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Joyce Moreno completa 50 anos de carreira e regrava seu primeiro disco

Cantora celebra sua maturidade musical e destaca postura feminista. "É tão normal, não queremos nada demais, apenas paridade, igualdade. Só isso"
por Redação RBA publicado 10/07/2018 18h57, última modificação 10/07/2018 19h22
Cantora celebra sua maturidade musical e destaca postura feminista. "É tão normal, não queremos nada demais, apenas paridade, igualdade. Só isso"
reprodução/rádio brasil atual
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Joyce participou do programa 'Hora do Rango', da Rádio Brasil Atual, e lembrou histórias de canções e parceiros

São Paulo – Para marcar seus 50 anos de carreira, a cantora e compositora Joyce Moreno acaba de gravar uma releitura de seu primeiro álbum, intitulado apenas Joyce (1968). Na sexta-feira (6), a cantora participou do programa Hora do Rango, da Rádio Brasil Atual, apresentado pelo jornalista Oswaldo Colibri Vitta. Em conversa descontraída, recordações de sua trajetória, com 34 álbuns lançados.

“Gosto muito deste meu primeiro disco, mas toda vez que o ouvia, pensava que poderia fazer aquelas músicas com uma outra pegada”, afirma a artista, que revelou orgulho de seu amadurecimento como musicista. “Por exemplo, ele é um disco em que eu não toco violão. Hoje em dia isso seria impossível de acontecer. Naquela época, embora muito bem cercada de ótimos músicos, as ideias não eram só minhas. Tinha muita vontade de rever esse repertório que era maravilhoso, mas queria fazer com a identidade musical que construí com esses anos”, disse.

Muito desse amadurecimento veio a partir das mudanças na forma da produção musical na transição do século 20 ao 21, com o fim da era das grandes gravadoras e a ascensão da música independente, conta Joyce. Para ela, essa mudança veio cedo. Seu primeiro álbum independente foi lançado em 1983. “A internet chegou e mudou tudo. Para fotógrafos, músicos, jornalistas, mudou muito a realidade. E nós, músicos, fomos forçados a ser autoempreendedores. O caminho que temos visto é que todos os ofícios seguem esse caminho. A coisa bacana da carteira assinada, 13º salário, aquilo foi um sonho, minha gente”, disse.

“Acho que temos essa grande mudança e, para nós, do século passado, essa adaptação pode ser difícil. Se você, de início, vai ter que se adaptar mesmo, eu já entendi faz tempo, e que a vida trabalhando em grandes gravadores implicavam em perda de liberdade artística”, pondera. “Agora, falamos de uma situação que o CD físico vai desaparecer também. Essas mudanças temos que entender como inevitáveis. Viver de conteúdo, para você que é produtor, músico, que faz texto, isso vai ficando cada vez mais difícil de se entender como profissão”, completa.

Grupo seleto

Indicada quatro vezes ao Grammy latino, Joyce conviveu com grandes nomes da música brasileira. Com alguns fez parcerias, enquanto outros gravaram suas composições. Artistas como Elis Regina, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Nana Caymmi gravaram suas canções. Questionada sobre como era fazer parte desta “seleção”, nas palavras de Colibri, ela diz que foi algo natural. “Era todo mundo jovem, eu tinha 19 anos e os meninos, 24. Eles estavam começando a estourar por conta dos festivais. Fui tão bem recebida.”

O clima dos festivais, entretanto, chegou a criar algumas inimizades temporárias por conta da competição, como contou em uma passagem curiosa. “Eles, entre si, tinham competição. Os festivais eram competitivos e você ia na turma dos baianos e eles estavam falando mal do Chico (Buarque). Aí você ia no pessoal do samba, falando mal dos tropicalistas, e por aí vai. Eu sempre achei que todos estavam certos em todos os sentidos. Todos eram ótimos, não tinham por que brigar. Muitos pareciam rivais e depois viraram parceiros”, lembra.

“A praia, no Rio de Janeiro, principalmente onde frequentávamos, em Ipanema, no Posto 9, ali foi todas as tribos tinham espaço. Todos separados por festivais, rivalidade, mas quando chegava na praia, você dava de cara com seu inimigo de sunga. Você vai brigar com uma criatura de sunga, indefesa? Aí acabaram todos virando parceiros.”

Ação cidadã

Essa parceria entre todos, conta Joyce, foi fortalecida pela presença de um inimigo comum: a ditadura civil-militar (1964-1985) que assolou o Brasil com torturas, censuras e perseguições. “Havia esse grande inimigo. Tinha a ditadura militar. Alguns foram presos, outros para o exílio, eu fiquei em casa tendo filhos. Tive ação de censura por motivos ridículos, por usar palavras como grávida e parir, coisa ridícula”, conta.

Sua posição como musicista também está ao lado de sua postura feminista. “Feminismo, para mim, não tem mistério nenhum. É tão normal, não queremos nada demais, apenas paridade, igualdade. Só isso. Apenas sermos considerados seres humanos como os homens, que nasceram com esse gênero na loteria genética. Somos iguais, pessoas, espíritos, com gêneros que são muitos. É a ponta do iceberg de ver a humanidade como gênero humano”, diz Joyce Moreno, que tem entre suas músicas mais conhecidas uma chamada justamente Feminina.

“Tudo tem que ser entendido com um momento de transição, assim como a transformação para as vidas das pessoas neste momento. Converso com meus netos e vejo que eles já têm um pensamento completamente diferente. Meninas e meninos estão entendendo que a história é outra”, completa.

Assista à entrevista completa: