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'Navalha na carne negra' é peça de resistência contra exploração histórica

Em cartaz até domingo (12), obra relê o texto clássico de Plínio Marcos pela perspectiva do teatro preto. “Precisamos lutar pela manutenção da efervescência simbólica", diz o ator Raphael Garcia
por Luciano Velleda, da RBA publicado 10/08/2018 09h23, última modificação 10/08/2018 09h43
Em cartaz até domingo (12), obra relê o texto clássico de Plínio Marcos pela perspectiva do teatro preto. “Precisamos lutar pela manutenção da efervescência simbólica", diz o ator Raphael Garcia
Isabel Praxedes/Divulgação
Navalha na carne negra

Com diretor e atores negros, peça traz à tona as contradições e sentimentos de personagens excluídos da sociedade

São Paulo — Fruto de um encontro de artistas que há tempos se mobilizam para buscar a representação do negro no teatro brasileiro, a peça Navalha na Carne Negra, em cartaz no Teatro da Universidade de São Paulo (TUSP) até o próximo domingo (12), é resultado de um processo histórico de mais de 10 anos de pesquisas.  

A montagem da peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos, clássico do "teatro marginal" completados 50 anos em 2017, reúne três atores negros num "exercício de denúncia e louvor". No espetáculo, a atriz Lucelia Sergio, no papel da prostituta Neusa Sueli, o ator Rodrigo dos Santos, na pele do cafetão Vado, e o ator Raphael Garcia encarnando o camareiro gay Veludo, sob a direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, adaptam para 2018 a obra que tão bem retratou a condição sub-humana de indivíduos que vivem à margem da sociedade. 

"O texto faz parte do imaginário das pessoas, tanto de quem conhece o Plínio Marcos, quanto de quem conhece o teatro negro", reflete o ator Raphael Garcia, ao destacar o caráter histórico da obra. Um texto que gira em torno do roubo cometido, pelo camareiro, do dinheiro deixado pela prostitua ao seu cafetão. A cena é um quarto de hotel de péssima categoria, ambiente degradado que representa o próprio mundo habitado pelas três personagens.

"Da mesma forma que os escravocratas do passado forçavam nossos antepassados a trabalharem à exaustão…para a governança neoliberal contemporânea, todo e qualquer corpo é passível de ser explorado ao máximo, seja como coisa ou objeto, seja como moeda ou mercadoria", define o material de divulgação da peça. "Se interpretamos o texto de Plínio Marcos como uma navalhada na carne negra, é porque as relações de poder e de impotência que o texto revela nos são desde sempre familiares."  

Para desenvolver Veludo, Raphael Garcia explica ter se preocupado com a atualidade da personagem, criado originalmente nos anos de 1960. Para isto, levou em conta o contexto das atuais lutas feministas e da comunidade LGBT, e o próprio questionamento do machismo na sociedade, um momento de efervescência, diz. 

"Veludo é um personagem complexo. Uma pessoa gay, mas que poderia também não ser. Construir o Veludo foi dar atualidade ao personagem. Ele enfrenta o Vado, vira o jogo em alguns momentos e, embora seja gay, ali também são dois homens oprimindo uma mulher", explica o ator, cofundador do Coletivo Negro.  

A peça está em cartaz sem patrocínio. Um fato que, para ele, retrata bem o momento adverso do país. "Temos uma força, como artistas, em continuar lutando para manter espaços que correm o risco de acabar. Vivemos um momento pós-golpe de desmonte da cultura e educação em São Paulo e no país. Fazer arte é uma resistência simbólica e concreta. Precisamos seguir lutando pela permanência de políticas públicas para as artes", afirma. 

Ao lado da atriz Lucelia Sergio, fundadora do coletivo Os Crespos, do ator Rodrigo dos Santos, da Companhia dos Comuns, e do diretor José Fernando Peixoto de Azevedo, fundador do Teatro de Narradores e professor da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, o grupo entrega ao público uma dramática visão da decadência dos tempos atuais.

Serviço

Até domingo, 12/ago

Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h

Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia)

Tusp: Rua Maria Antônia, 294 Consolação – São Paulo, SP 
Tel. (11) 3123-5233