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Governo chileno propõe aos estudantes negociar mudanças na educação

por Mônica Yanakiew publicado , última modificação 05/09/2011 18h26

Santiago - O governo chileno apresentou nesta segunda-feira (5) uma proposta para negociar a reforma educacional com os estudantes universitários e secundaristas que, há mais de três meses, promovem protestos nas ruas das principais cidades do país para exigir educação gratuita e de qualidade para todos. O ministro da Educação, Felipe Bulnes, sugeriu criar, a partir do dia 12, três mesas de trabalho que terão até o fim do mês para apresentar propostas para a reforma educacional. As lideranças estudantis prometeram dar uma resposta ao governo até quinta-feira (8).

"Temos três semanas para negociar acordos, descobrir onde não há possibilidade de acordo e ver até onde governo cederá, porque o governo deve ceder em algo", disse, em entrevista à Agencia Brasil, o líder estudantil Giorgio Jackson, 24 anos, que está terminando o curso de engenharia. Ele preside a Federação de Estudantes da Universidade Católica do Chile e é um dos três porta-vozes do movimento estudantil. "Vamos manter a mobilização, porque o movimento estudantil chegou para ficar. Se for preciso ficar anos, ficaremos anos pressionando as autoridades para conseguir as reformas que pedimos".

Apesar de manter a mobilização, os estudantes suspenderam uma grande manifestação prevista para o próximo sábado (10). O motivo do cancelamento foi o acidente de avião que, na sexta-feira (2), matou 21 pessoas, entre elas o mais famoso apresentador da TV chilena, Felipe Camiroaga. Ele acompanhava um empresário em uma missão humanitária na Ilha de Juan Fernandez, arrasada pelo terremoto e tsunami de 27 de fevereiro de 2010.

"Entendemos que, nesses dias, o país vive uma grande comoção por causa da tragédia e somos respeitosos", disse a líder estudantil Camila Vallejo ao explicar por que também a mobilização do dia 8 foi cancelada. Mas os estudantes estão organizando mais manifestações para próxima semana.

Os alunos chilenos começaram a se mobilizar contra o governo do presidente Sebastian Piñera em maio. Em junho, o movimento ganhou as ruas e os estudantes também ocuparam escolas de nível médio e universidades. Nos dias 24 e 25 de agosto, o país parou por causa de uma greve geral, convocada pelos sindicatos, em apoio aos estudantes. A paralisação terminou em confronto entre grevistas, estudantes e a polícia chilena, culminando na morte de um adolescente de 16 anos.

Os estudantes querem mudar o sistema de educação chileno, criado pelo ex-ditador Augusto Pinochet, que reduziu a participação do Estado no setor. No Chile, as universidades públicas e privadas são pagas. Existem mecanismos de financiamento para quem não tem dinheiro para pagar as mensalidades, mas os juros são altos e os jovens começam as carreiras já endividados.

Os estudantes de ensino médio também têm uma pauta específica de reivindicações. Há escolas públicas gratuitas de nível médio, mas são controladas pelos municípios, e não pelo governo central. Isso, de acordo com as lideranças estudantis, prejudica os moradores dos pequenos municípios ou de bairros mais pobres.

Há, também, um sistema misto que os estudantes querem rever. São escolas privadas (secundaristas e universitárias) que cobram mensalidades mais acessíveis porque são subsidiadas pelo Estado. Os estudantes dizem que os donos dessas escolas e universidades estão enriquecendo com os subsídios estatais, em vez de investir os recursos na melhoria da qualidade de ensino.

Essa não é a primeira vez que os estudantes enfrentam o governo para pedir melhorias na educação. Em 2006, os estudantes secundaristas promoveram a Revolução dos Pinguins, que tinha como alvo a então presidenta Michelle Bachelet. O apelido (pinguins) foi dado por causa do uniforme azul marinho e branco dos estudantes e as reivindicações eram as mesmas das atuais. Mas Bachelet reuniu-se com os estudantes, e o governo fez algumas mudanças sem, no entanto, modificar o sistema: aumentou o número de bolsas de estudo e reduziu os juros pagos por estudantes que precisavam recorrer a empréstimos para financiar o estudo universitário.

"Foi uma negociação que levou dois anos e, com o tempo, os estudantes foram se desmobilizando. Mas aprendemos com os erros do passado e aprendemos como negociar. Por isso, vamos manter as mobilizações", explicou Jackson. "Agora, os prazos para chegar a um acordo são mais curtos".