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Após dez anos de atentados do 11 de setembro, direita nos EUA se fortalece

por João Peres, da RBA publicado , última modificação 11/09/2011 11h22

São Paulo - Os aviões atirados contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001 são um marco na história do século XXI. Para o sociólogo Leujene Mirhan, professor especialista em Oriente Médio e membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabes de Lisboa, passada uma década dos atentados, o mundo ficou mais xenófobo e mais preconceituoso contra árabes e muçulmanos.

Alguns analistas enxergaram, no episódio, um símbolo da decadência dos Estados Unidos como força imperial, como principal potência do planeta. Mirhan acredita que houve uma retomada de ações unilaterais dos Estados Unidos, principalmente no campo militar, com invasões contra o Afeganistão – ainda com o aval da Organização das Nações Unidas (ONU) – e contra o Iraque – sem apoio de outras potências. Mas há uma tendência a se reforçar a ideia de um mundo multipolar, com outras nações disputando politica e economicamente.

"Mas eu ainda não afirmaria que o mundo deixou de ser unipolar, porque mesmo com toda a decadência – com toda a crise do capitalismo, que é sistêmica, e não conjuntural – o dólar é a moeda que determina as relações de troca no comércio internacional", avalia Mirhan.

Atualmente, há pouco mais de um ano antes da eleição presidencial nos Estados Unidos, há um crescimento de forças conservadoras, como o Tea Party, agrupamento de direita instalado dentro do partido Republicano. Mirhan até acredita que Obama desponte com algum favoritismo para a disputa de 2012, mas isso não significa garantir avanços. "Obama tinha o programa de retirada mais rápida das tropas do Iraque, em três meses. Vai completar quatro anos sem conseguir cumprir", exemplifica.

Confira a íntegra da entrevista:

RBA - Após dez anos dos atentados de 11 de setembro de 2001, o que mudou no mundo?

Sempre lamentamos esse tipo de atentado como o que aconteceu em Nova York e em Washington. Não ajuda absolutamente em nada às forças progressistas, porque matar inocentes não ajuda a libertação de povo algum. A popularidade do presidente (George W. Bush) na época era a pior da história. Ele recuperou a popularidade e conseguiu inclusive impor ao mundo essa soberania. A unipolaridade se fortaleceu. Vivíamos o fim da bipolaridade e os Estados Unidos se fortaleceram a ponto de travarem uma guerra no Afeganistão e outra no Iraque. Fortaleceu o campo conservador, o campo da direita.

RBA - E em relação à comunidade árabe e muçulmana?

Muitas consequências tivemos de lá para cá. A mais sentida é o aumento do preconceito contra os povos árabes e contra os praticantes da religião islâmica. Isso é visível. Manifestações islamofóbicas são vistas nestes dez anos em muitas partes do mundo. Na Europa cresceu muito a intolerância religiosa.

RBA - Em que medida os atentados serviram para reacender esses preconceitos?

A Europa é um continente que tradicionalmente foi muito fechado, avesso a qualquer penetração de religiões que não sejam as de origem cristã. No Leste Europeu a perseguição aos judeus vinha há muito tempo, do século XIX. É um continente xenófobo, que sempre procurou se fechar em sua religião. Nunca nos esqueçamos das Cruzadas, que começaram no século XI, e que era um movimento dos reis cristãos incentivados pelo papa para retomar a Terra Santa dos chamados infiéis.

Agora, em certo momento, pela necessidade de ter mão de obra barata para desenvolver atividades que o europeu não aceita, começou-se a aceitar certa imigração. Esses imigrantes, a partir da década de 1960, fizeram crescer o número de pessoas que professam a religião islâmica na Europa, o que provoca alguma reação em partidos de direita, xenófobos, radicais, intolerantes... E surgem leis que discriminam. Pode-se ter uma igreja com a cruz lá em cima, mas não pode ter a meia-lua, que é o símbolo do Islã, sobre um minarete – uma discriminação ostensiva. A mesma coisa em relação às vestimentas (como a proibição de uso de véus). O Estado não pode controlar as opções individuais das pessoas.

RBA - Os atentados são vistos como um marco na história. Foi o início da decadência da hegemonia dos Estados Unidos?

Nota-se hoje um caminho para a multipolaridade, mas eu ainda não afirmaria que o mundo deixou de ser unipolar. Mesmo com toda a decadência – com toda a crise do capitalismo, que é sistêmica, e não conjuntural – o dólar é a moeda que determina as relações de troca no comércio internacional. Os Estados Unidos ainda possuem o maior exército do planeta. Hoje, eles conseguem, com o poderio militar, bombardear qualquer cidade do planeta em 90 minutos com as nove frotas de que dispõem. A China tem 4 milhões de soldados, o dobro dos Estados Unidos, mas não tem a menor possibilidade de fazer frente. Então, tem-se um mundo ainda unipolar. Agora, surgem polos novos, com a China, a Índia e até o Brasil. E a União Europeia tenta se manter como um ator neste mundo.

RBA - George W. Bush permaneceu conseguiu se reeleger depois dos atentados, mas Barack Obama venceu os republicanos em 2008. Uma de suas bandeiras era fechar a prisão de Guantánamo, o que ainda não aconteceu. O que se pode esperar nos próximos anos?

Nos Estados Unidos, o que se vê internamente é um crescimento da direita. Mesmo estando longe das eleições do ano que vem (à presidência), ainda acho que Obama sai com certa vantagem. Ele vem de uma ala chamada mais progressista, liberal. Para os padrões deles, ser liberal é ser de esquerda. Mas ele não conseguiu fazer o plano de saúde que gostaria, está muito limitado.

No caso de Guantánamo, foi um dos primeiros atos que tomou e, logo, recuou. Quando era pré-candidato – eram seis os nomes do Partido Democrata –, Obama tinha o programa de retirada mais rápida das tropas do Iraque, em três meses. Vai completar quatro anos sem conseguir cumprir. Ele é presidente dos Estados Unidos, mas ao mesmo tempo é o chefe do império, e tem de cumprir o papel determinado pelo império.