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Com bandeira olímpica, Rio corre contra o tempo e moradores protestam

Movimentos entregam a assessores do prefeito da capital fluminense dossiê mostrando as consequências da remoção forçada de moradores para abrir caminho para obras dos jogos de 2016
por Maurício Thuswohl, da RBA publicado 14/08/2012 17h54, última modificação 14/08/2012 18h16
Movimentos entregam a assessores do prefeito da capital fluminense dossiê mostrando as consequências da remoção forçada de moradores para abrir caminho para obras dos jogos de 2016

A chegada da Bandeira Olímpica faz o mundo voltar os olhos para o Brasil. Para o bem ou para o mal (Foto: Roberto Stuckert Filho. Presidência)

Rio de Janeiro – Uma comitiva composta pelos “irmãos medalha” Esquiva e Yamaguchi Falcão, boxeadores, e que incluiu ainda o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, o governador Sergio Cabral e o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, entre outros, esteve hoje (14) no Palácio do Planalto para apresentar oficialmente à presidenta Dilma Rousseff a Bandeira Olímpica. O pavilhão oficial da Olimpíada permanecerá no Brasil pelos próximos quatro anos. 

Mais do que um símbolo, a presença da bandeira atrai para o Rio de Janeiro os olhos do mundo, chamando atenção para alguns problemas que já começam a ameaçar a agenda dos jogos de 2016, como a indefinição do orçamento olímpico e o impasse político que envolve remoções de população e outras ações necessárias à conclusão das obras previstas para o evento. A corrida, agora, é contra o tempo. 

Quando chegou ao aeroporto do Galeão ontem (13), trazendo de Londres a Bandeira Olímpica, Eduardo Paes, acompanhado por atletas e outras autoridades, foi recebido por uma manifestação de cerca de 50 moradores da Vila Autódromo, comunidade localizada na zona oeste da cidade e que deverá ser removida para a conclusão das obras viárias previstas no pacote olímpico. Os manifestantes tentaram, sem sucesso, entregar ao prefeito uma “medalha de ouro” na modalidade “ataque ao direito à moradia”. 

Também no aeroporto, integrantes do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas entregaram o dossiê “Megaeventos e Violação dos Direitos Humanos” a assessores do prefeito: “As remoções no Rio de Janeiro representam um flagrante desrespeito à legislação brasileira e aos compromissos internacionais assumidos pelo país para a defesa dos direitos humanos, e não são casos isolados”, afirma Clara Silveira, do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Segundo o dossiê, no Rio 22 mil pessoas vivem sob a ameaça de perderem suas casas por conta das Olimpíadas, sendo que 8 mil já foram removidas em 24 comunidades.

Segundo o projeto olímpico, os moradores removidos da Vila Autódromo serão transferidos para edifícios a serem cedidos pela prefeitura em um bairro próximo. Sobre o local onde hoje se encontra a comunidade, deverá passar o traçado da Transcarioca, via expressa de ônibus prevista no projeto. O dossiê afirma que “a prefeitura pretende legitimar a remoção de 500 famílias e a cessão, para o consórcio privado Odebrecht - Andrade Gutierrez - Carvalho Hosken, de uma área de 1,18 milhões de m2, dos quais 75% serão destinados à construção de condomínios de alta renda”. 

Orçamento atrasado

Outro fantasma que assombra os Jogos Olímpicos de 2016 é a indefinição quanto ao orçamento final do evento. Os números estimados pela prefeitura ultrapassam os R$ 28 bilhões, mas o custo total está longe de ser definido. O atraso na definição do orçamento mereceu críticas do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o belga Jacques Rogge: “Estamos pedindo [ao COB e à Prefeitura do rio] para o orçamento ser finalizado o quanto antes”, disse aos jornalistas, ainda em Londres, minutos antes de assistir à cerimônia de passagem da Bandeira Olímpica a Eduardo Paes. 

Apesar da pressa do COI, o orçamento das Olimpíadas do Rio só deverá mesmo ser fechado no segundo semestre e anunciado no ano que vem. “Os projetos mudaram e há uma discussão sobre o que é conta olímpica e o que é política pública. Além disso, nem todas as obras têm projetos executivos. Somente em 2013 teremos um orçamento”, disse, em entrevista ao jornal O Globo, a economista Maria Silvia Bastos Marques, presidenta da Empresa Olímpica Municipal. 

Segundo a prefeitura, alguns projetos já estão orçados, como as reformas do Maracanã (R$ 860 milhões) e do Aeroporto Internacional do Galeão (R$ 845 milhões), que servirão também à Copa do Mundo de 2014. Também têm orçamento já estimado a construção do Parque Olímpico (R$ 1,35 bilhão) e a instalação do corredor expresso de ônibus Transolímpico (R$ 1,6 bilhão), que interligará bairros da Zona Oeste da cidade. 

Outras obras, como a reforma do Sambódromo (R$ 65 milhões), que receberá a chegada da maratona, a construção do Centro de Operações Rio (R$ 25 milhões) na Cidade Nova ou a instalação do corredor expresso Transoeste (R$ 1,8 bilhão), já foram concluídas, parte delas com o custo dividido com o orçamento da Copa do Mundo.

Boxear

Mesmo com a presença das autoridades, a cerimônia de apresentação da Bandeira Olímpica à presidenta Dilma ficou marcada pela participação dos irmãos e pugilistas Esquiva Falcão e Yamaguchi Falcão, que ganharam medalhas de prata e bronze, respectivamente, nos recém-encerrados jogos de Londres. Indagada por um jornalista se gostaria de boxear os juros, Dilma respondeu: “Acho que a gente tem de boxear todas as coisas que atrapalham o crescimento do país”.

Após ser oficialmente apresentada à presidente da República, a Bandeira Olímpica retorna ainda hoje ao Rio de Janeiro. Amanhã (15), o pavilhão inicia pelo bairro de Realengo e pelo Complexo do Alemão uma série de exposições em diversos pontos da cidade. À tarde, a Bandeira Olímpica será oficialmente apresentada à população pelo prefeito Eduardo Paes, em cerimônia no Palácio da Cidade.

A bandeira, que mede 2,22 metros de largura por 1,54 metro de altura, foi confeccionada com pura seda e é utilizada desde as Olimpíadas de Seul (1988). A relíquia olímpica ficará guardada em uma caixa especial de madeira na Gávea Pequena, residência oficial do prefeito do Rio.