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‘Incomodei muitas pessoas’, diz Emily Lima, técnica demitida da seleção feminina

Treinadora criticou a falta de apoio do coordenador da CBF, Marco Aurélio Cunha, e diz que já tem propostas do exterior

Lucas Figueiredo/CBF
emily lima seleção brasileira

Após a demissão de Emily Lima, jogadoras apoiaram a treinadora e cinco já abandonaram a seleção

São Paulo – Demitida na última sexta-feira (29) da seleção brasileira feminina, a treinadora Emily Lima diz que sua saída se deu pelo fato de explicitar os problemas da modalidade, sempre sem o apoio do coordenador de futebol feminino da CBF, Marco Aurélio Cunha. “Incomodei muito as pessoas lá dentro e uma delas foi ele, então surgiram as desculpas sobre os resultados dos jogos, mas não foi só isso”, conta, em entrevista à Rádio Brasil Atual.

Um dos motivos que irritou a alta cúpula da CBF foi pensar o futebol feminino de forma ampla, além da seleção. Emily explica que o modelo brasileiro é defasado, o que atrapalha no desenvolvimento das jogadoras. “Cerca de 90% das nossas atletas estão fora do país, porque o nosso campeonato é mediano para baixo”, lamenta.

Porém, a treinadora tem recebido o apoio das jogadoras da seleção nacional e cinco atletas já declararam que não servirão mais o time: Cristiane, Rosana, Fran, Andreia Rosa e Maurine. “Ouço do nosso coordenador que elas fizeram isso pela amizade, mas eu não era amiga delas. Então é fácil ele dizer isso, ao invés de reconhecer que as jogadoras acreditavam que o trabalho estava bem direcionado”, critica. 

O futuro da treinadora ainda está indefinido, com propostas no Brasil e exterior, ela estuda seus próximos passos. Entretanto, a possibilidade de sofrer represálias da CBF faz com que pense em sair do território nacional. “Vou continuar estudando e trabalhando para que possa exercer o que eu sempre quis”, afirma. Leia a entrevista completa.

Como você viu o protesto das jogadoras?

De forma triste, a gente trabalha tanto em prol da modalidade, coloca a cara para que o futebol feminino desenvolva melhor no país. É triste ver uma atleta como a Cristiane deixar a seleção, a Rosana também, depois de 15 anos na equipe, a Fran e a Andreia. É muito ruim para a modalidade.

Ouço do nosso coordenador que elas fizeram isso pela amizade, mas eu não era amiga delas. Então é fácil ele dizer isso, ao invés de reconhecer que as jogadoras acreditavam que o trabalho estava bem direcionado. O mais importante para nós da comissão é que o apoio veio de 24 das 26 atletas.

Essa demissão acontece por que você é mulher?

Acho que tudo aconteceu porque vivo o futebol feminino a minha vida toda e via que poderia desenvolver muito mais o futebol. Sou alguém que fala que não está tudo bem, então incomodei muito as pessoas lá dentro e uma delas foi o nosso coordenador Marco Aurélio Cunha, aí vieram as desculpas sobre os resultados dos jogos, mas não foi só isso.

A antiga comissão também teve resultados ruins, mas não foi o motivo da demissão, diziam que tinha trabalho. Ou seja, antes eles viam trabalho antes do resultado, agora é o contrário. Então, é triste ver pessoas lá dentro não deixarem o futebol feminino se desenvolver.

O que você propôs que irritou a alta cúpula da CBF?

Pensar no futebol feminino, mas de forma geral, foi o que incomodou, já que era diferente do que faziam, que era só pensar na seleção. Com a modalidade se desenvolvendo e crescendo, a nossa seleção vai ter um retorno interessante.

Se o nosso futebol feminino no Brasil continuar como está, achando que já está bom o Campeonato Brasileiro, isso não vai ter reflexo nenhum na seleção. Cerca de 90% das nossas atletas estão fora do país, porque o nosso campeonato é mediano para baixo. Temos que inverter isso, como os outros países fasem. Nos Estados Unidos, eles tentam deixar o máximo de atletas da seleção na liga deles e ainda levam as melhores jogadoras de outros países. Então, temos 7 ou 8 jogadoras nossas disputando a liga americana, ajudando a potencializar mais ainda o futebol deles.

Mas deixam a coisa como está aqui, aí chegamos nos jogos amistosos ou nas competições e ainda somos cobradas pelos resultados.

É como se o futebol feminino tivesse de ser grato pela atenção da CBF, enquanto deveria ser prioridade.

A gente ouvir o nosso coordenador dizer que “nós não damos retorno à CBF” e “o que está sendo feito está ótimo” é muito triste, porque a cobrança é de resultado mesmo.

Você já contou algumas coisas, como a seleção chegar num lugar bem no dia da estreia de um torneio. Quais foram os absurdos da estrutura que a CBF nunca deu para a seleção?

Na verdade, eles dão uma boa estrutura. O problema não é a CBF, mas quem está lá dentro. Tenho certeza que, se houvesse pessoas ao meu lado sem a intenção de prejudicar o nosso trabalho, nós conseguiríamos ir três ou quatro dias antes dos jogos. Algumas vezes fui falar com o presidente e ele já tinha escutado o coordenador, que já tinha dado a palavra dele. Nós pedíamos ao nosso coordenador alguns dias, mas não sei o que ele levava, sempre recebíamos uma negativa.

Eu subia para falar com o presidente e explicava a situação, entendia, mas dizia: “não posso falar ‘não’ para ele e ‘sim’ para você”, então via que dava para fazer o que a gente tinha planejado. Muitas vezes se bate na CBF, mas no caso do feminino e na minha experiência, tem pessoas que não deixam as coisas acontecer.

Esse episódio poderá prejudicar a sua carreira como treinadora daqui para frente?

Não me preocupo com isso, quando eu jogava na Espanha, além de atleta, trabalhava de tratorista e também em uma fábrica de persianas. Então, trabalho não falta. O que não posso é me omitir diante de coisas erradas. Tenho princípios e saí da seleção sem feri-los, isso é o mais importante. Vou continuar estudando e trabalhando, para que possa exercer o que eu sempre quis. Já tem propostas no exterior e no Brasil.

Como é o mercado para técnicas de futebol feminino?

Fora do Brasil, o mercado gira igual ao nosso masculino. Na liga dos Estados Unidos, quando um treinador não tem bons resultados, em algumas rodadas já fazem a troca. Aqui no Brasil não funciona assim porque o mercado de profissionais não é tão grande para fazer essa troca. Isso não é ruim, porque ele consegue fazer um planejamento a longo prazo.

Ouça a entrevista na Rádio Brasil Atual

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