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Capital venezuelana vive polarização política às vésperas das eleições

por Tatiana Merlino, enviada especial de Caros Amigos publicado 04/10/2012 16h36, última modificação 04/10/2012 16h46

Caracas – “Leva algum tipo de arma ou explosivo na mala?”. Essa é uma das perguntas que constam do formulário de imigração na Venezuela. “Não, claro que não. Quem usa essas coisas é o [Hugo] Chávez e os chavistas no Palácio Miraflores”, diz a senhora sentada ao meu lado no avião, no voo de São Paulo a Caracas, na quarta-feira (4), enquanto preenche o papel.

“A senhora não gosta do presidente?”, pergunto. “Uff, não, não”, responde, irritada, fazendo caretas. “Depois de tanta corrupção, depois de 14 anos no poder, cansamos dele. Ele que vá cuidar da saúde, não é? Queremos mudança.”

Nieves Herrera Moreno tem 93 anos e retorna ao seu país depois de uma temporada de quatro meses com a filha que mora em Curitiba (PR). Em novembro, conta, irá a Chicago, nos Estados Unidos, onde passará seis meses com outro filho. “Meus filhos são todos muito bem colocados na vida. O que mora aqui na Venezuela é engenheiro elétrico, tem um bom emprego.” Na despedida, ela me diz, baixinho: “Tome muito cuidado aqui. Eles [chavistas] não são de brincadeira, não”.

Propagandas

No trajeto de 20 quilômetros que separam o aeroporto Maiquetía Simón Bolívar do centro de Caracas, um desavisado que chegasse ao país sem saber que em três dias haveria eleições presidenciais no país não passaria incólume às propagandas de Hugo Chávez e do principal candidato da oposição, Henrique Capriles. “Tu también eres Chávez”, diz um imenso outdoor pendurado num prédio na entrada da capital. Os de Capriles tem os dizeres: “Vota por tu progreso, hay un camino”.

Nos muros que separam a estrada dos morros há inúmeras pinturas e referências a Simón Bolívar, libertador do país e figura resgatada pela “Revolução Bolivariana” de Chávez. Os moradores das casas populares desses morros são, em sua maioria, eleitores do atual presidente. De acordo com pesquisa do Instituto Venezuelano de Análises de Dados (IVAD), na classe D o mandatário tem 53,1% de intenção de votos, enquanto Capriles tem 29,6%. Na classe C, Chávez tem 48,8%, enquanto o opositor tem 33,9%. Nas classes A-B, a briga é maior: 47% a 41,7%, em favor de Chávez.

O motorista que me leva do aeroporto à cidade acredita que quem vota em Chávez é “iludido”ou “fanático”. Os inteligentes, garante, “votam em Capriles”. Na opinião dele, as políticas sociais de Chávez que diminuíram a pobreza no país não são eficazes. “Todo mundo quer melhorar de vida, mas, para isso, temos de trabalhar duro. Não está certo ganhar as coisas assim. Chávez faz isso para comprar votos”, acredita. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), entre 2002 e 2010 a pobreza na Venezuela caiu mais de 20 pontos, passando de 48,6% para 27,8% da população. No mesmo período, a pobreza extrema foi reduzida de 22,2% para 11,5%.

Um dos temas mais explorados pela campanha de Capriles é o aumento da violência urbana. Em 2009, 19.133 pessoas foram assassinadas na Venezuela, ou seja, uma taxa de 75 homicídios por cem mil habitantes. “Todo mundo que conheço já sofreu um assalto e tem um conhecido que já foi sequestrado”, garante o motorista.

"Viramos gente"

Se o motorista e a senhora do avião defendem Capriles, é com o mesmo entusiasmo que a camareira de um hotel no bairro de Altamira, classe média de Caracas, apoia Chávez. Ao ser questionada sobre as eleições, ela olha para os lados do corredor de um dos andares do hotel e, quando checa que não há ninguém, diz: “Chávez, claro. A gente, que nunca ninguém olhava, passou a ser gente depois que ele chegou ao poder”.

Segundo ela, as misiones de Chávez ajudaram muito os venezuelanos. Por estar trabalhando, a moça de 39 anos não poderá ir à marcha de encerramento da campanha “de nosso Comandante” nesta tarde. “Mas você vai ver, haverá muitos como eu lá.”. Ela conta que há outras pessoas que trabalham no hotel que também votam em Chávez, mas que são discretas, já que a área é de predominância antichavista.

Capriles, que é apoiado pelos principais empresários venezuelanos, banqueiros e meios de comunicação privados, encerrou sua campanha no último domingo, no centro de Caracas, onde, de acordo com seu comando de campanha, havia um milhão de pessoas. Hoje, quinta-feira, 5, Chávez encerra a sua campanha com uma grande marcha em Caracas, que ocupará as principais avenidas da cidade.

De acordo com o Censo Nacional de População de 2011, a Venezuela tem cerca de 29,7 milhões de habitantes, dos quais 19 milhões estão aptos a votar no próximo domingo, 7 de outubro. Embora o voto não seja obrigatório, de acordo com institutos de pesquisa, cerca de 85% dos venezuelanos comparecerão às urnas.