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No Cinesesc

Transexualidade é tema de documentário filmado no sertão nordestino

Filme mostra um Brasil diverso por meio de um homem que sonha em aperfeiçoar sua masculinidade com um ‘detalhe’ que a natureza não lhe deu
por Xandra Stefanel, especial para a RBA publicado 25/05/2013 13h03, última modificação 25/05/2013 15h12
Filme mostra um Brasil diverso por meio de um homem que sonha em aperfeiçoar sua masculinidade com um ‘detalhe’ que a natureza não lhe deu
Divulgação
Olhe pra Mim de Novo

Filme mistura enredo pessoal e passeia por Ceará, Pernambuco, Rio Grande do NOrte e Paraíba

“Eu costumo dizer que eu sou um homem completo. Eu sou o homem que realiza qualquer mulher. Eu sei o que é uma TPM foda, mas eu sei o que é o tesão, a tara masculina da penetração, da pegada de um homem com uma mulher. Então eu sou completo. Só me falta o glamour”, diz Syllvio Lúccio, transexual masculino, personagem principal de Olhe pra Mim de Novo, que estreou nesta sexta-feira (24), em São Paulo.

“O filho da p. nasce com corpo de mulher, mentalidade de homem, família evangélica. Sai de casa aos 16 anos de idade... Quer dizer, eu sempre fui na contramão”, define-se Syllvio no longa-metragem dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Se hoje em dia transexuais ainda sofrem preconceito em grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, o que dizer do que enfrenta, em pleno sertão nordestino, alguém que nasceu com o sexo feminino e que agora aguarda a possibilidade de uma operação para se transformar em homem?

A proposta de Olhe pra Mim de Novo é acompanhar Syllvio numa viagem pelo sertão e (re)conhecê-lo fora de sua zona de conforto, a pequenina Pacatuba (CE). O que encontramos pelo caminho são personagens e relações sociais pouco filmadas nesta região do Brasil, onde o preconceito grita ainda mais alto. O road movie passa por Juazeiro do Norte (CE), Currais Novos (RN), Caruaru (PE) e Campina Grande (PB), onde Syllvio depara com pessoas que expõem diversos dilemas familiares: de questões ligadas à maternidade e DNA, passando, é claro, pelos estigmas da transexualidade.

O sonho do personagem e de sua mulher é ter filhos. Para isso, pensam em unir seus óvulos e recorrer a um banco de esperma. Assim, a criança teria características genéticas do pai e da mãe. Na verdade, segundo os diretores, a ideia inicial do filme era “abordar as novas transformações tecnológicas sobre o corpo e como as famílias se modificaram a partir de questões de gênero ou genéticas”.

Um filme tocante que mostra um Brasil diverso por meio de um homem que sonha em aperfeiçoar sua masculinidade com um “detalhe” que a natureza não lhe deu. Ele quer usar seus óvulos para tornar-se pai e sonha com o dia em que possa, mesmo nu, sentir-se um verdadeiro cabra macho do Nordeste.

O filme entra em cartaz no dia 29 em Belo Horizonte e deve estrear também no Rio de Janeiro, em Fortaleza e Recife, por enquanto sem previsão de data. Em São Paulo, Olhe pra Mim de Novo entra em cartaz apenas no Cinesesc, com um brinde: antes do longa, será exibido o curta-metragem Vestido de Laerte, no qual o cartunista (que assumiu, em 2009, sua transgeneridade) anda pelas ruas de São Paulo em busca de uma autorização para usar os banheiros públicos. A ficção também é dirigida por Claudia Priscilla, com co-direção de Pedro Marques.

Os diretores

Olhe para Mim de Novo é a primeira direção conjunta de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Mas ambos se conhecem de longa data: são casados há 14 anos e colaboraram entre si em diversos outros filmes. Claudia dirigiu o longa-metragem Leite e Ferro, sobre a maternidade na prisão, e os curtas-metragens Parachacal, Sexo e Claustro e Phedra, além de ser roteirista de 33, dirigido por seu marido Kiko. Ele também assina a direção de Atos dos Homens, FilmeFobia, além de outros médios e curtas.

Serviço
Olhe pra Mim de Novo
Direção: Claudia Priscilla e Kiko Goifman
Gênero: Documentário
Onde: Cinesesc, 14h30 e 19h10 (terça a domingo); e 19h10 (segundas-feiras)
Rua Augusta, 2075, Cerqueira César, São Paulo, tel. (11) 3087-0500