Reta final

Aécio insiste em corrupção; Dilma lembra aeroporto, nepotismo e lei seca

Agressividade marca segundo embate. Tucano chama petista de 'incompetente' e 'conivente' com desvios, e presidenta lança nova pegadinha ao falar de desrespeito à Lei Seca

Adriana Spaca/Brazil PhotoPress/Folhapress
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Aécio Neves e Dilma Rousseff se preparam para o debate no SBT, marcado por agressividade e diferenças de propostas

São Paulo – Com temas repetidos, o segundo debate entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) foi marcado pela subida de tom nas acusações pessoais e pela escolha da corrupção como assunto central. De um lado o tucano acusou a presidenta de “conivente” com malfeitos e de “incompetente” na administração pública durante o encontro de hoje (16) no SBT. De outro, a candidata à reeleição levantou nova pegadinha ao falar sobre o respeito à Lei Seca, o que irritou o adversário, e elencou casos de corrupção envolvendo tucanos.

Aécio buscou tom mais agressivo logo na pergunta inicial, ao falar sobre denúncias de corrupção na Petrobras, insinuando que a petista trabalhou para acobertar casos de desvios. “Ou a senhora foi conivente, ou a senhora foi incompetente para cuidar da maior empresa brasileira.”

Dilma voltou a abordar diferenças entre PT e PSDB no que se refere ao campo moral, avaliando que nas administrações dela e de Luiz Inácio Lula da Silva houve uma mudança de comportamento, com liberdade para os órgãos de investigação e de processamento das denúncias. “Quero dizer para o senhor: tenho um compromisso diferente. O meu compromisso é investigar e punir. Aqueles governos que não investigam, não acham”, afirmou, acrescentando que os escândalos envolvendo tucanos não têm presos porque o trabalho de apuração foi engavetado.

Em outro momento em que se tratou do caso da Petrobras, Dilma falou a Aécio sobre a denúncia de que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra intermediou o pagamento de propinas a parlamentares tucanos para que esvaziassem uma comissão parlamentar de inquérito (CPI). “É muito fácil o senhor ficar fazendo denúncias. Quando a gente verifica que o PSDB recebeu propina para esvaziar uma CPI, o que importa? Importa investigar.”

Em uma de suas perguntas, Dilma levantou a questão do nepotismo, acusando Aécio de nomear irmãs, tios e primos durante seu governo em Minas Gerais, de 2003 a 2010. O tucano procurou comparar o caso ao uso de informações pessoais de Lula por Fernando Collor nas eleições de 1989, e ouviu da petista que se trata de uma questão bem diferente por envolver o uso da máquina pública em proveito individual de parentes.

Aécio afirmou que sua irmã, Andréa, era voluntária no governo mineiro, e deixou de responder aos demais casos. “Seu irmão, candidata, foi nomeado pelo prefeito Fernando Pimentel em 20 de setembro de 2003 e nunca apareceu para trabalhar. Essa é a grande verdade. Não queria trazer esse tema aqui”, rebateu.

Em mensagem postada no Twitter, o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, informou que Igor Rousseff foi assessor especial. “É advogado e trabalhou com seriedade e honradez.” Já Dilma afirmou a Aécio que a legislação sobre nepotismo proíbe o emprego de parentes em uma mesma esfera de governo, o que não é seu caso. “A sua irmã e o meu irmão têm de ser regidos pela mesma lei”, afirmou. “Todo mundo sabe que ela era responsável pela destinação das verbas em todas as questões relativas à propaganda. Quanto vocês colocaram nas rádios e no jornal que vocês possuem?”

A exemplo do que ocorreu no primeiro debate, quando levantou o tema da violência contra a mulher, Dilma elencou uma questão pessoal delicada de seu adversário ao falar sobre a importância da Lei Seca, sancionada por ela em 2012 para endurecer a punição a motoristas flagrados dirigindo bêbados ou drogados. “Queria saber o que o senhor acha, e como o senhor vê essa questão da Lei Seca. E se todo cidadão que for acionado, que for solicitado, deve se dispor a fazer exame de álcool e droga”, disse, sem mencionar a recusa de Aécio a ser submetido a teste quando parado em uma blitz no Rio de Janeiro.

