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Cada vez maiores, investimentos para Copa e Olimpíada criam disputa no Rio

Vereadores tentam ampliar área de construção do Parque Olímpico; reforma do Maracanã custará em torno de R$ 900 milhões
por Maurício Thuswohl, da RBA publicado , última modificação 28/12/2012 08h55
Vereadores tentam ampliar área de construção do Parque Olímpico; reforma do Maracanã custará em torno de R$ 900 milhões

Cara, a reforma do Maracanã ficará pronta apenas em abril, a poucas semanas do início da Copa das Confederações (Foto: Rafael Andrade/ Arquivo Folhapress)

Rio de Janeiro – Divulgado esta semana pelo secretário-executivo do Ministério do Esporte, Luís Manuel Fernandes, o balanço das ações e investimentos do governo federal para a Copa do Mundo de 2014 revelou que as obras de reforma do Maracanã são as mais atrasadas entre os estádios que serão utilizados já no ano que vem para a Copa das Confederações, evento-teste organizado pela Fifa. As obras no estádio carioca estão sendo executadas pelo Consórcio Maracanã, formado pelas construtoras Odebrecht e Andrade Gutierrez sob a supervisão da Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop).

Inicialmente prevista para o fim de janeiro de 2013, a conclusão da reforma do complexo esportivo do Maracanã foi adiada para o fim de abril, quando o custo total das obras terá atingido, segundo estimativas atualizadas, algo em torno de R$ 900 milhões. Esse montante, no entanto, ainda não leva em conta os dois novos projetos anunciados ontem pelo Ministério do Esporte: a reurbanização do trecho que liga o Maracanã à Quinta da Boa Vista e a reforma e modernização da estação multimodal de trem e metrô da Mangueira, bairro vizinho ao estádio.

Os projetos se desdobram e os custos se avolumam também no que diz respeito às obras para a Olimpíada de 2016. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou que o município terá no ano que vem um adicional de R$ 300 milhões para investir nos Jogos, fruto da mudança no cálculo do índice que corrige as dívidas dos estados e municípios brasileiros com a União. “A dívida do Rio equivale a 40% da receita líquida da cidade. Se a União me permitir captar recursos, faço a Olimpíada sem pegar um tostão em Brasília”, disse.

As altas cifras em jogo, entretanto, também podem atrapalhar a preparação do Rio de Janeiro para os grandes eventos esportivos agendados para os próximos anos. Já no início de 2013, será travado um duelo entre a prefeitura e a Câmara dos Vereadores em torno da abrangência do pacote olímpico enviado ao Parlamento por Paes em novembro. O projeto redefine parâmetros urbanísticos para a construção do Parque Olímpico e de outros equipamentos esportivos na zona oeste do Rio.

De olho em uma valorização nos terrenos localizados em torno dos empreendimentos olímpicos estimada pelos corretores em R$ 4 bilhões, os vereadores cariocas desfiguraram na semana passada o pacote proposto pela prefeitura. Utilizaram para isso uma série de emendas que, entre outras coisas, ampliam em 500 mil metros quadrados, sem qualquer salvaguarda ambiental, a área prevista para o erguimento de construções nos arredores do Parque Olímpico.

As alterações no pacote olímpico aprovadas na Câmara criam ainda uma série de incentivos e contrapartidas aos investimentos privados como, por exemplo, a permissão para a construção de hotéis e restaurantes com isenção permanente de IPTU e ISS em torno de um terreno de 60 mil metros quadrados onde a prefeitura pretende montar o campo de golfe para a Olimpíada. O prefeito já anunciou que vetará integralmente as emendas parlamentares.

Bondades

O texto do pacote olímpico enviado à Câmara por Eduardo Paes já previa bondades ao Consórcio Rio Mais – capitaneado pelas construtoras Carvalhos Hosken, Odebrecht e Andrade Gutierrez –, responsável pela construção do Parque Olímpico. Os principais itens são a transferência ao consórcio da propriedade de uma área de 800 mil metros quadrados e o repasse de R$ 520 milhões em 15 anos para a conservação do “Bairro Olímpico”.

Paes, no entanto, não admite que os vereadores queiram distribuir com o chapéu da prefeitura outras bondades aos donos dos terrenos – grandes empresários, em sua maioria – localizados em torno do futuro Parque Olímpico: “No início do ano que vem, já na próxima legislatura, haverá a votação do veto. Se ele for derrubado, vou radicalizar e cancelar todos os contratos. Vamos repensar tudo”, promete o prefeito.

Triste Memória

Os cariocas têm lembranças desanimadoras quando associam a organização de eventos esportivos internacionais ao descompasso entre prefeito e vereadores. Alguns meses antes da realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, a Câmara mudou o projeto do complexo residencial da Vila do Pan e transferiu o local inicialmente previsto para sua construção para um terreno na Barra da Tijuca que precisou ter seu gabarito alterado. Assim como se quer fazer agora com o Parque Olímpico, a mudança naquela ocasião acarretou lucros milionários para os proprietários dos terrenos que circundavam o empreendimento.

O resultado da “pressa” dos vereadores, sete anos depois, é um prejuízo de R$ 33 milhões para a prefeitura. Este é o valor estimado até aqui para as obras de recuperação e contenção que irão estabilizar o terreno da Vila do Pan, já que algumas ruas e acessos aos prédios estão afundando. Os problemas na Vila do Pan, que tem 80% de seus 1.380 apartamentos ocupados, começaram ainda em 2007 e não pararam até hoje. Em 2011, após intensa negociação entre os moradores e a prefeitura, foram iniciadas as obras de recuperação. Curiosidade: o terreno onde agora se quer construir o Parque Olímpico fica no mesmo local que foi rejeitado para a construção da Vila do Pan em 2007.