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Perdas sucessivas de equipamentos esportivos desafiam 'vocação olímpica' do Rio

Problemas no Engenhão deixam sem estádio de futebol cidade que já perdeu autódromo, velódromo, parque aquático e estádio de atletismo
por Maurício Thuswohl, da RBA publicado , última modificação 03/04/2013 15h33
Problemas no Engenhão deixam sem estádio de futebol cidade que já perdeu autódromo, velódromo, parque aquático e estádio de atletismo

Irregularidades na cobertura lançam dúvidas sobre a qualidade da construção do "maior legado" do Pan de 2007 (Foto: Wilson Dias/ABr)

Rio de Janeiro – Em uma conversa marcada para amanhã (4), o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, dará ao presidente do Botafogo, Maurício Assumpção, uma primeira estimativa de quanto tempo permanecerá fechado o Engenhão, estádio municipal administrado pelo clube carioca em regime de concessão e interditado desde 26 de março em decorrência de problemas em sua estrutura. Segundo fontes da prefeitura, esse tempo não deverá ser inferior a quatro meses, fato que, aliado à atrasada reforma do Maracanã, faz com que o Rio, a pouco mais de um ano de receber a partida final da Copa do Mundo, não tenha um estádio de futebol moderno e capaz de abrigar em segurança um grande número de torcedores.

A crise nos estádios cariocas reacende a discussão sobre a “vocação olímpica” do Rio, tantas vezes afirmada pelas autoridades públicas e esportivas nos últimos anos. Sede da Olimpíada de 2016, a cidade, em uma realidade distante da propaganda oficial, sofre, a três anos do evento, com as reformas e intervenções urbanas que provocaram ou provocarão o fechamento de alguns de seus principais equipamentos esportivos. O tsunami dos preparativos para os grandes eventos já arrastou o autódromo Nélson Piquet, em Jacarepaguá, e o velódromo construído na Barra da Tijuca para os Jogos Panamericanos de 2007, além do estádio de atletismo Célio de Barros e do parque aquático Júlio Delamare, ambos localizados no complexo esportivo do Maracanã.

Os problemas no Engenhão, estádio olímpico cantado em verso e prosa como “o principal legado” do Pan de 2007, lançam uma nuvem de dúvidas sobre a necessidade e a pertinência das obras e reformas realizadas para a Copa e a Olimpíada. Com custo inicial estimado em R$ 60 milhões, o estádio acabou sendo construído por R$ 380 milhões, mas agora apresenta problemas elétricos, hidráulicos e estruturais que forçaram a sua interdição. O ponto mais grave e que, segundo a prefeitura, poderia causar uma tragédia é o deslocamento excessivo – 50% acima do máximo previsto - dos arcos de sustentação da cobertura das arquibancadas.

As primeiras análises sobre o conjunto da obra, no entanto, já apontam diversas outras falhas de execução e sugerem a ocorrência de um misto de incompetência das empreiteiras responsáveis por construir o Engenhão com a evidente má-fé observada na utilização de materiais – como, por exemplo, tijolos e sistemas elétricos – com resistência e qualidade inferiores àquelas especificadas no projeto original.

No Maracanã, que tem seu processo de licitação para concessão à iniciativa privada marcado para o próximo dia 11, alguns personagens da construção do Engenhão se repetem, caso das empreiteiras Delta e Odebrecht. O enredo também é semelhante, com atrasos na execução das obras, aumento considerável no orçamento inicialmente previsto (de R$ 600 milhões para R$ 932 milhões) e muita pressa na reta final. Curiosamente, a Delta – acusada de envolvimento com o contraventor Carlinhos Maracanã (nada a ver com o estádio) – havia abandonado a obra do Engenhão no meio, assim como fez mais recentemente com o Maracanã.

