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Governista tenta giro à esquerda na reta final das eleições no Chile

Decisão judicial sobre morte de pai de Eduardo Frei reacende debates sobre ditadura e delineia temas-chave para segundo turno
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 09/12/2009 18h35
Decisão judicial sobre morte de pai de Eduardo Frei reacende debates sobre ditadura e delineia temas-chave para segundo turno

Entre os políticos chilenos mais conhecidos, Frei é o que tem pior avaliação: 39% têm uma visão negativa do ex-presidente (Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil)

Ao longo dos últimos meses, a campanha para as eleições no Chile tornou-se monótona por mais de um momento. A impressão do eleitorado era de que os candidatos principais se pareciam demais e que a Concertação corria risco real de deixar o governo depois de 20 anos.

De alguma maneira, parte disso segue como realidade: a coalizão de Michelle Bachelet terá de suar a camisa para continuar em La Moneda, desafiando o milionário conservador Sebastian Piñera, que lidera as pesquisas desde o começo. A aliança de partidos da centro-esquerda até a democracia cristã, formada logo após a presidência de Augusto Pinochet.

A última semana de campanha trouxe, porém, surpresas dignas de um bom roteiro de cinema. A poucos dias da eleição a Concertação teve enfim um fator que trouxe a união que há tempos não se via entre os partidos oficialistas. E o candidato governista, Eduardo Frei, ganhou o motivo que esperava para aproximar-se do eleitorado mais liberal, que terá de migrar no segundo turno.

A Justiça chilena confirmou que o pai do candidato, o também ex-presidente Eduardo Frei Montalva, morreu envenenado pela ditadura de Augusto Pinochet. Quando estava internado na Clínica Santa Maria, em janeiro de 1982, Frei Montalva recebeu gradativamente substâncias tóxicas que, de acordo com o ministro Alejandro Madrid, provocou a morte.

Imediatamente depois da declaração judicial começaram discursos, provocações e atos. A primeira eleição chilena com Pinochet morto praticamente ignorava a herança de uma das piores ditaduras sul-americanas, mas a decisão sobre o ex-presidente tratou de mudar tudo.

Em segundo lugar nas campanhas, o ex-presidente corre atualmente menos ameaças de ver seu lugar na próxima rodada roubado pelo candidato-revelação, Marco Enríquez-Ominami, ex-deputado do Partido Socialista que cresceu rapidamente nas pesquisas, mas agora parece não ter fôlego para o sprint final.

Com isso, o embate decisivo deve ser entre Frei e Piñera, e as pesquisas indicam pequena vantagem para o último. Vendo isso, o candidato oficialista usa a última semana de primeiro turno como a antecipação do segundo. Frei tem dado declarações que se aproximam dos setores do eleitorado até então reticentes a votar em um político conservador.

Lei de anistia

Frei manifestou-se a favor da derrubada da Lei de Anistia, abrindo espaço para os julgamentos dos envolvidos em assassinatos, torturas e desaparecimentos – atualmente, a abertura de processos depende da avaliação caso a caso. Após sua manifestação, o quarto colocado nas pesquisas, Jorge Arrate, apontou que se trata de um passo importante para o apoio no segundo turno, o que pode render ao oficialismo em torno de 6% dos votos, suficiente apenas para apertar a disputa.

Por outro lado, as declarações de Frei não convenceram o deputado Ominami, que em um primeiro momento não poupou críticas. “Há um candidato que acaba de descobrir que há que derrubar a Lei de Anistia. Não o havíamos escutado em 20 anos pronunciar-se a respeito”, assinalou, amenizando mais tarde o discurso com a afirmação de que conhece muito bem a dor de Frei – o pai de Ominami também foi morto pela ditadura.

O conservador Piñera apontou que Frei busca temas que dividem o país. “Que ocorre com Frei, por que tanta amargura? Está optando pelo passado, revivendo as mesmas divisões, ódios e rancores que tantos danos fizeram ao Chile”, afirmou.

