Revolta popular

Futebol e história: camisa do Clube do Remo, no Pará, lembra revolta da Cabanagem

Tradicional clube, que acaba de completar 115 anos, lança camisa que faz referência a movimento ocorrido ainda na época do Império

Reprodução/Montagem RBA
Índios e negros se juntaram em 1835 na província do Grão-Pará, que aderiu à Independência quase um ano depois da proclamação

São Paulo – Cabanagem foi o nome dado a revolta popular ainda nos tempos do Império, entre 1835 e 1840, na então província conhecida como Grão-Pará. Era uma área que abrangia estados da atual região Norte brasileira. Índios, negros e mestiços se levantaram contra a opressão e chegaram a tomar a cidade de Belém. O movimento acabou com dezenas de milhares de mortos.

O nome vem das moradias simples, com teto de palha, onde morava grande parte da população. Os “cabanos”, habitantes do interior da província. Também servia para designar um chapéu de abas largas. Nos dois casos, era sinônimo de pobreza.

Na semana passada, o Remo, time de futebol que divide a rivalidade local com o Paysandu – o duelo já tem mais de 750 partidas –, lançou a terceira camisa para a temporada, tendo justamente a Cabanagem como inspiração. Usa, inclusive, a cor vermelha, em vez de seu tradicional azul-marinho. Referência à bandeira do estado e ao “sangue derramado pelo povo cabano”.

“O espírito de vitória, de inclusão e de luta contra os preconceitos contidos no movimento cabano ajudou na formação histórica e cultural do estado do Pará e do Clube do Remo”, diz a agremiação, fundada há 115 anos, completados em fevereiro. “Encarnados na trajetória de diversos atletas, como Periçá, o Rei da Amazônia orgulha-se do povo paraense, de sua história, de suas conquistas, do time do povo e de suas lutas diárias. Assim, homenageia os 185 anos da Revolução Cabana.”

Independência e rebelião

Na manga da camisa, em branco, estão os anos do começo e do fim da Cabanagem. Nas costas, na parte superior, um mapa do Brasil, com destaque para a província do Grão-Pará, que só aderiu à Independência em agosto de 1823, quase um ano depois da proclamação.

Em tese defendida em 2007 na Universidade de São Paulo, o autor, Sebastião Vargas, define a Cabanagem como um movimento que “refletia a frustração de uma minoria entre as camadas médias urbanas nascentes e dos camponeses sem-terra de origem indígena e cabocla com os rumos tomados pela Independência, que deixara intacta a estrutura social da Colônia, alicerçada no latifúndio e no trabalho escravo”.

Segundo o autor, a rebelião chegou a ter apoio de alguns fazendeiros e comerciantes. Mas estes mudaram de posição “assim que os rebeldes começaram a esboçar ideias como o fim da escravidão, a distribuição de terras para o povo e a morte para os exploradores”. Expulsos de Belém, os cabanos resistem por anos no interior, mas são dizimados. Só os fuzilamentos teriam sido 12.500, mas o número de mortos é bem maior. Há autores que falam em até 50 mil.

O campeonato paraense será retomada no próximo fim de semana. Vice-líder, o Remo enfrenta no domingo (2), em casa, o Águia de Marabá, quinto colocado.