Você está aqui: Página Inicial / Cultura / 2014 / 05 / Leonardo Padura: 'Tenho muitos medos artísticos, não políticos'

livros

Leonardo Padura: 'Tenho muitos medos artísticos, não políticos'

O escritor cubano fala de 'O homem que amava os cachorros'. Reconhecido, defende que o mundo precisa de mais justiça e garante que a carreira de um escritor está sempre num momento crítico
por Tadeu Breda, da RBA publicado 04/05/2014 11h12
O escritor cubano fala de 'O homem que amava os cachorros'. Reconhecido, defende que o mundo precisa de mais justiça e garante que a carreira de um escritor está sempre num momento crítico
Gerardo Lazzari/RBA
leonardo padura gerardo lazzari rba 2.jpg

'Um escritor nunca está em seu melhor momento: está sempre num momento crítico', diz cubano

São Paulo – Leonardo Padura teve a ideia de escrever O homem que amava os cachorros (Boitempo, 2013) em 1989, quando viajou para a Cidade do México e visitou a casa onde foi assassinado León Trotski, principal personagem de seu livro. “Fiquei muito impressionado”, diz. “Parecia uma cela. E estava no fim do mundo. A mão de Stalin chegou até lá para assassiná-lo.”

Desde então, o escritor cubano aproveitou viagens a trabalho, como a que o levou ao México, para fazer pesquisas e reunir referências sobre a saga do revolucionário russo em fuga. Assim, conseguiu construir seu penúltimo romance, o mais recente publicado no Brasil, e que o levou a receber a maior honraria atribuída aos escritores cubanos: o Prêmio Nacional de Literatura.

Leia também:

Em sua passagem por São Paulo, Padura conversou longamente com a RBA em 15 de abril sobre utopia, politização da literatura e sua carreira – que, ressalta, não está nem jamais estará no auge. “Um escritor nunca está em seu melhor momento: está sempre num momento crítico. Seu problema continuará sendo o mesmo: escrever e escrever bem.”

Em O homem que amava os cachorros, você critica a desaparição do indivíduo sob o Estado cubano. Por que sentiu a necessidade de fazê-lo?

Senti tanto a necessidade de fazê-lo que depois escrevi um romance em que me dedico a falar justamente do indivíduo e da liberdade individual. O homem que amava os cachorros acabou tomando uma dimensão muito política, porque, claro, León Trotski era um sujeito essencialmente político. Por isso, depois de escrever esse livro, fiquei com vontade de falar mais da relação entre indivíduo e massa. Daí nasceu o romance Herejes, que saiu na Espanha ano passado.

Você sentiu algum tipo de medo ao escrever O homem que amava os cachorros?

Sempre tenho algum medo. Medo de que o livro não esteja bem escrito, medo de que não funcione literariamente, medo de que não convença os leitores. Tenho muitos medos artísticos, muitos. No terreno político, o único medo que senti era de que o livro não fosse publicado em Cuba. Seria lamentável, mas me afetaria diretamente. Afetaria minha relação com os leitores cubanos, que é algo muito importante para mim.

Você viajou por todos os países que aparecem em O Homem que amava os cachorros?

Não por todos, mas por todos que pude.

E como fez isso?

Com recursos próprios. Aproveitava convites para palestras ou lançamentos. Em Moscou, por exemplo, me convidaram para uma conferência. Então aproveitei.

Como lhe veio a ideia de escrever esse romance?

A gente nunca sabe como chegam as ideias para um romance. Isso é muito misterioso. Mas, nesse caso, houve coisas que me motivaram. Uma delas foi o desconhecimento: em Cuba, não se sabia nada sobre a vida de Trotski. Depois, fui me interessando pelo personagem. Fiz uma viagem ao México em 1989 e visitei a casa em que Trotski morou. O lugar me impressionou muito.

Você fez essa viagem já como escritor?

Não, como jornalista. Fui ao México para um encontro de escritores, mas fui como jornalista. Bom, depois soube que Ramón Mercader havia vivido em Cuba – e isso também me interessou. Depois, comecei a ler tudo o que se havia publicado com a revelação dos arquivos de Moscou, com o stalinismo e com as informações sobre a União Soviética que até então eram desconhecidas. Assim foi se formando a ideia.

Quer dizer então que tudo começou em 1989?

Sim, pode-se dizer que sim. A casa de Trotski me impressionou muito.

O que te impressionou especificamente?

A casa se parecia a uma cela. Estava localizada no fim do mundo – e ainda assim até lá chegou a mão de Stalin para matá-lo.

É uma história terrível, não?

É uma história trágica. E uma demonstração do que foi o século 20.

E a maneira como você conta essa história... É muito difícil saber até onde vão os fatos históricos e onde começa a ficção.