Compromissos de campanha

Um dia depois da decisão judicial, ocorreu o que ninguém esperava: a união dos partidos da coalizão governista. Embora alguns analistas acreditem que a manobra é para inglês ver, todos os presidentes das siglas que integram a Concertação estiveram no cemitério em que foi organizado um ato para lembrar o assassinato do ex-presidente. Ministros, parlamentares e figuras importantes para a política chilena foram convocados para a cerimônia.

Até o ex-presidente Ricardo Lagos, que por tempos não falou com Frei, entrou em ação. “Se dão conta de que os últimos comandantes em chefe do Exército antes de Pinochet foram assassinados pela direita (Frei e Allende)? É um magnicídio para nunca mais viver e nunca mais negar. Alguns ainda negam que isso tenha ocorrido”, afirmou.

Mais importante que o apoio de Lagos, no entanto, é que a presidente Michelle Bachelet colocou sua espantosa popularidade a favor de Frei. A reticência dos últimos meses transformou-se em apoio explícito esta semana, com declarações de que apoia o candidato “com meu coração e com minha cabeça”. Ela afirmou não ter dúvidas de quem é o mais preparado para levar adiante as atuais diretrizes de governo: “Ou seja, políticas que possam permitir seguir crescendo, seguir desenvolvendo-se, mas com igualdade de oportunidade para todos”.

O peso de Bachelet não é pouco. A última pesquisa do Centro de Estudos Públicos do Chile mostra que a presidente tem aprovação de 78% da população e 82% sentem confiança nela como pessoa, oito pontos de crescimento em um espaço de dois meses. O bom manejo da crise econômica é visto como o grande trunfo do atual governo, mas não da coalizão governista.

Rachada em meio às disputas pela definição de candidaturas, que na verdade refletiam o desgaste de 20 anos de parceria, a Concertação entrou em crise. "É um fator central nessa disputa, uma desestabilização que gerou uma crise eleitoral", afirma Flávio Pinheiro, pesquisador do Observatório Político Sul-americano do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, em entrevista à Rede Brasil Atual. "O que a oposição não esperava era que o capital político da Concertação não iria embora", pondera.

Ele considera que a emergência de Ominami se deve mais aos erros da Concertação do que a uma crise de identidade entre o eleitorado e a coalizão oficialista. O candidato independente, por sinal, pode até não passar para o segundo turno, mas sai fortalecido para disputas futuras. O deputado arrancou do quase nada para uma oscilação entre 15% e 20% nas últimas pesquisas. No segundo turno, no entanto, seria menos competitivo frente a Piñera.

Ao que tudo indica, o jovem político de 36 anos estudou perfeitamente a cartilha da candidatura Barack Obama nos Estados Unidos. A campanha de Ominami foi pautada fortemente pela internet, com divulgação de vídeos em sua página, arrecadação online e uso massivo das redes de relacionamento - a ponto de muitas vezes haver exposição excessiva da vida particular.

Qualquer que seja o próximo ocupante de La Moneda, mudanças drásticas tendem a ocorrer apenas lenta e gradualmente. O legado de Bachelet reflete-se, além da boa condução econômica, em programas sociais, conquistas que a população dificilmente aceitará abrir mão.

Tendo isso em conta, Piñera fez ao longo da campanha defesa da assistência social, uma tentativa de eliminar sua imagem de político de direita (80% dos chilenos colocam o candidato da Alianza nessa ponta do espectro). 

Frei, que em diversos momentos fez críticas públicas a Bachelet, colaborando para o desgaste da coalizão, deixou de lado essa postura durante a campanha e possivelmente terá de contemplar parte dos coligados da atual presidente em seu gabinete caso saia vencedor.

"Tudo vai depender da composição que ele consiga no Parlamento. Não adianta ele ganhar e o Partido Democrata-Cristão não obter número suficiente de cadeiras. Mas não vejo grandes mudanças. Talvez uma política externa menos heterodoxa que a de Bachelet, mas internamente é muito difícil haver mudança", afirma Flávio Pinheiro.

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