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Cinema

'Eu Sou Ingrid Bergman': documentário conta a corajosa vida da atriz sueca

Por um viés feminista, longa-metragem resgata a vida pessoal de uma das mais premiadas estrelas da história do cinema: a família, as paixões, as aventuras e a coragem de uma mulher além de seu tempo
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 25/12/2015 10h40, última modificação 29/12/2015 23h18
Por um viés feminista, longa-metragem resgata a vida pessoal de uma das mais premiadas estrelas da história do cinema: a família, as paixões, as aventuras e a coragem de uma mulher além de seu tempo
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"Naquela época era um absurdo deixar marido e filho e se apaixonar por outro homem"

Ingrid Bergman atuou em O Médico e o Monstro, Casablanca, Por Quem os Sinos Dobram, À Meia Luz, Anastácia - A Princesa Esquecida, Assassinato no Expresso Oriente e tantos outros clássicos do cinema. Muito mais que uma beleza estonteante, o talento da atriz sueca morta em 1982 fez com ela tivesse uma carreira brilhante.

Exatamente no ano em que se celebra seu centenário de nascimento, chegou aos cinemas brasileiros ontem (24) o documentário Eu Sou Ingrid Bergman, dirigido pelo também sueco Stig Bjorkman. Mas o longa-metragem não se detém à vida profissional de Ingrid: é um filme que resgata as lembranças pessoais de uma mulher corajosa que, em nome de sua autonomia e liberdade, enfrentou uma sociedade machista.

Durante toda a sua vida, Ingrid guardou todo tipo de lembranças em diários, fotografias, filmes caseiros feitos por ela e por membros da sua família. E é este rico (e inédito) material de acervo que conduz todo o filme, além de entrevistas com os filhos e amigos. Durante quase duas horas, mergulhamos na intimidade de um mito desde a mais tenra idade, quando ela era incansavelmente fotografada pelo pai.

Suas memórias são narradas pela atriz sueca Alicia Vikander, que lê trechos de diários e de muitas cartas que Ingrid trocou com amigas. As mais íntimas são destinadas a Mollie, com quem ela divide uma lembrança do início de sua carreira. Ela conta que, durante um jantar, um homem afirmou: “'Você nunca será atriz. É alta demais'. E eu disse a mim mesma: ele não sabe nada sobre mim.”

As reflexões que faz sobre seu sucesso vêm acompanhadas de humildade, mas também da certeza de que ela tinha nascido para os palcos e as câmeras, sem os quais não poderia nem respirar. Em uma das cartas, Ingrid lembra que enquanto a vida de atriz era difícil para todas as suas amigas, ela era disputada pelos estúdios. “Fico com medo só de pensar nisso. Espero não desapontá-las. (…) Espero não ter me tornado arrogante”. Esta preocupação parece ter sido constante em sua vida.

Em uma carta que recebeu de Robert Capa, ele a preveniu: “Escreva para mim que continuará gentil e linda de partir o coração (...) Não assine centenas de contratos que a tornem menos pessoa e mais instituição. Seja cautelosa, o sucesso é mais perigoso e corrompe mais que a adversidade”, escreveu o fotógrafo com quem Ingrid teve um affair.

Coragem de viver

Mas não foi o medo que conduziu a trajetória de Ingrid Bergman. Ao contrário. Ela “ousou” levar a vida cheia de aventuras e com poucas amarras. Exatamente por isso, foi julgada, boicotada pelos estúdios de cinema e massacrada pela mídia por ter traído Petter, seu primeiro marido, e por tê-lo deixado, e à filha, para se dedicar a um novo amor e à carreira. “Naquela época era um absurdo deixar um marido e um filho e se apaixonar por outro homem, mostrando abertamente ao mundo que você se apaixonou, sem negar que um bebê viria. Eu era um perigo para a mulher americana. Diziam que até a minha voz era perigosa”, lembra.

Depois de anos sendo hostilizada pela mídia por ter “abandonado” os filhos dos dois casamentos (o segundo, com o cineasta italiano Roberto Rossellini), ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz por Anastácia. “Fui de santa para vadia para santa de novo em uma só vida”, disse.

Quando Ingrid volta aos Estados Unidos, um jornalista pergunta se ela tinha algum arrependimento. A resposta veio sorridente mas direta: “Não, não tenho arrependimentos. Só me arrependo do que não fiz, não do que fiz. Fiz o que tive vontade. Eu aprendi a ter coragem e espírito de aventura, foi isso que me impulsionou, além de senso de humor e um pouco de bom senso. Tem sido uma vida plena”, declarou.

É este o tom de Eu Sou Ingrid Bergman, que apresenta uma história fascinante sem julgamentos e exalta a emancipação de uma mulher incrível que não aceitou ser esposa e mãe de acordo com o modelo estabelecido na época. O viés feminista é o grande trunfo do filme de Stig Bjorkman, o que faz com que o longa seja tocante tanto para os fãs da atriz sueca como para as pessoas que (ainda nos dias de hoje) lutam para que a mulher tenha total poder sobre seu corpo e sua vida.

EU SOU INGRID BERGMAN_trailer from Zeta Filmes on Vimeo.

Rede Brasil Atual: as notícias do ponto de vista da classe trabalhadora. Mídia independente pela construção de uma sociedade mais humana, mais justa e menos desigual. Eu Sou Ingrid Bergman
Direção: Stig Bjorkman
Fotografia: Malin Korkeasalo e Eva Dahlgren
Montagem: Dominika Daubenbuchel
Elenco: Ingrid Bergman, Isabella Rossellini, Ingrid Rossellini, Roberto Rossellini, Liv Ullmann, Pia Lindstrom, Sigourney Weaver
Título original: Jag är Ingrid
País: Suécia
Ano: 2015
Duração: 114 minutos