Você está aqui: Página Inicial / Cultura / 2013 / 04 / Paulo Vanzolini, autor de 'Ronda' e 'Volta por Cima', morre aos 89 anos em S. Paulo

Paulo Vanzolini, autor de 'Ronda' e 'Volta por Cima', morre aos 89 anos em S. Paulo

Para o compositor e biólogo, samba de São Paulo é o sotaque do Adoniran
por Redação da RBA publicado 29/04/2013 11h31, última modificação 29/04/2013 11h58
Para o compositor e biólogo, samba de São Paulo é o sotaque do Adoniran

Zuenir: o dr. era zoólogo de dia e Paulinho, sambista à noite (Foto: CC/Sesc)

São Paulo – Morreu ontem (28) à noite o compositor Paulo Vanzolini, autor de clássicos como Ronda, entre tantas outras canções de sucesso gravadas por grandes nomes da música brasileira. Ele tinha 89 anos e estava internado na UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo, desde a última quinta-feira (25), devido a uma pneumonia.

Paulo Emílio Vanolini era biólogo especializado em répteis e trabalhou durante 50 anos no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Dizia fazer música por hobby. Também são de sua autoria as músicas Volta por Cima, notabilizada na interpretação do cantor Noite Ilustrada, Praça ClóvisCapoeira do Arnaldo, Boca da Noite (em parceria com Toquinho) e Samba Erudito, entre outros.

A história de Boca da Noite ("Cheguei na boca da noite/ Parti de madrugada/ Eu não disse que ficava/ Nem você perguntou nada...") é narrada no site de Toquinho:

Em São Paulo, quem não conhecia o Jogral do Carlos Paraná em 1968? Quem não frequentava aquele bar do comecinho da rua Augusta para curtir a roda de boêmios desfilando talentos musicais? Um deles, que habitualmente bebia sua pinguinha por lá, era Paulo Vanzolini, mordendo seu cachimbo e espalhando todo seu verbalismo de poeta e repentista.
Eu já tinha amizade com o Paulo Vanzolini, um letrista com quem sempre quis fazer alguma coisa , conta Toquinho. Naquela noite, no Jogral, ele chegou para mim e escreveu em um papelzinho duas estrofes. Fiquei com aquele papel, e demorei para fazer a música. Criar uma melodia para uma letra já pronta é um grande desafio. Cada palavra tem um som dela própria, e tem-se que descobrir esse som. Por isso, foi muito trabalhoso achar uma linha melódica natural para Boca da Noite

Paulistano, Vanzolini completou 89 anos na última quinta-feira (25). Fez sua primeira canção, Ronda, em 1951, aos 27 anos. A música foi grava da em 1953, pela primeira vez, no lado B de um compacto de Inezita Barroso.

A segunda música de Vanzolini, Volta Por Cima, só seria gravada dez anos depois, em 1963, por Noite Ilustrada. O primeiro LP só com músicas de sua autoria veio em 1967, 11 Sambas e Uma Capoeira, que teve Chico Buarque entre os intérpretes.

Sobre Vanzolini, escreveu o pesquisador Zuza Homem de Mello, comparando-o a Adoniran Barbosa: “Frequentou a mesma escola: as ruas, as praças, os bares e os lugares da cidade. Ouviu os mesmos sons. Com uma atividade profissional vivida em ambiente diametralmente oposto, um  museu de zoologia, o doutor Paulo Emílio Vanzolini soube surpreendentemente sentir e absorver o espírito de um sambista da mais pura estirpe. Enquanto o doutor é zoólogo de dia, Paulinho é, da noite, um sambista”.

O velório do compositor, foi programado para a manhã de hoje (29), no próprio hospital e reservado à família. O enterro será à tarde no Cemitério da Consolação.

____________________

Um homem de moral reconhece a queda

Paulo VanzoliniQuando começou a pensar no roteiro do documentário Um Homem de Moral, sobre Paulo Vanzolini, o cineasta Ricardo Dias listou possíveis entrevistados para intercalar com imagens do show Acerto de Contas, que também dá nome à coletânea de discos lançada em homenagem ao compositor. 

Vanzolini: "O samba de São Paulo é o de Adoniran. É urbano, sotaque do Bexiga, italianado."
(Foto: Jailton Garcia,
Revista do Brasil nº 22)

O diretor lembrou de todos os fãs e admiradores de Vanzolini: Chico Buarque, Miúcha, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Martinho da Vila, Carlinhos Vergueiro. Não precisou marcar com ninguém.

“O Djalma Baptista, meu amigo e também cineasta, que conhece o Vanzolini desde criança, deu uma grande dica que acabou mudando completamente a estrutura do filme: o cara que melhor fala sobre Paulo Vanzolini é ele mesmo”, conta o cineasta. De fato, o sambista, autor de frases como “do povo, de cada um pessoalmente, eu não gosto, mas do povo em geral eu gosto muito”, é também sincero e irônico quando fala de si mesmo. E é justamente o monólogo de Vanzolini, intercalado com interpretações do Acerto de Contas, que faz de Um Homem de Moral um documentário interessante, que dá caras às suas canções e dá trilha sonora às caras de São Paulo.

A edição e a montagem são estruturadas e inspiradas no filme Woodstock. O registro dos lendários shows de 1969, dirigido por Michael Wadleigh e montado por Thelma Schoonmaker e Martin Scorsese, inovou ao dividir imagens em quatro partes na tela, em vez de ficar cortando as cenas toda hora. “Eu jamais gostei da maneira com que a televisão edita os musicais, cortando de personagem para personagem, em função do corte, nunca da música. Seria um desperdício levar esse vício de edição para o cinema e uma falta de sensibilidade com os músicos que Vanzolini preza tanto”, afirma Dias.

Para ele, é louvável que o cinema nacional entre na luta para recuperar personagens da música brasileira, desde que os documentários atinjam a massa, e não apenas um público restrito. “Quem pode pagar R$ 200 por mês para ver o Canal Brasil, por exemplo? Ou pagar R$ 30 para ir ao cinema toda semana?”, critica. “Há um enorme desperdício audiovisual. São 43 milhões de pessoas assistindo às maiores bobagens pela antena parabólica, de leilão de vaca a programa de auditórios gerados de Miami. Seria maravilhoso que pudessem ter acesso aos documentários que estão aí.”. 

A reportagem da Revista do Brasil seguiu a recomendação e ligou para a casa do sujeito que melhor fala sobre Paulo Vanzolini. O autor de Ronda e Volta por Cima fala pouco, é meio rabugento, mas cada frase vale um livro inteiro. Pergunto se ele é realmente antiquado, tradicionalista, ou é apenas charme. “Eu sou lá homem de fazer charme, rapaz?”, diz, sem paciência. “Eu sou puritano mesmo. Eu tenho 60 sambas e nunca usei a palavra ‘malandro’.” E o que achou do filme? “Sempre confiei no Ricardo. Se não confiasse, não faria. E ele soube valorizar os músicos, e isso sempre foi o mais importante para mim.” Ponto final. Um homem de moral.

Trecho de reportagem de Tom Cardoso para a Revista do Brasil nº 38, de agosto de 2009, a respeito de uma série de documentários então recém-lançados, sobre grandes nomes da música brasileira

registrado em: