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Em livro, Bush defende tortura em seu governo contra suspeito

Ex-presidente diz sentir 'náusea' ao lembrar que não foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque
por Redação da RBA publicado 03/11/2010 18h53, última modificação 03/11/2010 18h54
Ex-presidente diz sentir 'náusea' ao lembrar que não foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque

São Paulo - O uso de tortura pela agência de inteligência dos Estados Unidos (CIA) era de conhecimento do ex-presidente americano George W. Bush. Ele afirma ter também autorizado o emprego de "afogamento simulado" contra um suspeito de participação no planejamento dos atentados de 11 de setembro. A informação consta do livro de memórias "Decision Points", cujo lançamento está previsto para a próxima semana. As informações foram divulgadas pelo jornal The New York Times desta quarta-feira (3).

Em trechos do livro a que o jornal teve acesso, Bush relata que foi questionado por agentes da CIA sobre a adoção de tortura no interrogatório de Khalid Sheikh Mohammed, capturado no Paquistão em 2003 e detido desde 2006 no campo de Guantánamo (onde fica uma base dos Estados Unidos em Cuba). Ele diz ter respondido: "Com certeza".

Além de admitir conhecimento e a autorização do procedimento, o uso de tortura é defendido por Bush. Ele afirma que a prática ajudou a "salvar vidas". Oficialmente, o governo classifica o afogamento simulado de "interrogatório intensificado". Defensores de direitos humanos classificam a prática de tortura.

O livro apresenta, segundo o jornal, detalhes sobre 14 decisões importantes tomadas antes e durante os oito anos de mandato do ex-presidente. Da decisão de parar de beber ao ataque ao Iraque a partir de 2003, passando pela reação aos atentados de 11 de setembro.

A respeito do Iraque, Bush classifica como correta a decisão de invadir o país, mesmo sem que as armas químicas tenham sido encontradas. "Os Estados Unidos estão mais seguros sem um ditador homicida", escreveu o ex-presidente. Ele insiste que Saddam Hussein buscava armas químicas e biológicas, embora nenhum indício disso tenha sido encontrado na prática. "O povo iraquiano está melhor com um governo que responde a eles em vez de torturá-los e assassiná-los", sustentou.

A acusação de que o regime comandado por Hussein desenvolvia armas de destruição em massa foi o principal argumento apresentado pela gestão Bush para defender a invasão no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). As imagens apresentadas como indícios do fato foram desmentidas por documentos confidenciais revelados nos últimos anos.

Sobre o fato de nenhuma arma biológica nem química ter sido encontrada, Bush revelou ter sentido "náusea". "Ninguém ficou mais chocado e bravo do que eu quando não encontramos as armas. Tinha uma sensação de náusea todas as vezes que pensava nisso. E ainda tenho", registrou Bush.

Cheney Darth Vader

Bush relata que chegou a cogitar trocar de vice ao se candidatar à reeleição em 2004. O ultraconservador Dick Cheney passava por duras críticas por suas relações com a indústria do petróleo, entre outros escândalos. O vice também era apontado como o presidente de fato, diante da figura frágil de Bush na presidência.

"Apesar de Dick ter ajudado com partes importantes de nossa base, ele havia se tornado um pára-raios para críticas da mídia e da esquerda", relembra Bush. "Ele era visto como obscuro e sem coração – o Darth Vader do governo", compara. Apesar disso, o vice foi mantido por ele "ajudar no trabalho".