RESISTÊNCIA EM QUADRA

Douglas Belchior explica protestos na NBA: ‘Letramento racial forma posicionamento político’

Jogadores da maior liga de basquete do mundo se mobilizam pela luta antirracista e contra a violência policial

@lakers/Instagram
Onda de protestos se intensificou na NBA, após Jacob Blake levar sete tiros pelas costas, disparados por policiais brancos, na cidade de Kenosha, em Wisconsin, no último dia 23

São Paulo – Protestos contra o racismo e incentivos ao voto nas eleições presidenciais de novembro pautaram os jogos dos playoffs da NBA, principal liga mundial de basquete masculino. Após o boicote promovido pelos atletas contra a violência policial, que paralisou o torneio por dois dias, eles ampliaram o discurso político nas partidas.

O educador Douglas Belchior, cofundador da Uneafro, uma das 150 entidades que compõem a Coalizão Negra por Direitos, explica que os Estados Unidos estão avançado no debate sobre o racismo e por isso a discussão é levada para dentro das quadras.

“Ter um letramento racial faz com que qualquer negro norte-americano jamais vote no (Donald) Trump ou apoie os republicanos. O letramento racial forma o posicionamento político, enquanto aqui, nós não temos isso”, disse, em entrevista a Marilu Cabañas, no Jornal Brasil Atual.

Letramento racial é um conceito, como destaca a socióloga Neide Almeida, “que convoca à reflexão e exige posicionamento teórico e prático” em artigo publicado no Geledés. “Como nos diz a psicóloga e pesquisadora Lia Vainer Schuman, o letramento racial está relacionado principalmente com a necessidade de desconstruir formas de pensar e agir que foram naturalizadas”, diz.

“O racismo é a ideologia de manutenção de poder. É um instrumento ideológico para manutenção de determinados grupos que hegemonizaram o poder na América, durante a diáspora. Quando brancos falam de medo, é sobre perder privilégios”, explica Douglas.

O ativista acrescenta ainda que a falta desse debate no Brasil fez muitos atletas negros brasileiros fazerem campanha para o atual presidente da República. “Nos EUA, o debate racial informa o debate político”, acrescentou.

Posicionamento no Brasil

No último domingo (30), o Grêmio foi campeão do Campeonato Gaúcho. Entretanto, umas das cenas que marcaram a comemoração foi a camiseta utilizada pelo lateral Bruno Cortez, com a frase “vidas negras importam”, lema contra o racismo.

O jornalista Juca Kfouri afirma que o ato é um marco no futebol brasileiro. “Começará a frutificar. No mesmo dia, o Gabigol (jogador do Flamengo) já fez o gesto do Pantera Negra, é outra forma de empoderamento. As coisas começam a acontecer”, afirmou.

Douglas Belchior explica ainda que a desigualdade entre Brasil e Estados Unidos no debate racial está situada dentro de um contexto histórico. “Essa diferença do ponto de vista do opressor e da sensibilidade com o tema explica como o racismo funciona no Brasil e lá fora. A cobertura da mídia brasileira criminaliza movimentos sociais e a reação à violência racial. Mas nós estamos entrando em outro momento da nossa história. O engajamento entre os esportistas, intelectuais e artistas é maior do que havia quatro anos atrás”, defendeu.

Por outro lado, Juca diz que o futebol brasileiro precisa de um debate estrutural que coloque pessoas negras em posições de mais destaque. “Os jogadores brasileiros que, um dia, o mundo elegeu como número um são: Didi, Garrincha, Pelé, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. Sete de oito são negros. O único branco é o Kaká. Acrescente ainda a figura da Marta, também negra. Agora pergunte quantos técnicos e ou presidente de clubes são negros, na primeira divisão. Treinador negro na seleção nunca houve”, lamentou.


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