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Eleição presidencial

Só o amor e o respeito salvam a democracia nesta reta final, diz deputada

Para Áurea Carolina (Psol-MG), a eleição de novas parlamentares, negras e de esquerda como ela, é o contraponto ao discurso de apologia à violência que expõe um país até então desconhecido
Publicado por Cida de Oliveira, da RBA
18:58
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Ligia Francilino/Midia Ninja
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São Paulo – Em meio à onda de ódio incitada nas redes sociais e nas ruas por seguidores do candidato Jair Bolsonaro (PSL), inclusive com ameaças explícitas de mais violência a partir da posse, caso seja eleito neste segundo turno, somente a conduta amorosa e de respeito vai salvar a democracia nesta reta final. “É o que vai salvar a gente”, defende a deputada federal recém-eleita Áurea Carolina (Psol-MG), que com seu coletivo investe tempo e esforço em atividades para reverter votos para Fernando Haddad (PT) e sua vice Manuela D’ ávila (PCdoB).

“Esse discurso de extrema direita muito escancarado, de apologia à violência, expõe um Brasil que a gente não conhecia. Mas em contrapartida a gente tem a chegada de lutadoras que têm um trabalho profundo, de proximidade com as pessoas. E isso vai ultrapassar essa conjuntura”, afirma a parlamentar, que deixa um mandato coletivo na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte – o Gabinetona –, sem esconder o temor que sente com a ascensão do partido de Bolsonaro e o aprofundamento do conservadorismo sobre o já conservador legislativo federal.

Áurea é uma das mulheres negras e de esquerda eleitas em 2018, espécie de sementes plantadas pela vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (Psol), executada em maio, a tiros. As demais são Talíria Petrone, para deputada federal, e Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro, que trabalhavam como assessoras de Marielle, eleitas para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, todas pela mesma legenda.

Na Bahia foi eleita a primeira deputada estadual negra, Olívia Santana (PCdoB). E em Pernambuco, a chapa coletiva Juntas, do Psol, com cinco deputados estaduais, entre elas a advogada Robeyoncé Lima, mulher negra, transexual e a primeira a ter o direito de usar o nome social na Ordem dos Advogados do Brasil. 

No entanto, Áurea afirma que a perspectiva é de muita resistência independentemente do resultado da eleição presidencial. “É o enfrentamento de lutas que a gente já vem fazendo, e que com o golpe se fortaleceram e que agora tem uma exigência ainda maior”.

A estratégia, segundo ela, é intensificar a luta nas bases, onde estão os movimentos populares. Nessa perspectiva, a resistência vai combinar essa construção autônoma com os movimentos das periferias, onde estão as mulheres, jovens e comunidade LGBT, as maiores vítimas do ódio, da intolerância e dos retrocessos desde o golpe de 2016, que destituiu a presidenta eleita Dilma Rousseff (PT). “Estar na institucionalidade permite potencializar o trabalho árduo que a gente faz no dia a dia”.

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Ocupação

Além disso, Áurea defende a retomada da mobilização social, com educação popular, para que o campo democrático no país seja ampliado e ocupe espaços esvaziados, que acabaram ocupados por setores conservadores, como igrejas evangélicas que têm na fé o principal produto comercializado.

“A gente precisa olhar com muita generosidade, com muita humildade para essa conjuntura toda e ver que somos corresponsáveis em certa medida por essa situação. Claro que não temos o controle dessas grandes instituições e nem armamos o golpe contra a democracia. Mas há um trabalho de formiguinha que a gente precisa continuar fazendo independente do contexto político. A gente não pode descansar, porque no nosso vácuo entram esses exploradores”.

A atual conjuntura desfavorável, porém, “não apaga a beleza que brota das sementes mesmo sobre ruínas, porque ali estão os focos de resistência”, acredita. “Nem tudo está tudo perdido; não é terra arrasada. A Marielle fazia esse trabalho e ninguém a conhecia até ser executada. Só quem estava perto dela, que trabalhava com ela, mas um trabalho incrível, que faz a diferença”.

E em caso de uma eventual eleição de Bolsonaro, “o respaldo que será dado os que já estão em uma frequência macabra requer a continuação do trabalho que vem sendo feito pelo amor, com afeto, na construção de políticas como o povo das periferias, com mulheres, jovens, pessoas religiosas”, afirma.

E a força, conforme acredita, está no exemplo dos antepassados. “Nossas matriarcas, que possibilitaram que nós estivéssemos aqui hoje, enfrentaram a escravidão, a ditadura. Elas nos dão condições de perceber que não é o fim do mundo, que não estamos desamparados, sem saída”, diz.