Volta às aulas

Em São Paulo, 82% das escolas estaduais não têm mais que dois banheiros para alunos

Estudo mostra que a infraestrutura das escolas paulistas não permite os protocolos de segurança contra a covid-19 e que volta às aulas ainda é séria ameaça

Marcelo Camargo/EBC
Ao menos 93,4% das turmas terão de ser adequadas. Quase todas as 5.209 escolas mapeadas não têm consultório médico, ambulatório ou enfermaria

São Paulo – A atual infraestrutura das escolas estaduais de São Paulo não permite o estabelecimento dos protocolos de segurança mínima para que se reduza o risco de contágio da covid-19. Com isso, a volta às aulas representa sérios riscos. É o que aponta levantamento realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e o Dieese, a pedido do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). 

Do total de 5.209 unidades escolares mapeadas, 99% delas não possuem enfermaria, consultório médico ou ambulatório. Além de que 82% das escolas não têm mais do que dois sanitários para uso dos estudantes. O estudo conclui ainda que pelo menos 93,4% das turmas teriam de ser adequadas para obedecer o distanciamento mínimo de 1,5 metro entre os alunos, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

Intitulado “Manual Técnico para Escolas Saudáveis”, o levantamento propõe soluções que guiem a construção e adequação dos espaços escolares, de acordo com a Apeoesp. Cerca de 11% das escolas estaduais, por exemplo, ainda não têm pátio onde os alunos passem o intervalo entre as aulas. E 13% não dispõem de quadra ou espaços poliesportivos. Há ainda 48% delas que não têm banheiro acessível para pessoas com algum tipo de deficiência. O objetivo do manual é responder às necessidades provocadas pela pandemia do novo coronavírus e discutir a relação dos espaços das escolas com os riscos de contágio. 

Secretaria contesta

A Secretaria Estadual de Educação do governo de João Doria (PSDB) contesta o estudo e disse não reconhecer os dados. Presidenta da Apeoesp e deputada estadual, Maria Izabel Noronha, a Bebel (PT-SP), criticou a postura do secretário, Rossieli Soares. “A pesquisa presta um serviço para o Estado, que devia ter tido vergonha e feito ele mesmo esse trabalho”, afirma. Em entrevista na manhã de hoje (31) ao jornalista Glauco Faria, do Jornal Brasil Atual, Bebel destacou que, nesse cenário de falta de estrutura, é “precipitada a volta às aulas presenciais” em meio à pandemia

“O estado fica muito nessa coisa de ‘vou comprar álcool em gel, vou comprar máscara, e isso e aquilo’. Poxa, (haver apenas) dois banheiros para uma escola de mais de mil alunos – e isso eu já falava – forma filas. Formou fila, é aglomeração. Portanto, a gente está colocando em risco as crianças de se contaminarem. E elas vão passar para as famílias”, alerta a deputada. 

Milhões expostos

Ao todo, oito milhões de pessoas estarão expostas ao coronavírus, caso a volta às aulas presenciais neste momento se confirme em São Paulo. Segundo a Apeoesp, o número é a soma do total de estudantes, (7,6 milhões), 343,7 mil professores e 74,3 mil funcionários. 

Inicialmente, a previsão era de que as escolas seriam reabertas no dia 8 de setembro, mas a data foi adiada pelo governo há três semanas. A volta às aulas está prevista agora para 7 de outubro, a depender da permanência das regiões por 28 dias na fase amarela do Plano São Paulo. A secretaria alega que já comprou os itens de segurança para os alunos. 

Para Bebel, as medidas “estão longe de ser um protocolo”. “O que o secretário faz, na verdade, é uma lista de procedimentos, não é protocolo. Protocolo é uma coisa mais assentada na ciência, não na visão dele como suposto conhecedor da estrutura física das escolas públicas do estado”, critica. “As escolas públicas são mal arejadas. Você entra e é um túnel, um ‘cadeião’. Isso não vai poder continuar mais no outro ambiente. E não é só pela pandemia, mas porque não é um ambiente saudável e nem propício para um projeto pedagógico”, explica a deputada e dirigente sindical. 

Confira a entrevista de Bebel 

Redação: Clara Assunção