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"Derrubar governo sírio não é nosso problema", diz relator da ONU

Paulo Sérgio Pinheiro explica que relatório feito à distância contou com entrevistas pela internet. Maioria dos refugiados políticos não pretende regressar antes de superada a crise
por virginiatoledo publicado 02/12/2011 19h19, última modificação 03/12/2011 13h02
Paulo Sérgio Pinheiro explica que relatório feito à distância contou com entrevistas pela internet. Maioria dos refugiados políticos não pretende regressar antes de superada a crise

Paulo Sérgio Pinheiro afirma que a comissão deve continuar os estudos e analisar os dados que tem para apresentar um relatório em março (Foto: Divulgação/ OAS)

São Paulo – Na semana em que divulgou o relatório sobre violações de direitos humanos na Síria, o relator da Organização das Nações Unidas (ONU), Paulo Sérgio Pinheiro, apresentou detalhes sobre o trabalho desenvolvido. Apesar de pintar um cenário trágico em termos de violência, tortura e perseguições sem garantias mínimas, o brasileiro é enfático quando questionado sobre o futuro do governo de Bashar Al Assad: "Não sei quanto a derrubar governo; esse não é nosso problema".

Em entrevista à Rede Brasil Atual, Pinheiro explica ainda como foi realizar um levantamento sobre desrespeito de direitos humanos sem ter autorização para desembarcar em território sírio. "Entrevistamos 223 pessoas fora da Síria, mas também temos entrevista por Skype, telefone e internet com pessoas que estão no país", descreve.

Desde março deste ano, uma onda de protestos – reprimidos por vezes com violência por forças oficiais – coloca o governo do país do Oriente Médio em uma das maiores crises políticas nos 11 anos em que está no cargo.

O relatório da ONU foi divulgado na segunda-feira (28), apontando 3.500 sírios mortos – incluindo 250 crianças – de 15 a 20 mil pessoas ainda detidas e mais de 3 milhões de pessoas afetadas diretamente pelos confrontos.

Na véspera, a Liga Árabe havia aprovado sanções econômicas e comerciais à Síria, com congelamento de transações comerciais e de contas bancárias de integrantes do governo em países árabes, além de suspensão de voos entre as nações que integram o bloco. A União Europeia também ampliou as sanções, reforçando as restrições ao comércio de petróleo, gás e derivados, além de limitações financeiras. A movimentação visa a pressionar o governo de Assad.

Confira os principais trechos da entrevista:

Com a negativa do governo sírio em permitir a entrada dos observadores da ONU é possível saber ao certo se o cenário é o retratado no relatório? Há possibilidade de serem ainda piores os fatos? 

O fato de nós não termos tido permissão de entrada na Síria não significa que não tivemos informações da Síria. Nós entrevistamos 223 pessoas fora da Síria, mas também temos entrevista por Skype, telefone e internet com pessoas que estão no país. Acredito que nós mostramos uma fotografia completa e honesta do que ocorre por trás dos vídeos todos de manifestação e repressão. Tentamos mostrar o cotidiano que a população que vive na Síria vem enfrentando, não só a oposição, mas toda a população civil.

Durante as entrevistas, o sr. e outros observadores perceberam temor das pessoas sobre abusos?

As pessoas que estão fora da Síria têm bastante vontade de compartilhar as informações, as que estão dentro, é claro, requeriam alguns cuidados para fazer o contato. 

Quais são os próximos passos da comissão agora?

Continuar os estudos, analisar esses dados que nós temos e os que não conseguimos levantar. Tem de apresentar um relatório em março. Vamos avaliar como continua a situação e ver como vamos prosseguir as investigações. Claro que também vamos esperar a Síria nos dar permissão de visitar o país.

O sr. sentiu das vítimas que saíram do país disposição em retornar para lutar junto aos manifestantes, para quem sabe derrubar o governo sírio? 

Não sei quanto a derrubar governo; esse não é nosso problema. Várias pessoas que saíram da Síria saíram por conta da repressão. Acredito que mesmo havendo alguns retornos, a maioria dessas milhares de pessoas que estão fora não tenham algum apetite pra voltar nesta confusão presente nos lugares em que elas moram.