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Cristina: “Nunca acreditei em fazer sem Néstor”

Entre o riso contido e o choro fácil, presidenta da Argentina convoca à união nacional após vitória, agradece volta dos jovens à política e enaltece virtudes do ex-presidente falecido há um ano
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 24/10/2011 15h32
Entre o riso contido e o choro fácil, presidenta da Argentina convoca à união nacional após vitória, agradece volta dos jovens à política e enaltece virtudes do ex-presidente falecido há um ano

Cristina lembrou "incomensurável coragem e valentia" de ex-presidente Néstor Kirchner (Foto: ©Pablo Busti/RBA)

Buenos Aires – A presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, dedicou ao ex-presidente Néstor Kirchner a vitória obtida no domingo (23), quando obteve 53% dos votos válidos, o maior resultado das eleições argentinas pós-redemocratização e um desempenho comparável em toda a história apenas a Juan Domingo Perón.

“Quero agradecer a alguém que já não pode me chamar, mas que é o grande fundador desta vitória. Nunca acreditei em fazer sem ele, sem sua incomensurável coragem e valentia”, afirmou Cristina em um dos muitos momentos em que fez referência ao ex-marido, quase nunca citado pelo nome. “Ele” é a indicação de que se trata de Néstor, a quem a presidenta lembra em praticamente todos os discursos desde sua morte, em 27 de outubro de 2010, quase sempre com os olhos marejados. 

Ao falar a correligionários e integrantes de movimentos sociais em um hotel de Buenos Aires, no pronunciamento da vitória, Cristina ressaltou que Néstor foi figura fundamental na negociação da pior crise do governo, em 2009. “Naquela oportunidade, esse homem que havia transformado a Argentina foi à frente e colocou mais do que poderia colocar”, recordou a presidenta, que durante pouco mais de meia hora fez uso de um repertório variado de oratória, indo do emotivo ao agressivo, passando pelo carinhoso. Antes de começar o discurso, os militantes de organizações peronistas ou kirchneristas puxavam o coro em canções que lembravam a Néstor ou a Perón, versos que foram evocados constantemente ao longo da fala da presidenta. "Vamos, Cristina, não podemos perder. Néstor olha com Perón desde o céu" e "Chora, chora, chora a direita porque nós estamos de festa. Vamos mostrar que Néstor não morreu" eram duas das homenagens mais cantadas.

“Vocês são terríveis. Que coisa”, brincou Cristina quando o público vaiou a citação ao presidente chileno Sebastián Piñera, um dos que haviam telefonado para saudá-la pelo triunfo. A presidenta Dilma Rousseff, primeira a ser lembrada, foi muito aplaudida, mas o venezuelano Hugo Chávez saiu vencedor nas ovações populares. Em seguida, Cristina reprovou as vaias ao chefe de governo da cidade de Buenos Aires, o conservador Maurício Macri. “Não sejam assim. Vou me irritar”, criticou. “O pior que pode passar às pessoas é que sejam pequeninas.”

A oscilação de tons do discurso da presidenta pode não responder unicamente a um recurso de oratória. “Hoje é uma noite muito estranha para mim. São muitos sentimentos que se mesclam e é difícil definir”, ressaltou, vestida de negro, em uma reafirmação do que havia dito logo pela manhã, após votar, quando ponderou que não podia se sentir feliz. 

Cristina aproveitou a fala para enviar mensagens. “Não o digo como viúva. Digo como companheira de militância dele. Não se equivoquem”, afirmou, em tom mais alto, em referência aos jornais da mídia convencional que se referem a Cristina como “a viúva de Néstor Kirchner” e veem um fim eleitoral no luto da presidenta. Ainda a este respeito, ela aproveitou para mandar uma resposta às especulações de que gostaria de alterar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato, hipótese aventada sem provas pela candidata derrotada Elisa Carrió, que teve seu pior desempenho, e amplamente divulgada por parte da imprensa. “Não significa continuidade de pessoas, mas de projetos de política e de país.”

Mais tarde, na Praça de Maio, Cristina fez um discurso para uma multidão. Gente de todos os lados, com ou sem bandeiras, encaminhou-se de maneira automática para o centro da cidade assim que as urnas foram se fechando. Bumbos e outros instrumentos marcavam as marchas que vinham de diferentes pontos e chegavam pelas várias ruas que confluem para a praça. Lá, a presidenta falou de maneira mais breve e usou menos pontos de seu repertório. “Em cada um de vocês, em cada uma destas bandeiras, me vejo e vejo a ele há muitos anos em nossa militância”, afirmou. 

Ao lembrar o caráter mítico da Praça de Maio, Cristina lembrou que o lugar foi marcado por grandes alegrias e grandes tristezas, e fez referência ao episódio de 2001, quando caiu o presidente Fernando de la Rúa, momento no qual a repressão fez 35 vítimas em todo o país. “Quero celebrar que a juventude depois de oito anos vem agitar essas bandeiras com orgulho, e não com ódio”, disse a presidenta, sempre acompanhada pelo vice-presidente eleito, Amado Boudou, e pelos filhos, fatores de aproximação com os mais novos. “Sinto um imenso orgulho em como a política conseguiu que se recupere como instrumento de superação.”