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Livro aponta limites da gestão de Rafael Correa no Equador

por anselmomassad publicado , última modificação 05/05/2011 14h58

Correa teve apoio dos indígenas para se eleger, em 2006, e para a nova constituição, em 2008. Mas houve rompimento em 2009 (Foto: Raoni Maddalena/Divulgação)

São Paulo – O governo Rafael Correa não é revolucionário, mas é o melhor dos últimos anos no Equador, avalia o jornalista Tadeu Breda. Após visitas a Quito e muita pesquisa, Breda lança, nesta quinta-feira (5) o livro O Equador é verde – Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento. A obra conta com 36 fotografias de Raoni Maddalena e marca a estreia da Editora Elefante, selo que tem o próprio autor como sócio.

O jornalista critica as análises correntes no Brasil sobre o processo pelo qual o país sul-americano passa. De um lado, a mídia convencional coloca Correa como "populista", a exemplo do juízo que faz de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, etc.. Ao mesmo tempo, veículos alternativos tendem a fazer a análise inversa. A falta de sutileza na percepção das transformações do país foi a principal motivação do jornalista para produzir o estudo.

"A situação é mais complexa e permite abordagem mais profunda da 'Revolução Cidadã', como Correa chama seu governo", avalia Breda. "Há medidas revolucionárias, digamos, e outras não tão revolucionárias como diz a propaganda. O livro ajuda a desfazer mitos nesse sentido, inclusive de situações que o governo tenta mudar, mas não consegue."

Equador: carro transporta bananas verdes (Foto: Raoni Maddalena/Divulgação)

Desde a eleição de Chávez, em 1998, na Venezuela, a América do Sul passa por transformações. A região vinha de pelo menos uma década de governos que seguiam, em maior ou menor grau, uma agenda de privatizações, redução do papel do Estado na economia e aposta na capacidade do mercado se autorregular.

Apesar de ter eleito seu governo de esquerda em 2006, com Correa, o Equador é um dos países que recebe menos atenção no Brasil, na análie de Breda. E isso ajuda a explicar por que as análises e informações disponíveis pecam pela falta de complexidade.

Indígenas

Um dos pontos mais marcantes da gestão de Correa foi o rompimento entre movimentos indígenas e o governo. "O movimento indígena foi o grande preparador do cenário político e social que possibilitou a vitória (de Correa) em 2006", lembra Breda. O autor lembra que esse setor manteve-se mobilizado desde o fim da década de 1980, incluindo um levante em 1990, nos 500 anos da descoberta da América e contra reformas neoliberais.

Os indígenas participaram ainda da derrubada de três governos entre o fim da década de 1990 e começo de 2000. Abdalá Jaime Bucaram Ortiz (1997), Jamil Mahuad (1998) e Lucio Gutiérrez (2005) tiveram seus mandatos interrompidos por protestos seguidos de renúncia. Vale lembrar que, desde 1999, o Equador tem sua economia dolarizada, o que quer dizer que o país abandonou sua moeda nacional para usar o dólar mesmo nas operações domésticas correntes.

Apesar do apoio a Correa ter sido fundamental, além da vitória eleitoral, para a aprovação da nova constituição, em 2008, o rompimento veio em 2009. As principais acusações dos indígenas contra o governo são de descumprimento da própria constituição. "Isso aconteceu em questões ambientais e 'plurinacionais', que dizem respeito à diversidade cultural do país", explica Breda. "Concretamente isso se deu em uma lei que inaugurou a mineração industrial a céu aberto, porque vão contra direitos da natureza e contra autonomias de territórios de grupos indígenas."

"A principal crítica da esquerda ao governo é que ele acabou reproduzindo algumas práticas políticas que ele mesmo criticava", analisa. Breda exemplifica com a visão de desenvolvimento que passa longe de romper com o ideário ocidental padrão e "chega a ser um tanto retrógrada". "Correa fica no meio do caminho entre um governo realmente revolucionário e, ao mesmo tempo, é o melhor dos últimos anos no Equador", opina.

 

O Equador é verde – Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento

de Tadeu Breda
Prefácio: Gilberto Maringoni
Apresentação: Maria Helena Capelato
Fotos: Raoni Maddalena
Projeto gráfico: Bianca Oliveira
Editora Elefante
R$ 25,00
www.latitudesul.org/livro
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