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Romance

'Tenho o interesse de sempre pelo erotismo', diz Isabel Allende

Livro da escritora chilena compila melhores “cenas” de amor de seus contos e romances e brinca com a descoberta da sexualidade, da sensualidade e a infidelidade
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 01/06/2013 15h14, última modificação 01/06/2013 15h15
Livro da escritora chilena compila melhores “cenas” de amor de seus contos e romances e brinca com a descoberta da sexualidade, da sensualidade e a infidelidade
Lori Barra (2011)
Isabel Allende

Passagens engraçadas, constrangedoras, picantes levam a imaginação do leitor a suas experiências amorosas

A ideia de compilar as cenas de amor dos livros de Isabel Allende veio de seus editores alemães, Jürgen Dormagen e Corinna Santacruz. “Minha primeira reação ao saber disso, foi de pânico, porque, fora do contexto, essas cenas poderiam parecer piegas, e todas juntas poderiam resultar similares, mas eles me tranquilizaram”, diz Isabel, nos agradecimentos.

Longe de ser piegas e semelhantes, os textos do livro Amor são um deleite não só para os leitores já assíduos da escritora e jornalista chilena. Afinal, quem já conhece seu estilo, sabe que, não importa o tema, Isabel conduz facilmente o leitor em suas viagens literárias, muitas vezes inspiradas em suas próprias histórias ou nas de pessoas próximas.

O que mais chama a atenção em Amor são a introdução do livro e as aberturas de cada capítulo. A apresentação dedica 24 páginas a uma espécie de desabafo capaz de emocionar e fazer rir: a descoberta da sexualidade, ainda no jardim de infância, aos cinco anos de idade, quando engoliu uma bonequinha e achou que estava grávida; a tensa confissão para a primeira comunhão; a decepção quando viu pela primeira vez um homem nu; o desconforto da primeira dança de corpo colado; o inesquecível sex appeal dos marines americanos que conheceu no Líbano durante a adolescência; o tabu da infidelidade, tema da sua primeira (e polêmica) reportagem...

Passagens engraçadas, constrangedoras e picantes levam o leitor a viver, na imaginação, suas experiências amorosas – reais ou não. “Nesse momento da nossa vida, Willie e eu estamos num desses umbrais, o da maturidade, quando quase tudo se deteriora: o corpo, a capacidade mental, a energia e a sexualidade. Que diabos nos aconteceu? (...) Certa manhã nos vimos despidos no espelho grande do banheiro e ambos nos sobressaltamos. Quem eram aqueles velhinhos intrusos no nosso banheiro?”, questiona-se.

Como resposta a uma cultura (cruel) que supervaloriza a juventude e a beleza, ela assume que é preciso muito amor – além de alguns truques de ilusionista – para manter aceso o desejo pela pessoa que antes costumava nos causar frisson. “Em minha idade respeitável, na qual me dão desconto no cinema e no ônibus, tenho o mesmo interesse de sempre pelo erotismo”, diz, empenhada em manter acesa a paixão pelo marido, “embora já não seja o fogo de uma tocha, mas a chama discreta de um fósforo”.

Apesar não inéditos, os textos ganham outro sabor reunidos como antologia, dividida por temas – O despertar, Primeiro amor, A paixão, O ciúme, Amores contrariados, Humor e Eros, Magia do amor, Amor durável e Na maturidade. No início de cada capítulo, a romancista explica o motivo das escolhas.

No primeiro, por exemplo, conta como despertou para o mistério da sexualidade: aos 8 anos, um pescador a levou a um bosque, onde a acariciou e a fez tocá-lo. A experiência, terrível, não foi tema de sessões psicanálise, mas de sua literatura. É assim que ela prefere exorcizar seus demônios: “Quase sempre o relato é veemente ou violento, como foi minha experiência ou como costumam ser as paixões infantis”.

Seus temas nem sempre são leves, mas os textos deste romance mostram a maestria com que Isabel Allende retrata esse sentimento que nem sempre (ou quase nunca) é fácil de expressar.

Isabel Allende é sobrinha do presidente Salvador Allende, morto durante o golpe de estado liderado por Augusto Pinochet, em 1973. Começou sua carreira de jornalista aos 17 anos. Também são de sua autoria A Casa dos Espíritos, Inês de Minha Alma, A Soma dos Dias, O Caderno de Maya entre outros. Em seus livros, costuma usar como pano de fundo cenários da América Latina, sempre com a presença de mulheres fortes e lutadoras.

Livro Amor






Ficha técnica
Amor, de Isabel Allende
Editora Bertrand Brasil, 240 páginas, R$ 29