos] doentes empilhados em uma coisa que chamam de hospital”, alerta ela. Além disso, a ativista afirma que não são ofertados remédios  para presos, alguns com doenças graves como câncer, e que eles são tratados a base de calmantes.

Ela condena ainda outras precariedades que os presos políticos palestinos enfrentam, como a proibição de visitas de familiares, as prisões individuais e as chamadas prisões administrativas, quando a detenção ocorre sem nenhum tipo de acusação. Segundo ela, há 300 pessoas na Faixa de Gaza que nunca puderam receber uma visita. O motivo para a proibição alegado por Israel é a de preservar a segurança de seu Estado.

A razão israelense se mostra controversa, quando Abla relata um caso ocorrido com o seu marido. O casal possui quatro filhos e os únicos membros da família que podem visitá-lo é ela e o filho mais velho, Abla Ghassan, pois eles possuem documento israelense. “A sua neta, quando estava com apenas 10 dias teve de ficar atrás do vidro para Ahmad poder vê-la. Ele queria tocá-la, pegá-la, mas isso não foi permitido”, conta. O fato mostra que, antes de preservar a segurança, o afastamento de familiares serve como forma de pressão emocional aos detidos.

Abla usa de exemplo Ahmad Sa’adat para outros violações aos direitos humanos que os presos políticos sofrem. Durante 3 anos ele ficou preso em cárcere privado. “É uma punição tanto para o preso quanto para a família que não pode manter contato. Ele não podia falar com ninguém, somente com o seu advogado (em tempos espaçados) e com a Cruz Vermelha que fazia visitas para ver como estava sua saúde”, relembra. Conforme ela, fotos e cartas que eram enviados para Ahmad pela família foram barradas e ele nunca pode recebê-las.

Manifestações de presos palestinos foram realizadas para protestar contra os abusos citados. Em novembro do ano passado, representantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina deram início ao que foi chamado de “Batalha do Estômago Vazio”, uma greve de fome que durou 22 dias. As revindicações eram a extinção da prisão individual, da prisão administrativa e a liberação da visita de familiares. De início eles obtiveram sucesso nas negociações com autoridades israelenses mas, posteriormente, as exigências acabaram não sendo cumpridas.

Em 2012, outra greve de fome foi feita. Desta vez, o ato conseguiu fazer extinguir a prisão individual. Já a prisão administrativa, aquela que permite a detenção a qualquer momento sem a necessidade de apresentar justificativa, segue acontecendo, conforme Abla Sa’adat. Outra censura que ocorre nos cárceres israelenses, segundo ela, é ao acesso de livros e revistas.

“Meu marido foi preso por sua posição política”, diz ativista palestina

Encarcerado desde 2002, Ahmad Sa’adat foi acusado por Israel de organizar o assassinato do ministro do Turismo israelense de extrema-direita, Rehavam Ze’evi e por dirigir uma “organização ilegal terrorista”. Ele foi presidente da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) a partir de 2001, quando substituiu Abu Ali Mustafa, depois de Mustafa ter sido assassinado pelos israelenses em seu escritório em Ramallah, na Cisjordânia. O assassinato do ministro de Israel foi visto como uma resposta à morte de Mustafa.

Acusado da morte de Rehavam Ze’evi, Sa’adat acabou detido pela Autoridade Nacional Palestina após acordo com Israel, que exigia que ele fosse deportado e cumprisse a pena no país. A decisão garantiu que ele cumprisse pena na Palestina e não sob custódia israelense. O Supremo Tribunal da Palestina declarou que a prisão de Ahmad era inconstitucional, sem fundo jurídico, e ordenou a sua libertação, mas a Autoridade Nacional da Palestina se recusou a cumprir essa determinação. Além disso, a Anistia Internacional declarou que ele recebeu um julgamento injusto, o que fazia de sua detenção um ato ilegal e que, por isso, deveria passar por um processo legítimo ou ser liberado.

Em 2006, forças israelenses cercaram a prisão onde Sa’adat estava e, após horas de resistência, o capturaram e levaram sob custódia a Israel, onde foi condenado a 30 anos de prisão e atualmente encontra-se cativo.

Esses são alguns fatos que resumem os últimos anos do marido de Abla Sa’adat. “Ele sempre pediu para eu me posicionar não como sua esposa, mas como um membro do povo palestino e da luta pelo nosso estado”, disse a ativista. Segundo ela, Ahmad já foi preso 12 vezes. “Todas por sua condição política”, condenou. A ativista conta que Ahmad nunca reconheceu as suas detenções. “Uma vez o juíz mandou ele levantar. Além de se recusar, ele respondeu: ‘não sou eu que tenho de ser condenado, mas vocês. Vocês é que estão errados na ocupação da Palestina’”, relatou.

Segundo Abla, a única alternativa que ela vê para a liberação de seu marido é através de troca de prisioneiros ou com o fim da ocupação. Ela também criticou a omissão das Nações Unidas frente a toda situação. “A ONU diz que a Frente Popular é um partido terrorista. Se a resistência palestina é considerada terrorismo, então somos mesmos terroristas”, enfatizou.

No final do discurso, Abla fez um apelo aos países internacionais para realizar campanhas que pressionem Israel e instituições de Direitos Humanos. “Pedimos a solidariedade de todos. Preso palestino é preso de guerra e merece outro tratamento”. Como exemplo de apoio ela sugeriu o envio de cartas aos detidos. “Com as cartas o preso vê que há alguém do mundo que participa da sua luta. Ahmad recebeu várias cartas dizendo que simpatizavam com a sua causa, o que o deixou mais forte”, disse.

Por ano, 77 crianças palestinas são presas

Um representante da Addamer Prisoner Support & Human Rights Association discursou brevemente para relatar o caso de crianças presas. Segundo ele, anualmente, 77 crianças são presas na Palestina. Em muitos casos elas possuem menos de 10 anos e não há um tratamento especial para os menores detidos.

Após o breve discurso, um pai palestino, que já teve seu filho preso por duas vezes, subiu no palanque para contar o seu caso. “Meu filho foi preso durante um mês, após ter jogado duas pedras em um carro civil em uma rua confiscada pelos israelenses. Na segunda vez ele foi preso por jogar quatro pedras em um carro, na mesma rua, por 32 meses. Detalhe: nenhuma das quatro pedras acertaram o carro”, contou, em tom de desabafo.