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Neutralidade entre Haddad e Bolsonaro deve custar caro a partidos e à democracia

Maioria dos partidos preferiu não apoiar nenhum candidato no segundo turno, mas podem ser punidos pelos eleitores e pelas engrenagens do próprio sistema político, agravando a frágil institucionalidade

Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress
Bolsonaro #EleNão

Entre um candidato democrático e outro autoritário, posição de neutralidade é oportunismo dos partidos

São Paulo – No segundo turno das eleições 2018, até o momento Psol, PSB e PDT declararam apoio ao candidato a presidente Fernando Haddad (PT). Do outro lado, o PTB foi o único partido a aderir à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). Entre os dois lados da disputa, PP, PSDB, DEM, Solidariedade, Podemos, PSD, PR, PRB, Patriotas e DC declararam neutralidade, liberando políticos e militantes a apoiar, ou não, qualquer um dos lados.

Já a Rede, de Marina Silva, declarou “nenhum voto” em Bolsonaro, mas diz também não apoiar Haddad, fazendo oposição em um futuro governo. O Novo não vai apoiar nenhum candidato, mas se diz “absolutamente contrário” ao PT. Por fim, o PPS anunciou oposição a ambos.

Trata-se de um “cálculo fisiológico” dos partidos que optaram pela neutralidade e suas variações. Querem manter aberta a possibilidade de integrar a base de um eventual governo, independentemente do candidato eleito, segundo o analista político do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz, o Toninho. Mas esse “oportunismo” pode custar caro.

Em artigo intitulado “Tratar Haddad e Bolsonoro como equivalentes é injusto“, o jornalista Janio de Freitas critica com acidez a suposta neutralidade. “Não há neutralidade diante desta bifurcação. A decisão do PSDB e do DEM (chama-se Democratas, veja só) de não apoiar Jair Bolsonaro nem Fernando Haddad parece fuga à responsabilidade, a sua tradicional subida no muro. É, no entanto, apoio a Bolsonaro e ao que ele representa… Os pilatos envergonhados recorrem ao ardil apenas verbal da neutralidade”, observa o jornalista.

Para Janio, “os defeitos de Bolsonaro que nos interessam, muitos, não são vistos em Haddad. As qualidades de Haddad, como pessoa e como homem público, nunca foram vistas em Bolsonaro nos seus 27 anos de político”.

Assumir posição 

Toninho, do Diap, ressalta a questão. “Um partido como o PSDB, que se declara como democrático, tinha que assumir claramente uma posição: se está a favor de um candidato cuja chapa é formada basicamente por militares com uma visão autoritária e outro candidato com visão democrática com o qual as principais lideranças do partido estão de acordo? Como é que se omitem numa situação dessas? É muito grave e vão pagar um preço muito grande, tanto na hipótese de Haddad ser eleito, como também com Bolsonaro”, avalia o analista.

“Vão pagar o preço, tanto perante a opinião pública como também em relação aos próprios partidos que demarcam o campo político. A sociedade quer que os partidos se posicionem de modo claro”, diz Toninho. Para ele, partidos de centro-direita e direita adotam uma neutralidade envergonhada, pois, na verdade gostariam de apoiar o candidato do PSL.

“O problema é que o Bolsonaro rejeita esse tipo de apoio nessa fase da campanha. Nesse momento, tenta se manter coerente com o discurso de rejeição e negação do sistema político e suas práticas, fazendo uso desse procedimento, para depois procurar desesperadamente os partidos em busca de governar”, alerta o analista, sobre as contradições do discurso da antipolítica do candidato. Ele já afirmou que, em um eventual governo, não vai negociar com partidos, mas individualmente com os parlamentares. 

É uma coerência apenas aparente. Uma vez eleito, não vai ter como fugir disso. Vai ter que sentar e negociar com a institucionalidade. Não existe isso de ser outsider, de negociar individualmente, por cima dos partidos e das instituições. Quem tentou fazer isso, sempre se deu mal, não reuniu votos suficientes ou enveredou para o autoritarismo“, diz Toninho.

Ele afirma que esse modelo de negociação é ainda mais suscetível à corrupção, pois cada voto individual vai exigir uma contrapartida, em cargos, verbas ou benesses de outro tipo. “Não tenho dúvidas de que essa negociação individual, além de mais demorada e custosa do ponto de vista operacional, é muito danosa do ponto de vista da lisura das negociações. O cara quando vai negociar o voto individualmente vai trocar por algum tipo de favor. Não está negociando em termos de ideias, de um programa.”

Sobre o DEM, Toninho diz que o partido espera com a suposta neutralidade fazer a presidência da Câmara, tanto com Haddad como com Bolsonaro. Mas deve ser um desafio quase impossível, pois, com Bolsonaro eleito, é provável que o PSL, segunda maior bancada, tente comandar a Casa. Por outro lado, o atual presidente Rodrigo Maia se mostrou “liberal e fiscalista” demais para estar à frente da Câmara num governo petista. “Sem Maia, não teriam sido aprovadas as reformas do governo Temer“, diz o analista do Diap.

Risco à democracia

Em circunstâncias normais, um partido optar pela neutralidade já seria estranho. No caso em questão, de polarização entre um candidato que “namora com o fascismo” e outro comprometido com valores “democráticos básicos”, a opção pela neutralidade é vista como “evasão de responsabilidade” ou “irresponsabilidade criminosa”, segundo o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) Luis Felipe Miguel.

“Não querer se comprometer com nada não é papel de uma liderança política. Há um contraste muito forte entre os dois candidatos, não porque haja uma polarização de extremos, mas porque existe uma linha divisória entre violência e não violência, entre autoritarismo e democracia”, afirma o professor. De acordo com ele, com a liderança nas pesquisas do candidato do campo autoritário, “caberia a todas as forças minimamente comprometidas com os valores democráticos, liberais ou de justiça social, evitar com todas as forças que esse candidato vença a eleição”.

Para ele, a neutralidade também é uma forma disfarçada de apoio a Bolsonaro. “Quando alguém declara #EleNão, mas neutro – caso dos setores vinculados ao PSDB, da Marina, da Kátia Abreu – o que se vê é que são figuras que estão torcendo para que o Bolsonaro ganhe pois não toleram a volta do PT por uma série de ressentimentos e discordâncias”, diz o professor. Essas lideranças imaginariam recuperar seu capital político após quatro anos de um governo “fascistóide”, segundo o professor.

“Isso não vai ocorrer porque as nossas instituições políticas, que já foram severamente fraturadas por conta do golpe de 2016, não têm solidez para garantir a continuidade de qualquer coisa próxima de um processo democrático depois de quatro anos de governo Bolsonaro. Quem vai nos defender dessa ofensiva fascista? Um STF presidido por alguém que não reconhece o golpe de 1964? A gente corre o sério risco de não ter mais uma porta de saída porque eles evidentemente vão buscar fechá-la. É de um oportunismo e de uma irresponsabilidade criminosa desses partidos, nesse momento, apresentarem qualquer tipo de discurso de neutralidade.”