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Literatura

Direitos reprodutivos das mulheres são tema de livro infantojuvenil

"A Rainha e os Panos Mágicos", de Janaína Leslão e Deborah Delage discute as cesáreas desnecessárias que não poupam nem as rainhas dos contos de fadas
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 11/02/2018 11h57
"A Rainha e os Panos Mágicos", de Janaína Leslão e Deborah Delage discute as cesáreas desnecessárias que não poupam nem as rainhas dos contos de fadas
Carol Borges/Divulgação
Cesárea

'Meu corpo, minhas regras', este é um dos lemas do conto de fadas 'A Rainha e os Panos Mágicos'

São Paulo – Era uma vez uma rainha chamada Sheila, que, durante sua segunda gestação, decidiu partir pelos mares com sua primogênita, quando um naufrágio mudou a rota das férias e as levou para uma misteriosa ilha onde as mulheres tinham, quase sempre, partos normais. Depois de conhecer a cultura dessas mulheres, a rainha e sua filha descobriram que os corpos femininos quase nunca precisavam de intervenções cirúrgicas na hora hora do parto. Foi isso o que a mestra Agnes, que cuidava dos nascimentos na ilha mágica, mostrou àquela gestante.

Esta é a história de A Rainha e os Panos Mágicos (Editora Metanoia, R$ 36), de Janaína Leslão e Deborah Delage, com ilustrações de Carol Borges, que discute de forma lúdica e leve os direitos reprodutivos das mulheres e, em especial, o contexto que envolve o nascimento. A obra é voltada para o público infantojuvenil, mas também pode ser lida para crianças e apreciada por adultos.

“No Brasil, transformamos o nascimento em sinônimo de cirurgia. A ideia vigente é que se submeter à uma cirurgia de grande porte, a cesariana, é banal, enquanto parir a criança com os próprios recursos fisiológicos, é arriscado. Ou seja, o livro é para adultos, adolescentes e crianças, embora esteja no formato de conto de fadas”, afirma Janaína Leslão, que é psicóloga e autora A Princesa e a Costureira e Joana Princesa, contos de fada que abordam direitos sexuais.

Deborah Delage passou a militar em prol das questões que envolvem os direitos reprodutivos das mulheres depois do parto de sua filha. “Essa tem sido minha área de ativismo desde o nascimento da minha filha, que foi bastante desrespeitoso. Acabou se tornando também, para mim, um campo de estudos. Escrever sobre esse assunto é importante, pois contribuímos para ampliar a visibilidade de formas de opressão e violência que afetam profundamente a vida das mulheres, e que ainda encontram fortes obstáculos à mudança”, declara a autora do livro, que também é doula.

O assunto é extremamente relevante, já que o percentual de cesarianas no Brasil chega a 40% no Sistema Único de Saúde (SUS) e 85% no sistema privado, enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera ideal que taxa de operações cesarianas não ultrapasse 10% e 15%.

“É preciso transformar a cultura vigente sobre direitos reprodutivos. Se, por exemplo, perguntamos a uma criança em idade de alfabetização por onde nascem os bebês, há uma grande chance de responderem 'do corte na barriga da mamãe'. Apesar de voltada para o público pré-adolescente, a história pode ser contada para pré-escolares, e também ser utilizada como um instrumento lúdico para discutir o tema com públicos adultos”, afirma Deborah.

No meu corpo, mando eu.” Este parece ser o lema de A Rainha e os Panos Mágicos, que apresenta aos leitores mulheres fortes e que têm poder de decisão sobre as próprias vidas. Este é o recado que Janaína Leslão procura passar em suas obras.

“Iniciei meu trabalho de escritora motivada pelos pré-adolescentes e adolescentes que eu acompanhava como psicóloga e a dificuldade de encontrar histórias leves que pudessem servir de disparadoras para conversas sobre sexualidade. A princípio, um livro sobre amor entre mulheres; depois, uma adolescente trans; agora, o direito a um parto respeitoso, sem intervenções desnecessárias. Esse, de certa forma, foi meu caminho na militância dos direitos humanos, porque discutir os direitos sexuais me levou ao debate sobre direitos reprodutivos, já que estão intimamente ligados. Então, a proposta de A Rainha e os Panos Mágicos é ampliar o material em que venho discutindo 'meu corpo, minhas regras' através de conto de fadas”, declara Janaína Leslão.

O livro, que pode ser comprado no site da editora, também menciona de forma breve o aborto, os direitos de casais homossexuais terem filhos, a violência obstétrica que vai além da cesária e a licença maternidade de um ano.

CapaA Rainha e os Panos Mágicos
Autora
s: Janaína Leslão e Deborah Delage
Ilustrações: Carol Borges
Prefácio: Rita Lisauskas
Editora: Metanoia
Páginas: 52
ISBN: 9788594750372
Ano: 2017