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Cristina Kirchner vai pela sorte grande nas eleições argentinas

por João Peres, Rede Brasil Atual publicado 23/10/2011 11h13, última modificação 24/10/2011 16h03

Processo eleitoral na Argentina neste domingo deve confirmar vitória no 1º turno de Cristina Kirchner (Foto: ©Pablo Busti/RBA))

Buenos Aires – Tudo indica que a presidenta Cristina Kirchner vai dormir tranquila esta noite. A menos que ocorra uma mudança sem precedentes, sairá consagrada das urnas argentinas para um novo mandato de quatro anos à frente da Casa Rosada. Mais que isso, pode impor o maior resultado desde a redemocratização, em 1983, superando os 51,7% obtidos em 1983 por Raul Alfonsín.

Nascida há 58 anos na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, Cristina deve obter um apoio entre 50% e 55% dos votos válidos, de acordo com as pesquisas divulgadas antes do início da proibição imposta pela lei eleitoral, há oito dias. Para que houvesse necessidade de um segundo turno, Cristina teria de obter entre 40% e 45% dos votos e a distância para o segundo colocado deveria ser inferior a dez pontos – segundo os levantamentos, Hermes Binner, governador da província de Santa Fé, tem em torno de 15% das preferências, atrás de Cristina entre 30 e 35 pontos.

Os primeiros resultados serão conhecidos após as dez da noite, no horário de Brasília, mas é difícil imaginar que se vá esperar até esta hora para abrir o champagne. Em uma campanha em que até mesmo os adversários admitiram que nada havia a fazer, e que a saída era pensar na construção de projetos com vistas a 2015 – como é o caso de Binner –, a cautela já não é um bem necessário.

Haverá apreensão quanto às eleições para o Legislativo. Neste domingo (23) se renova o mandato de 130 deputados e 24 senadores, e é grande a expectativa de que a Frente para a Vitória, a coalizão que sustenta Cristina, retome o comando do Congresso após a derrota no pleito de 2009, quando o governo atravessava seu pior momento. Naquele ínterim, parecia impossível que o kirchnerismo mudasse os rumos da contenda e garantisse a continuidade de seu projeto. Ainda menos possível era uma vitória esmagadora, a ponto de provocar uma necessidade de rediscussão das forças de oposição, incapazes de apresentar um projeto alternativo e de avançar nas críticas ao atual mandato. Nove províncias elegem ou reelegem hoje seus governadores, e existe a possibilidade de que, na somatória com as demais províncias, a situação federal imponha a maior vitória das últimas três décadas.

Cristina entrou para a vida política na década de 1970, quando cursava advocacia em La Plata. Ao mesmo tempo, conheceu Néstor, com quem se casaria em 1975. Durante a ditadura, o casal se mudou para Rio Gallegos, na fria província de Santa Cruz, ao sul, onde se dedicaram a um escritório de advocacia. Só após o fim do regime repressor voltaram a atuar politicamente. Em 1989 Cristina se elegeu deputada provincial.e Néstor foi eleito governador em 1991.

Em 1995 conquistou seu primeiro mandato no Senado, em 1997 foi eleita deputada e em 2001 voltou a ser senadora, ano em que o país foi ao mais profundo de sua crise política, econômica e social, com a queda do presidente Fernando de la Rúa.

Escolhido pelo presidente provisório Eduardo Duhalde para disputar as eleições de 2003, Néstor acabou chegando à Casa Rosada sem vencer. Obteve 22% dos votos em primeiro turno, dois pontos a menos que o primeiro colocado, o ex-presidente Carlos Menem, com quem deveria disputar uma segunda rodada. Mas Menem, ciente de que teria uma rejeição na casa de 70%, retirou-se da disputa, e Néstor chegou ao governo sem a legitimidade das urnas.

Construiu uma agenda de reaproximação com os movimentos sociais na tentativa de desfazer o total descrédito da classe política e prometeu à população um país normal, uma conquista que não era simples naquele momento. Em 2007, com aprovação de 70%, surpreendeu ao anunciar que não disputaria a reeleição, e que a candidata seria Cristina, eleita com 45% dos votos. Esperava-se que Néstor voltasse a tentar a presidência neste domingo, mas a morte em outubro de 2010, há um ano, lançou novamente a presidenta à contenda.