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Pixinguinha, síntese e alma da música brasileira, morreu há 40 anos

por Vitor Nuzzi, da RBA publicado , última modificação 17/02/2013 15h47

Pixinguinha se definia como um boêmio caseiro: de casa para o bar, e de lá para casa novamente (Foto: Flickr)

São Paulo – Em uma obra clássica, dos anos 1960, Panorama da Música Popular Brasileira, o pesquisador Ary Vasconcelos definiu a importância de Pixinguinha. “Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido. Escreva depressa: Pixinguinha”. Autor de obras como Um a Zero, Ingênuo (sua preferida), Lamento, Vou Vivendo, Naquele Tempo, Rosa e, especialmente, Carinhoso, Alfredo da Rocha Vianna Filho morreu de enfarte há exatos 40 anos, em 17 de fevereiro de 1973, um sábado à tarde, antes do batizado de um afilhado, na igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, Rio de Janeiro. A Banda de Ipanema interrompeu seu desfile de carnaval. Tinha 75 anos, faria 76 em abril.

O músico Paulo Moura, que em 1997 gravou um disco só com composições de Pixinguinha, buscando “recriar” o grupo os Oito Batutas, avisou: com o nascimento do mestre, “nascia o som da alma brasileira”.

O coração de Pixinguinha já tinha falhado em 1964, o que não o impediu de continuar frequentando a uisqueria Gouveia, na Travessa do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro, onde batia ponto desde 1953 – no local, existe hoje um desenho na parede com gravuras de alguns de seus clientes assíduos, Pixinguinha ao centro. Nos últimos tempos, continuava sendo sua rotina diária, mas o copo agora era de água mineral. Foi um “boêmio caseiro”, como chegou a se definir: de casa para o bar, e de lá para casa novamente.

O coração fraquejou outra vez em 1972, quando sua companheira, dona Beti (Albertina Nunes Pereira), com quem se casara em 1927, passou mal e foi internada. Ele teve um problema cardíaco e ficou no mesmo hospital. Mas, para não preocupar a companheira, tirava o pijama e punha terno nos dias de visita, fingindo que estava vindo de casa só para vê-la. Por essas e outras, Vinícius de Moraes o chamava de São Pixinguinha. O escritor Sérgio Cabral, pai do atual governador do Rio, disse ter dois santos de devoção: São Francisco de Assis e São Pixinguinha. Dona Beti morreu em 7 de junho de 1972.

O nome que o consagrou tem origem em uma mistura de apelidos. A avó o chamava de pinzindim, palavra que segundo o radialista Almirante significava “menino bom” em um dialeto africano. O compositor e pesquisador Nei Lopes encontrou o termo psi-di em um dialeto de Moçambique, algo como “comilão” ou “glutão”. Suspeita-se que a segunda versão seja a mais correta. Depois veio o apelido maldoso, dado pela molecada, de “bexiguinha”, por causa das marcas que a varíola lhe deixou. Juntando um e outro, surgiu o Pixinguinha, autor de choros, valsas, maxixes, em harmonias inovadoras, e que compôs em 1911, com apenas 14 anos, seu primeiro choro: Lata de Leite.

Em final dos anos 1910, Pixinguinha e seu amigo Donga foram chamados para formar uma orquestra que tocaria na sala de espera do cine Palais, no centro do Rio. Era uma época em que músicos se apresentavam no cinema – o maestro Ernesto Nazareth, que tocava no Odeon, iria lá para ouvir os Oito Batutas, que estrearam em 7 de abril de 1919. Provocou alguma polêmica na época, porque quatro de seus integrantes eram negros. O conjunto ganhou o mundo na década seguinte. Na França, por exemplo, permaneceram seis meses, um sucesso embalado pela “flauta infernal” de Pixinguinha, com escreveu um cronista daquela época.

Houve quem tentasse relacioná-lo ao jazz. O pesquisador João Máximo contestou, ao analisar a música dos batutas. “Vinha do lundu, do choro antigo, do samba de roda, do maxixe. Misturar tudo isso e improvisar em cima foi o modo brasileiro que Pixinguinha e sua turma arranjaram para vivenciar a melhor música instrumental brasileira”.

O mesmo João Máximo disse que Pixinguinha foi “o mais completo, abrangente e artisticamente bem-sucedido músico popular que o Brasil teve”. Uma face talvez menos conhecida tenha sido a de arranjador. “Foi Pixinguinha quem primeiro organizou uma orquestra brasileira para gravações de discos, nos anos 30”, observou.

Nos anos 1940, o “flautista infernal” passou a tocar saxofone. Nunca ficou bem claro o motivo da troca, mas acredita-se que, sendo bom de copo, as mãos não tinham a mesma firmeza de antes. Formou dupla com o flautista Benedito Lacerda, com quem gravou 34 discos de 1946 a 1951. Em 1956, virou nome de rua no Rio. A última vez que tocou sax em estúdio, por iniciativa do produtor e compositor, Hermínio Belo de Carvalho, foi em 1970, ano da gravação do LP Som Pixinguinha, quem depois seria relançado com o nome São Pixinguinha.

Na igreja, em um trecho da melodia manuscrita de Carinhoso, escreveu um dedicatória ao “querido afilhadinho Rodrigo”. O batizado seria às 16h, quando a Banda de Ipanema se preparava para sair pelo bairro. Com dificuldade para respirar, Pixinguinha caiu e morreu instantes depois. Na biografia escrita por Sérgio Cabral, o autor conta que começou a chover forte. O mesmo padre que faria o batizado agora rezava diante do corpo. Aos tristonhos foliões que tentavam entrar na igreja e eram barrados por policiais, um cabo falou: “Pixinguinha morreu num dos lugares mais bonitos da face da terra. Morreu como Cristo. Sabem por quê? Porque, como Jesus, quando ele fechou os olhos, a chuva começou a cair”.