“A senhora traz nesse debate, talvez pelo desespero, e tenta deturpar um tema que tem que ser colocado com absoluta clareza. Eu tive um episódio sim, e reconheci, candidata, eu tenho uma capacidade que a senhora não tem. Eu tive um episódio que parei numa Lei Seca porque minha carteira estava vencida e ali naquele momento inadvertidamente não fiz o exame e me desculpei disso”, rebateu o tucano.

Na resposta, Dilma desconheceu novamente a questão pessoal do adversário. “Acho muito importante a Lei Seca para o Brasil. Acho que o senhor está tentando diminuí-la. Sabe por quê? No Brasil, todos os dias, todas as semanas tem gente morrendo quando o motorista dirige embriagado ou drogado.”

No segmento das alfinetadas pessoais, Dilma levantou ainda o estilo de vida de Aécio ao ser questionada sobre a insistência em abordar questões relativas ao governo do PSDB em Minas Gerais. O tucano acusou a petista de desconhecer o estado e de se preocupar excessivamente com os resultados da gestão do PSDB, insinuando que ela teria preferência por disputar o governo mineiro ao Planalto. “Não coloque Minas Gerais como sendo o senhor”, afirmou a petista. “O senhor não é Minas Gerais. Eu nasci em Minas, aliás antes do senhor. Se é por isso, nasci antes do senhor. Saí de Minas não foi para passear no Rio, candidato, foi por causa da ditadura.”

Em tema que surgiu ao longo de todos os debates, do primeiro e do segundo turnos, Dilma e Aécio trocaram farpas a respeito da construção do aeroporto de Cláudio, na região metropolitana de Belo Horizonte, erguido em terras de um tio do tucano usando dinheiro do governo estadual. “É muito triste ver uma presidente da República mentindo. O aeroporto de Cláudio foi construído numa área desapropriada pelo estado”, afirmou o candidato do PSDB.

“No caso do aeroporto de Cláudio o senhor deve, sim, explicação. Deve explicação porque construiu um aeroporto dentro de sua propriedade”, rebateu a petista. “Uma das coisas mais importantes do país é que não podemos mais tolerar o uso de bens públicos para beneficiar A, B ou C privadamente. Essa é uma questão que nenhum candidato à presidência da República pode se furtar a responder.”

Economia

Tema relevante no primeiro encontro, e historicamente centro de divergências entre PT e PSDB em todas as disputas presidenciais desde 1995, a economia não foi protagonista desta vez. A principal questão se deu em torno do combate à inflação, com a acusação do tucano de que o atual governo perdeu o controle sobre os preços dos itens básicos de consumo. “Agora há pouco a senhora disse que a inflação não é um problema do governo, é problema sazonal, e eu acho que não é, por isso, comigo, tolerância zero com a inflação”, disse.

Já a petista afirmou que há uma ideia de manipular o sentimento da população para criar uma sensação negativa nesta seara. “Existe uma tentativa de criar um clima de quanto pior, melhor. Essa tentativa vocês fizeram na Copa, dizendo que não ia ter Copa, que não tinha condições. Ficou claro que o Brasil fora de campo estava muito bem preparado”, disse, atribuindo a elevação de preços a um problema provocado pela seca que afeta parte do país nos últimos meses.

A petista criticou ainda a proposta da equipe econômica de Aécio de levar a inflação para uma taxa de 3% ao ano – nos últimos anos o IPCA, que é a medição oficial, tem ficado próximo do teto estabelecido pelo Banco Central, de 6,5%. “Não vou combater inflação com os métodos do senhor, que é desempregar, arrochar e desinvestir”, disse. “Para ter inflação de 3% vamos ter uma taxa de desemprego de 15%. Ele está se queixando de uma taxa de desemprego de 5%.”

O próximo encontro entre Dilma e Aécio será domingo, na Record. Depois disso, eles têm mais um debate, o último antes da votação do dia 26, organizado pela Globo.