Essa é a vantagem do romancista. O historiador está lascado.

Mas você respeitou a história, não?

Sim, a realidade histórica está respeitada.

O que é ficção? Os pensamentos de Trotski? Ou você também recorreu a diários e anotações pessoais para saber o que ele estava pensando?

Tentei aproximar-me o máximo possível do personagem, com documentos e outras fontes primárias de informação. Mas, no caso de Mercader, tive de preencher os vazios com imaginação. E havia muitas lacunas.

Há alguma pista da passagem de Mercader por Cuba?

Não, é um sujeito totalmente anônimo. Algumas pessoas o viram, o conheceram, e muitos o viram e conheceram sem fazer a menor ideia de que era Mercader.

Iván é um personagem autobiográfico?

Mais que autobiográfico, é geracional. É um personagem da minha geração: dos problemas, ilusões e frustrações da minha geração, a que chamo “geração escondida”.

Por que “escondida”?

Porque é uma geração que nunca teve rosto, nunca teve poder, e teve que ser obediente.

O homem que amava os cachorros é um golpe bastante forte para as pessoas formadas dentro de uma esquerda tradicional, não? Você acredita que o socialismo já se esgotou, que não é mais possível?

Não é mais possível como foi no século 20. Mas a utopia é sempre possível. O homem sempre sentirá a necessidade de querer melhorar o mundo em que vive, e de querer melhorar a si mesmo como indivíduo. Portanto, a utopia é pertinente. Mas a forma que se tentou praticá-la no século 20 não seria mais possível no século 21. Conduziria ao mesmo fracasso.

Que é o fracasso da individualidade de que tratam seus últimos livros?

É o fracasso do sonho coletivo. E, se fracassa o sonho coletivo, também fracassa o sonho do indivíduo.

Olhando para a recente onda de manifestações em vários países, o escritor uruguaio Eduardo Galeano disse que “nosso mundo está grávido de outro mundo”. Você concorda?

Não conheço esse texto do Galeano, mas acredito que, sim, o mundo está necessitado de mudanças. Estou completamente convencido disso.

Em que sentido?

No sentido de mais justiça e mais igualdade, porque ainda não existe igualdade em nenhum lugar do mundo.

Ou seja, é a mesma necessidade que sentiram os utopistas do século 20...

Acredito que sim. E os do século 18 e 19 também.

Literatura é política?

Não. Pelo contrário. Literatura e política formam um casal ruim. Quando colocamos as duas juntas, a literatura sai perdendo. A política devora tudo.

Ainda assim, escritores latino-americanos reconhecidos pelo Nobel de Literatura, como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, sempre tiveram uma atuação política muito forte. Aliás, também começaram como jornalistas. Você acha que os escritores da região estao um pouco presos a esse destino?

A política está muito próxima da vida na América Latina. Por uma ou outra razão, a política simplesmente entra na vida dos cidadãos. Às vezes de maneira violenta, como numa revolução ou uma ditadura, às vezes de maneira menos perceptível, mas está sempre por perto. É um fenômeno latino-americano. Talvez nos Estados Unidos haja escritores que vivam muito distantes da política. Na América Latina, isso é praticamente impossível.

Alguém já tentou utilizar sua literatura para fins políticos?

Algumas pessoas com participação política no governo e na dissidência já se aproximaram de mim, mas sempre lhes disse que não, que sou um escritor independente e que me custou muito trabalho ser independente.

Como você evita que utilizem politicamente sua literatura?

Não fazendo o jogo dos políticos. Além disso, não participo de nada que tenha a ver com política. Nada. Mas, principalmente, não coloco minha literatura em função da política. Nem a favor, nem contra. Escrevo aquilo que quero escrever. Não ataco nem defendo Miami ou Havana. E nenhum deles me defende. Pelo contrário, tanto o governo como a dissidência me ataca.

Como você avalia sua carreira neste momento? Chegou ao auge?

A carreira de escritor não termina nunca. Se um escritor obtém com um determinado livro uma presença editorial, um sucesso de crítica e público, deve se sentir muito satisfeito. Mas não deve se enganar, porque depois terá que escrever outro livro. E, neste novo livro, enfrentará os mesmos desafios que enfrentou no livro anterior: primeiro, escrevê-lo; depois, escrevê-lo bem. Por isso, a carreira de escritor nunca está em seu melhor momento: está sempre num momento crítico. Talvez a experiência ajude, te dê mais profissionalismo e mais consciência de suas limitaçoes. Mas, indiscutivelmente, o problema do escritor continuará sendo o mesmo: escrever e escrever bem.

Um escritor precisa de tempo para criar?

Sim, claro. Literatura necessita tempo. O escritor de fim de semana é um fracasso.