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Cinema nacional

Filme 'Vermelho Russo' mistura documentário, ficção e metalinguagem

Lançado nesta semana, o longa-metragem é inspirado no diário da atriz Martha Nowill, que, em crise com a profissão, vai à Rússia para estudar teatro acompanhada de uma grande amiga
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 29/04/2017 12h41
Lançado nesta semana, o longa-metragem é inspirado no diário da atriz Martha Nowill, que, em crise com a profissão, vai à Rússia para estudar teatro acompanhada de uma grande amiga
Bruno Alfano/Divulgação
Amizade

Em 'Vermelho Russo', nevascas, brigas, paixões e muitos litros de vodka embalam a viagem de Marta e Manu

Como transformar a (própria) vida em arte? Este foi um dos grandes desafios da atriz Martha Nowill que, depois de uma viagem à Rússia com sua grande amiga Maria Manoella, escreveu um diário, transformou a história em um roteiro que chegou às telas de cinema nesta quinta-feira (27). Dirigido por Charly Braun (de Além da Estrada), Vermelho Russo refaz os passos dessas duas jovens atrizes em crise com a profissão que decidem encarar o inverno russo para se aprofundar na técnica Stanislavski de interpretação. Imersas em uma cultura completamente diferente, elas se deparam com nevascas, brigas, paixões e muitos litros de vodka em uma dramática e engraçada experiência.

Martha, que divide o roteiro com o diretor Charly Braun, teve de se distanciar da própria história para recontar e adaptar o que viveu ao lado da amiga durante o tempo em que passaram juntas no maior país do mundo. “Tive que desapegar de muita coisa para o filme. Me distanciar para poder ouvir o Charly e todos os outros envolvidos. Não era mais a minha vida, era um filme. Sempre chamei minha personagem de Marta sem H, para saber que era uma outra Marta que estava ali. O essencial não mudou. Duas amigas que quase se perdem uma da outra. Duas atrizes e a dificuldade de se encontrar na profissão. Mudou o entorno, o lugar, a época, alguns personagens. Mas as duas experiências foram únicas e inéditas”, afirma a atriz e roteirista.

Apesar de no início haver uma certa caricatura da rivalidade entre mulheres, a evolução do roteiro apresenta aos poucos as mudanças que esta intensa experiência traz às duas amigas que, no fundo, estão em busca de si mesmas. “Acho que essa experiência da metalinguagem é muito radical. Mesmo que estejamos brincando de ser nós mesmas, mesmo que estejamos fazendo ficção, somos nós contando uma parte ou uma versão da nossa própria história. A Maria do filme sou eu em algum tempo/espaço, num recorte preciso. A Maria do filme e a Maria Manoella atravessaram o mesmo percurso, venceram, e ambas se modificaram. Uma alimentou a outra. Sinto que as duas amadureceram radicalmente depois de Vermelho Russo", declara Maria Manoella.

Bruno Alfano/Divulgação Crise
Ao costurar as linguagens de cinema e teatro, 'Vermelho Russo' extrapola os limites entre ficção e documentário

Mix de linguagens

A ideia do filme nasceu quando Charly Braun leu o relato de Martha na revista Piauí, em março de 2009. De cara, ele pensou que gostaria de ter ido para registrar aquela experiência. “Fiquei imediatamente cativado pelo relato e meu primeiro pensamento foi 'que pena que eu não fui com uma câmera e filmei isso tudo'. Depois de um tempo tive um estalo, e pensei que aquele diário era um ótimo argumento para um novo filme", lembra o diretor, roteirista e produtor.

A metalinguagem perpassa todo o filme e é por isso que Esteban Feune de Colombi representa o próprio Charly Braun. “Este personagem que as filma vêm do meu primeiro desejo quando li o diário, que era o de ter sido um colega cineasta que documenta o processo. Durante a escrita do roteiro, pensei em me inserir como este personagem, mas senti que ficava estranho no papel e abandonei a ideia. Pensei novamente quando fomos filmar, mas as demandas que eu tinha como diretor e produtor no set (além de camera man eventual) me fizeram abandoná-la novamente, até que me dei conta que Esteban Feune de Colombi, que além de ator é fotógrafo e escritor, poderia desempenhar bem a função. Foi dele, por exemplo, a ideia de entrevistar os colegas. Ele se apropriou inteiramente da ideia e coube a ele criar vários aspectos de sua execução. E o curioso é que, quando ele entrega para a porteira uma cópia de Além da Estrada dizendo que é seu filme, é mesmo, pois ele foi o protagonista de Além da Estrada”, afirma Braun.

Achei fundamental tratar a metalinguagem com bastante humor, para que não ficasse uma coisa acadêmica e sisuda. Fomos incorporando estes elementos conforme eles apareciam, pois todos eles estavam ligados conceitualmente ao que o filme pretendia ser desde o início”, completa.

Tudo isso faz com que Vermelho Russo seja um longa-metragem que extrapola os limites da ficção e do documentário. E, por mais que possa parecer banal um filme sobre a experiência pessoal de duas atrizes em crise com a profissão, a obra surpreende pela profundidade com que trata a relação das duas amigas (em ótimas atuações), pela simplicidade estética e narrativa e, acima de tudo, pela forma como costura as linguagens do cinema e do teatro em uma clara referência à máxima “a arte imita a vida ou a vida imita a arte”. É, enfim, uma obra leve (sem ser superficial) que merece ser vista na tela grande.

CartazVermelho Russo
Direção: Charly Braun
Roteiro: Charly Braun e Martha Nowill
Produção: Charly Braun e Eliane Ferreira
Direção de fotografia: Alexandre Samori
Montagem: Caroline Leone e Charly Braun
Produção executiva: Eliane Ferreira
Elenco: Esteban Feune de Colombi, Martha Nowill, Maria Manoella, Michel Melamed, Soraia Chaves, Vladimir Poglazov
Empresas produtoras: Muiraquitã Filmes e Waking Up Films
Empresas coprodutoras: Empyeran Pictures, Vita Aktiva Films (Rússia)
Distribuidora: Vitrine Filmes (Brasil)
Vendas internacionais: FiGA Films