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Hegemonia?

Quatro anos cruciais para o progressismo

Governo Dilma deverá dar 'conta de dívidas políticas'. Mais uma eleição sob as atuais condições de exaustão do modelo de governança poderá ser fatal para o PT
16:21
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plebiscito

Oito milhões de assinaturas da consulta popular por um plebiscito de reforma política: grito nos ouvidos do governo

Há dois anos, os analistas políticos no Brasil estavam em consenso de que a direita não apenas não tinha mais qualquer condição de pautar a agenda política, como havia perdido qualquer discurso que pudesse soar como legítimo e verossímil. Os anos de governo do PT teriam conseguido estabelecer uma hegemonia discursiva com a qual o campo das proposições políticas estava, mal ou bem, demarcado, e que os adversários à direita só poderiam jogar dentro dele. E para perder.

Era assim, até que irromperam as jornadas de junho de 2013 e, com elas, a insinuação bastante contundente de que a tal hegemonia discursiva havia, na verdade, varrido muita coisa para debaixo do tapete; coisas que a mansa e aletargada burocratização da política sob a (às vezes, bastante presunçosa) corte petista não tinha como explicar, senão recorrendo ao velho funcionalismo psicologicista (liberal e utilitarista) da pirâmide das necessidades de Maslow: “É a nova classe média querendo mais coisas”. O mito do bem-estar social reduzido ao critério do consumo (de modo idêntico ao que o neoliberalismo havia feito em bem mais larga escala e profundidade na Europa) parecia agora engolir o próprio rabo da serpente hegemônica.

Dois anos depois daquele consenso anunciado, o campo progressista correu o risco iminente de ser derrotado na eleição presidencial, amargou um notável fiasco nas eleições majoritárias dos estados e foi posto efetivamente contra a parede nas eleições legislativas. No entanto, o processo eleitoral de 2014 não representou necessariamente a ressurreição de uma agenda política da direita.

A campanha presidencial, do lado da direita, não foi, na verdade, uma campanha propositiva. Ela moveu-se apenas pelo fôlego de uma histeria condenatória contra um adversário que precisava ser demonizado até os limites do núcleo neuronal reptiliano da Guerra Fria – senão antes: ao da Guerra Civil Espanhola. Pelo contrário, a direita, tanto com a candidatura de Aécio Neves quanto com a de Marina Silva (talvez até mais com a segunda), escondeu (e até mesmo sonegou) o quanto pôde as “reais intenções” regulatórias e até as travestiu com a promessa de manutenção dos programas sociais dos governos petistas.

O farto uso, até o último momento, de expedientes bombásticos pela grande mídia, pautados pelo timing do primeiro impacto – e não pela tática de efeito profundo da “desconstrução”, essa, sim, utilizada pelo PT – foi apenas mais um sintoma de que não apenas a direita não tinha nada a propor com ambição à legitimidade como também que parecia mover-se, antes de mais nada, por um instinto agonístico. A direita pretendeu ganhar a eleição presidencial (talvez pensando em repetir a receita de 1989) com jogo de cena, o que incluiu o recurso retórico da “nova política”, nem tanto com um programa de ideias.

A hegemonia da discursividade política ainda está com o campo progressista. Isso significa que, mesmo que Aécio Neves ganhasse, iria governar em um campo simbólico previamente demarcado pelo adversário e todo o sucesso do trabalho político seria medido pela capacidade de desconstruí-lo, e não apenas de acossá-lo, como buscou fazer em campanha.

A diferença agora, no entanto, é que essa hegemonia progressista se tornou uma hegemonia sob escrutínio, sobretudo frente à aparente fragilidade demonstrada diante de todo o “jogo de cena” das forças conservadoras, especialmente eficaz nas eleições legislativas. A pergunta é, portanto: por que o ideário do petismo-no-poder mostrou-se subitamente frágil? A resposta para isso parece estar exatamente naquilo que foi varrido para debaixo do tapete.

Em um artigo recente, tentei explorar alguns movimentos um pouco mais profundos dos embates pela legitimação dos discursos políticos e as contingências institucionais e, em face desses movimentos, vejo-me obrigado a concordar com os comentaristas que consideram que o modelo de governança dos 12 anos do PT no governo federal esgotou-se.

O encastelamento palaciano da burocracia partidária, o abandono do diálogo com os movimentos sociais em favor das soluções tecnocráticas, a timidez em ampliar os espaços institucionais de participação, o acomodamento ao jogo de corte da governabilidade esvaziaram o sentido daquilo que outrora já foi chamado de militância. A ação política petista passou a desprezar sistematicamente a participação e tornou-se dependente do marketing em terreno hostil. Não se combate em terreno hostil, senão sob condições desesperadoras. O resultado é, irremediavelmente, a fragilidade, senão a derrota.

Até bem recentemente, Dilma Rousseff não parecia ter-se dado conta do que havia sido varrido para debaixo do tapete nesses 12 anos. Talvez só tenha começado a percebê-lo quando lhe foram apresentadas as quase 8 milhões de assinaturas da consulta popular por um plebiscito de reforma política, uma iniciativa que ela reconheceu impraticável pelos meios palacianos. E talvez só tenha se dado conta com mais intensidade diante da necessidade premente, quase desesperadora, da campanha petista em agregar quadros militantes dos movimentos sociais.

Os canais com alguns setores, no entanto, permanecem singelamente obstruídos, como o caso daqueles que chegam até ambientalistas e indigenistas. Neste último caso, apenas três dias antes da eleição do segundo turno o site oficial de campanha dignou-se a emitir uma declaração, tardia e quase inócua, da posição da candidata contra o famigerado Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 215 patrocinado pela bancada ruralista, que retira do Executivo e transfere ao Congresso a competência pela demarcação das terras indígenas. A declaração, dirigida aos “primeiros brasileiros”, parecia enquadrá-los sob o rótulo de um certo exotismo nacionalista, em lugar de sufragar-lhes os direitos coletivos que também cabem a outras comunidades brasileiras sistematicamente atucanadas por interesses fundiários predatórios.

Em linhas gerais, o desenvolvimentismo raso e tecnocrático parece conspirar por uma espécie de poda da cidadania em favor de índices infraestruturais sobredeterminantes, ditados por uma razão econômica obscura e autonomizada. O que ele faz é abortar o grande debate possível e necessário sobre a sociedade que queremos: aquela regida pela lógica do ganho e da predação, ou aquela regida pela solidariedade e pela sustentabilidade.

Os quatro anos que se seguem de governo Dilma não terão alternativa senão dar conta dessas dívidas políticas, porque mais uma eleição sob as atuais condições de exaustão desse modelo de governança poderá ser fatal para o Partido dos Trabalhadores. Nesse sentido, os próximos quatro anos de governo federal poderão significar, ou o epílogo da história política do PT – e a transformação em algo como o PS francês ou o PSOE espanhol – ou então o renascimento do campo progressista, com um novo fôlego, capaz de fazer frente e até mesmo fincar trincheiras no território hostil hoje dominado por uma indústria midiática, cuja legitimidade parece agora, também ela, dar os primeiros sinais decisivos de exaustão.

Ricardo Cavalcanti-Schiel é antropólogo, mestre e doutor pelo Museu Nacional (UFRJ)