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Néstor Kirchner, a ausência mais presente de uma eleição

por João Peres, da Rede Brasil Atual publicado , última modificação 24/10/2011 17h36

Cristina com os filhos na comemoração da vitória; morte de Néstor foi fator de aproximação entre a presidenta e a população (Foto: © Pablo Busti)

Buenos Aires – Ainda faltava muito para o fim de uma tarde quente-fria da primavera de Buenos Aires quando os militantes kirchneristas começaram a chegar ao quartel de campanha da presidenta argentina. Aos montes, carregavam bandeiras e bumbos pelo tradicional e desgastado bairro de San Telmo celebrando a vitória.

Às favas com a cautela, mostravam as falas dos jovens que chegavam ao Hotel Intercontinental. Se os políticos profissionais mais se parecem a jogadores de futebol em entrevistas nestes momentos, a diferença enorme para o segundo colocado, Hermes Binner, permitia aos admiradores do atual governo soltar o grito da garganta, assemelhando-se a uma torcida organizada, livre de falsas prudências. 

“Vamos, Cristina, não podemos perder. Néstor olha com Perón desde o céu”, avisavam. Bastou que meia dúzia puxasse o coro para que logo tudo se transformasse em um enorme coro. “Sou argentino, sou soldado do pinguim (penguino, em castelhano)”, gritavam, em referência ao apelido do ex-presidente, morto há quase um ano após um ataque cardíaco. Os meios de comunicação tradicionais viram nas eleições um clima frio, uma campanha sem picos e baixas, fruto das favas contadas que cercavam a vitória de Cristina Kirchner. “Chora, chora, chora a direita, porque nós estamos de festa, e vamos mostrar que Néstor não se foi”, riam-se os manifestantes.

Um rapaz trepava pelo prédio vizinho para pendurar uma bandeira que tinha as imagens de Néstor, Juan Domingo Perón e Evita Perón no alto, e Cristina logo abaixo. Os reunidos à frente do hotel são integrantes de organizações peronistas que veem no kirchnerismo a retomada do projeto interrompido na década de 1970 pela morte do ex-presidente. Néstor, falecido há um ano, era uma ausência bastante presente na festa. “Isso foi um ano atrás. Quando vi a rua, quando vi o povo, a gente mais humilde, o sofrimento, aí me dei conta do que havia feito Néstor Kirchner. E muito modestamente, porque nunca se vangloriou do que fez”, analisou Miriam Mala, uma médica que acredita que o melhor que fizeram os dois presidentes foi colocar o Estado a favor dos mais pobres. A morte de Néstor, deixando de lado os efeitos políticos negativos, foi um fator de aproximação entre a presidenta e a população, catalisando um processo de recuperação de sua imagem – à época, sua taxa de aprovação subiu entre 10 e 15 pontos. “Esta mulher, a capacidade que tem, a força, nem teve tempo de chorar ainda, e seguiu adiante pelo país, isso é maravilhoso.”

Soledad Allarde integra a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA). Segurava um grande boneco de Cristina feito em março de 2011 para pressionar a presidenta a disputar a reeleição. Desde a morte de Néstor, ela fez mistério sobre sua entrada no pleito deste ano, e só o anunciou de última hora. Nestes doze meses, seus discursos foram, via de regra, recheados por referências ao marido e por um tom emotivo. “Por compreensão histórica, como disse ele no memorável discurso de 25 de maio de 2003, contem comigo para seguir aprofundando um projeto de país”, anunciou a presidenta no domingo após garantir a reeleição com mais de 53% dos votos válidos. A jovem Soledad, que não sabe se Cristina viu ou não o boneco em alguma das exposições públicas, acredita que o kirchnerismo recuperou a confiança dos argentinos na política tradicional. “O investimento social. Ela se ocupou de um setor da sociedade que foi mais golpeado durante os anos 1990”, resume.

Pouco depois, enquanto a população caminhava para a Praça de Maio, pronta a transformar o ponto mítico novamente em palco de celebrações, outros militantes conseguiam penetrar os subsolos do hotel para integrar-se à festa oficial. Nas horas seguintes, cantariam os nomes de Néstor, Perón, Evita e Cristina, e interromperiam o discurso da presidenta por várias vezes para fazer memória ao ex-presidente, sempre muito aplaudido.