No caso do Engenhão, a Delta alegou incapacidade de erguer a cobertura e a tarefa foi assumida pelo Consórcio Engenhão (formado por Odebrecht e OAS), que agora afirma existirem sinais de que os erros de execução do projeto ocorreram antes que assumissem a obra. No Maracanã, a empresa, após ter seu nome envolvido na CPI do Cachoeira, deixou o consórcio que integrava com Odebrecht e Andrade Gutierrez.

Demolições

Concretamente, o processo de reforma e privatização do Maracanã vem tornando o Rio uma cidade cada vez menos “olímpica”, graças aos sucessivos fechamentos e demolições. A vítima da vez é o parque aquático Júlio Delamare, que ontem (2) ganhou do governo estadual sobrevida até o próximo dia 10 de maio com o objetivo de dar tempo para que a Confederação Brasileira de Esportes Aquáticos (CBDA), ali sediada, possa fazer a mudança para um conjunto de salas que possui no centro do Rio. Os atletas de ponta e as centenas de crianças que ali se desenvolvem na natação, por sua vez, ainda não sabem em que piscina irão treinar, já que outro “importante legado” do Pan de 2007, o parque aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca, apresenta problemas estruturais e vive deserto de competições. Suas águas paradas já fizeram o local receber da população o malvado apelido de “Maria Dengue”.

No estádio Célio de Barros, templo do atletismo carioca, a situação é irreversível, pois sua demolição já começou. Órfãos, os atletas se dispersaram, e cerca de cem deles passaram a treinar diariamente no Engenhão. A interdição do estádio, segundo a prefeitura, não impedirá os treinamentos de atletismo, pois a área em risco não afetaria as pistas: “Nos disseram que, se o teto cair, será sobre a arquibancada”, diz Carlos Alberto Lancetta, presidente da Federação de Atletismo do Rio de Janeiro (Farj). A entidade espera nova debandada nos alunos de 5 a 50 anos que fazem parte das escolinhas de atletismo. Na viagem do Célio de Barros até o Engenhão, o grupo se reduziu de 322 para 150 pessoas.

Os espaços onde hoje existem o Célio de Barros e o Júlio Delamare, assim como todo o entorno do Maracanã, serão administrados pelos vencedores da licitação que será realizada na semana que vem. Segundo o projeto de concessão à iniciativa privada, estacionamentos e lojas tomarão os espaços até então dedicados ao atletismo e à natação. As mudanças com o novo Maracanã não se limitam ao campo esportivo, já que também está prevista a demolição da Escola Friedenreich, considerada a quarta melhor do estado no último Enem, e a transformação do terreno do antigo Museu do Índio no futuro Museu Olímpico.

Sem corridas

Mas não são somente os preparativos para a Copa do Mundo que vêm fechando equipamentos esportivos no Rio de Janeiro. Para dar espaço ao Parque Olímpico de 2016, a prefeitura desmontou o Autódromo Nélson Piquet, maior palco do automobilismo carioca durante os últimos 46 anos. De acordo com a promessa feita pelo poder público, um novo autódromo será construído em um terreno cedido pelo Exército em Deodoro, mas o projeto sequer tem data para começar, fato que praticamente decretou o fim do automobilismo no estado. Na temporada de 2013, a Federação de Automobilismo do Rio de Janeiro organizará suas corridas em Minas Gerais.

Também na área do Parque Olímpico, o velódromo, outro “legado” do Pan 2007, também foi desativado. Lá, além dos ciclistas, treinavam atletas de ponta da ginástica artística e da patinação de alta velocidade. Os patinadores passaram a treinar em Sertãozinho (SP) e os melhores ginastas se espalharam pelo país, já que no velódromo carioca estava instalado o Centro de Treinamento do Time Brasil, criado pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Para os ciclistas, não há alternativa: “Fomos despejados. Isso acarretará o fim do sonho olímpico para o ciclismo de pista brasileiro”, lamenta Cláudio Santos, presidente da Federação de Ciclismo do Rio de Janeiro.