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Mostra de Cinema de São Paulo

Documentário expõe relações entre biógrafos e biografados

Em um dos filmes, sobre João Havelange, a história revela distanciamento e tensão; em outro, sobre Plínio Marcos, a intimidade de quem conviveu de perto como dramaturgo
por Carlos Minuano, especial para a RBA publicado 21/10/2013 13h28, última modificação 21/10/2013 13h55
Em um dos filmes, sobre João Havelange, a história revela distanciamento e tensão; em outro, sobre Plínio Marcos, a intimidade de quem conviveu de perto como dramaturgo
joão havelange

Havelange no início colaborou com a própria biografia, mas não gostou do resultado e tentou barrar o livro

São Paulo – A tensa relação entre biógrafos e biografados é o tema central de Conversa com JH, do jornalista Ernesto Rodrigues. O filme é inspirado no processo de produção do livro “Jogo Duro – A história de João Havelange”, biografia lançada em 2007 e escrita a partir de mais de 140 entrevistas no Brasil e em vários países do mundo do futebol.

A publicação do livro aconteceu sem a autorização do cartola, que tentou vetá-lo depois de ler o texto final apresentado a ele pelo autor. Mais tarde, em carta timbrada da Fifa, Havelange desautorizou o livro. Segundo o cartola, por conter 'relatos que não se adequavam ao objetivo inicial de resgatar sua trajetória como esportista, dirigente e cidadão brasileiro'.

Temendo a reação de Havelange, a editora Objetiva declinou do projeto, que em 2007 foi publicado pela editora Record, sem anuência do ex-presidente da Fifa. O caso remete à recente polêmica sobre biografias que colocou em margens opostas editores e artistas.

De um lado, a Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel), que move desde 2012 no Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade com o objetivo de derrubar a obrigatoriedade do consentimento dos biografados e artistas.

A necessidade de autorização é amparada pelo artigo 20 do Código Civil, que abre brecha em caso de prejuízo à honra ou por destinação comercial da obra.

Na outra ponta, a favor da anuência previa, o grupo Procure Saber, do qual fazem parte Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Milton Nascimento, Erasmo Carlos e Djavan. À frente, como porta-voz, a empresária e ex-mulher de Caetano Paula Lavigne.

Baseado numa série de doze encontros de leitura conjunta, registrados em um gravador de voz digital, Conversa com JH destaca a oposição de expectativas que podem surgir no caminho de uma biografia.

A sequência de imagens do cartola em um hotel de luxo, seguindo para mais um encontro da Fifa, no ano de 2005, em Marrakesh, serve de pano de fundo para uma constatação resignada e desalentadora do diretor, Ernesto Rodrigues, logo no início do filme.

“Após mais de 25 horas de entrevistas, Havelange tinha certeza que sua história seria contada, exatamente do jeito que queria”. De sua parte, o diretor admite ter pensado de forma semelhante. “Estava certo de que o material que tinha, permitiria escrever uma biografia completa e reveladora, exatamente do jeito que eu queria”.

Mas constata, finalmente: “Estávamos ambos equivocados”.

Plínio Marcos

Com pegada mais experimental, “Nas Quebradas do Mundaréu”, de Júlio Calasso, faz um mergulho na vida e obra do dramaturgo Plínio Marcos, um dos autores mais proibidos do país.

Em relação à perseguição sofrida nos anos de chumbo, Plínio Marcos ironizava: “Fiz por merecer”, dizia o insubordinado autor de clássicos do teatro, como Navalha na Carne e Dois Perdidos numa Noite Suja.

“O documentário foi concebido e realizado inteiramente em casa, trancado num quarto escuro durante mais de três anos”, diz Calasso, que foi amigo de Plínio Marcos. “Chegamos mais ou menos na mesma época no Teatro de Arena, ele de Santos, eu do Oficina. De cara, brigamos”, conta.

“Nenhum nunca foi flor que se cheire, mas ficamos amigos e parceiros. Fui ator de seu primeiro texto montado em São Paulo, Reportagem de um Tempo Mau, Arena, fins de 1964”, acrescenta Calasso, que também traz em seu currículo participação na produção do antológico O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.

O diretor conta que começou a costurar a história em 1999, capturando em mini DV montagens de um grupo teatral no Rio de Janeiro, em homenagem ao Plínio recém-falecido.

“Misturei parceiros de vida e obra, acrescentei condimentos de nossa música, nossos filmes, nossas imagens, nossa atitude, gestos e articulações que são mais importantes, para o documentário, que as conhecidas denúncias ao regime militar”.

O resultado é um filme pessoal marcado por choques e interrogações.

O documentário traz um time invejável de sumidades que transitaram na órbita do dramaturgo maldito, entre eles Geraldo Filme, Cacilda Becker, Paulo Vanzolini e Itamar Assumpção.

Segundo define Calasso, são ‘102 minutos de paixão pela arte pela vida’.

Confira nos links abaixo os dias, horários e salas dos dois documentários.

Conversa do JH

Nas Quebradas do Mundaréu